{"id":2028,"date":"2010-03-21T20:42:23","date_gmt":"2010-03-21T23:42:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2028"},"modified":"2010-03-21T20:42:23","modified_gmt":"2010-03-21T23:42:23","slug":"woody-allen-e-no-entanto-funciona","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/woody-allen-e-no-entanto-funciona","title":{"rendered":"WOODY ALLEN: E NO ENTANTO, FUNCIONA!"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p><strong>Whatever works<\/strong> (2009), de Woody Allen, pode significar \u201cFunciona, apesar de tudo\u201d, ou, como foi traduzido, \u201cTudo pode dar certo\u201d (tudo no sentido de qualquer coisa). Misteriosamente, contra todas as evid\u00eancias, isso acaba acontecendo. Desde que haja uma carga de ingenuidade, um pacto entre a escassez e desigualdade de protagonistas, coadjuvantes e o p\u00fablico. Um choque de diversidades, um ac\u00famulo de bizarrices que des\u00e1guam em estu\u00e1rios po\u00e9ticos. Uma sinceridade brutal que em vez de afastar, aproxima. Um escritor como poucos ou quase ningu\u00e9m. Um cineasta raro. E pelo menos um ator excepcional, convivendo com uma equipe de grandes talentos.<\/p>\n<p>O que funciona, apesar de aparentemente tudo ter a chance de dar errado? Primeiro, o cinema. O filme n\u00e3o aposta em si mesmo, parece algo fora da ordem, sem nexo. Mas \u00e9 s\u00f3 apar\u00eancia. O g\u00eanio conhece o seu lugar: est\u00e1 a um passo do rid\u00edculo, em que a sabedoria toma caf\u00e9 com a idiotia.<\/p>\n<p>Segundo, o personagem Boris, interpretado por Larry David (o respons\u00e1vel pelo sucesso da s\u00e9rie famosa onde Jerry Seinfeld acabou levando toda a gl\u00f3ria), que fala para a c\u00e2mara, ou seja, para n\u00f3s, o p\u00fablico. \u00c9 o \u00fanico da hist\u00f3ria que sabe que estamos assistindo. O seu entorno n\u00e3o toma conhecimento disso. Em princ\u00edpio, narrar o filme para o espectador, n\u00e3o funcionaria. Mas d\u00e1 certo.<\/p>\n<p>Boris foi acusado de ser um personagem inveross\u00edmel. Impressionante como a cr\u00edtica desconhece o b\u00e1sico do espet\u00e1culo. O que pega n\u00e3o \u00e9 a verossimilhan\u00e7a, mas o mist\u00e9rio do it works. Boris \u00e9 f\u00edsico especializado em mec\u00e2nica qu\u00e2ntica, chegou a ser indicado para o Nobel, tem s\u00edndrome do p\u00e2nico, separou-se porque tentou suic\u00eddio depois de uma discuss\u00e3o com a mulher super-inteligente, mas sobreviveu. Manca de uma perna e odeia tudo e todos. Acaba se envolvendo e casando como uma mo\u00e7a do interior que n\u00e3o sabe nada e tinha batido na sua porta em busca de comida e teto.<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es humanas \u00e9 o terceiro item das coisas que tem tudo para dar errado, mas acabam chegando a bom porto. O suicida que encontra a nova mulher na m\u00e9dium que salva, involuntariamente, sua vida ao interceptar o tombo proposital da janela; o interiorano, membro da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Rifles, que se descobre gay; a perua provinciana que se revela artista e casa com dois homens; a mo\u00e7a que no in\u00edcio se encosta no veterano para sobreviver a e acaba descobrindo o amor da sua vida. Tudo isso tem uma carga hil\u00e1ria, desconcertante e ao mesmo tempo po\u00e9tica.<\/p>\n<p>\u00c9 admir\u00e1vel a capacidade frasista de Woody Allen. Quando a perua fala em m\u00e8nage a trois, o ex-martido exclama: \u201cEu sabia que n\u00e3o podia confiar nos franceses\u201d, o que \u00e9 uma refer\u00eancia \u00e0 \u201ctrai\u00e7\u00e3o&#8221; da Fran\u00e7a de n\u00e3o mandar tropas ao Iraque, um problema americano, entre tantos outros, que Allen curte com sua verve fant\u00e1stica. Quando a divorciada rec\u00e9m vinda do interior descobre que o bibel\u00f4 da sua vida, a menina que fugiu de casa, casou com um velho, desmaia. Boris comenta: \u201cMas ela casou com o pescador do maior bagre da minha terra\u201d. \u201cEla estaria melhor casada com o bagre\u201d, replica a mulher. Mais: \u201cGostaria de visitar um lugar divertido, afinal estamos em Nova York\u201d, diz a provinciana. \u201cPor que voc\u00eas n\u00e3o v\u00e3o ao Museu do Holcausto?\u201d sugere Boris.<\/p>\n<p>Tudo isso \u00e9 dito de maneira largada, sem nenhuma \u00eanfase, o que d\u00e1 extrema gra\u00e7a \u00e0s cenas. A intensa carga de achados do script convive com a limpidez das imagens, a Nova York querida de Allen. As ruas, os parques, os carros, o museu de cera, os apartamentos, os jantares, os bares ao ar livre, os pubs, tudo se sucede com uma riqueza de detalhes encantadora.<\/p>\n<p>Woody Allen \u00e9 para quem gosta dele. Eu gosto muito. N\u00e3o queria consider\u00e1-lo g\u00eanio, mas est\u00e1 dif\u00edcil. O cara se supera a cada filme. Toda vez que ele come\u00e7a a filmar, come\u00e7o a imaginar como ser\u00e1. Esse com Larry David eu aguardava ansioso. Valeu a pena. Woody Allen: que bom que o cinema ainda funciona.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Whatever works (2009), de Woody Allen, pode significar \u201cFunciona, apesar de tudo\u201d, ou, como foi traduzido, \u201cTudo pode dar certo\u201d (tudo no sentido de qualquer coisa). Misteriosamente, contra todas as evid\u00eancias, isso acaba acontecendo. 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