{"id":2026,"date":"2010-03-21T20:40:53","date_gmt":"2010-03-21T23:40:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2026"},"modified":"2010-03-21T20:40:53","modified_gmt":"2010-03-21T23:40:53","slug":"reconhecimento","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/reconhecimento","title":{"rendered":"RECONHECIMENTO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Parece n\u00e3o fazer parte da natureza humana o reconhecimento dos m\u00e9ritos alheios. Acredita-se que tenha existido um tempo em que havia admira\u00e7\u00e3o sincera. Hoje, esse devotamento desprendido deu lugar \u00e0 \u201cinveja boa\u201d, como se a inveja, que \u00e9 a elimina\u00e7\u00e3o virtual do Outro, possa ter natureza benigna de alguma forma. Quem teve o privil\u00e9gio de avan\u00e7ar na idade sabe que precisa desistir do olhar alheio agradecido e se conformar com o segredo das pr\u00f3prias qualidades, compartilhadas apenas com a divindade.<\/p>\n<p>\u201cDeus est\u00e1 vendo\u201d \u00e9 um consolo, mas fica um rescaldo, uma esperan\u00e7a v\u00e3 de que a qualquer momento a justi\u00e7a v\u00e1 se manifestar. Mas isso n\u00e3o se limita aos velhos. Qualquer um pode ser esquecido em vida. N\u00e3o \u00e9 outro o motivo das conversas aos berros, em que as pessoas, desesperadas, puxam a sardinha para a pr\u00f3pria brasa. Nesses casos, o sil\u00eancio \u00e9 a constata\u00e7\u00e3o de que s\u00f3 seremos ouvidos de verdade em outras vidas, quando as li\u00e7\u00f5es destes tempos obscuros forem totalmente assimiladas.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei porque as pessoas n\u00e3o gostam de admitir que admiram algu\u00e9m. Talvez porque haja uma id\u00e9ia preconceituosa sobre o elogio, visto como manifesta\u00e7\u00e3o de falsidade ou o m\u00ednimo de ser um objeto descart\u00e1vel. Quem elogia precisa ter capital simb\u00f3lico para isso, sen\u00e3o \u00e9 encarado como puxa-saco. Cuida-se para n\u00e3o elogiar para n\u00e3o dar o bra\u00e7o a torcer na tal sociedade competitiva. Quando algu\u00e9m se manifesta a favor de algu\u00e9m, ou se desculpa sobre o que vai dizer ou exagera at\u00e9 a insanidade para que ningu\u00e9m conteste.<\/p>\n<p>N\u00e3o deveria ser assim. Gostar do que algu\u00e9m faz ou \u00e9, sem nenhum outro interesse do que o prazer do conv\u00edvio com os contempor\u00e2neos, sem conota\u00e7\u00e3o oculta nem mesquinharia \u00e0 vista, \u00e9 sinal expl\u00edcito de vida civilizada, a que perdemos com a sucess\u00e3o de ditaduras e de falsas democracias. N\u00e3o queremos nos comprometer, por isso moitamos sobre as qualidades dos nossos pares. Apontar algu\u00e9m pode ser confundido com dela\u00e7\u00e3o. Escondemos as amizades sinceras para que n\u00e3o sofra amea\u00e7as.<\/p>\n<p>Talvez seja isso. Ou ent\u00e3o temos mesmo essa voca\u00e7\u00e3o de negar quem nos cerca, por uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia num mundo predat\u00f3rio. O que \u00e9 tr\u00e1gico, quando vemos talentos verdadeiros sofrerem num ex\u00edlio injusto, enquanto contamos as feridas proporcionadas pelo longo sofrimento.<br \/>\n<em><br \/>\nCr\u00f4nica publicada no dia 16 de mar\u00e7o de 2010, no caderno Variedades, do Di\u00e1rio Catarinense.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Parece n\u00e3o fazer parte da natureza humana o reconhecimento dos m\u00e9ritos alheios. Acredita-se que tenha existido um tempo em que havia admira\u00e7\u00e3o sincera. 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