{"id":2033,"date":"2010-03-21T20:45:25","date_gmt":"2010-03-21T23:45:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2033"},"modified":"2010-03-21T20:45:25","modified_gmt":"2010-03-21T23:45:25","slug":"injustica-e-vinganca-simonal-uma-tragedia-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/injustica-e-vinganca-simonal-uma-tragedia-brasileira","title":{"rendered":"INJUSTI\u00c7A E VINGAN\u00c7A: SIMONAL, UMA TRAG\u00c9DIA BRASILEIRA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Vi o document\u00e1rio <strong>Simonal &#8211; Ningu\u00e9m Sabe o Duro que Dei<\/strong>, de Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal. Trata do sentimento de injusti\u00e7a e sua conseq\u00fc\u00eancia nefasta, a vingan\u00e7a. Sem ser vingativo, o filme tenta reparar a injusti\u00e7a sofrida por Simonal, acusado de ser informante dos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o na \u00e9poca da ditadura M\u00e9dici (1970), num epis\u00f3dio que o jogou no ex\u00edlio interno para o resto da vida. Consegue, em parte, mas o que se destaca \u00e9 a trag\u00e9dia brasileira provocada pelos dois lados da injusti\u00e7a\/vingan\u00e7a, o de Simonal e o dos seus advers\u00e1rios pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Simonal, na \u00e9poca no auge da carreira, se sentiu lesado pelo seu contador e resolveu dar uma li\u00e7\u00e3o no ex-funcion\u00e1rio, que tinha entrado na justi\u00e7a por reparos trabalhistas depois da demiss\u00e3o, provocada pela desconfian\u00e7a do cantor que descobriu-se quebrado. Localizados por detetives, o contador d\u00e1 seu depoimento ao filme, contando que foi torturado no Dops a mando de Simonal, mais tarde identificado como informante dos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o, acusa\u00e7\u00e3o que s\u00f3 20 anos mais tarde foi negada por um processo no governo federal.<\/p>\n<p>Simonal n\u00e3o soube fazer uma gest\u00e3o competente do seu dinheiro e gastou a rodo. Esnobou o presidente da Shell fazendo-o esperar uma hora e meia num aeroporto, o que lhe valeu a cassa\u00e7\u00e3o do contrato que segurava seus gastos. S\u00f3 com o dinheiro dos shows, seu estilo de vida extravagante n\u00e3o ag\u00fcentou e as finan\u00e7as exibiram um rombo razo\u00e1vel. Sentindo-se injusti\u00e7ado, j\u00e1 que teve inf\u00e2ncia pobre e achava que merecia esbanjar tudo o que recebia, colocou a culpa no respons\u00e1vel pelas contas. Como o acusado n\u00e3o admitiu o desfalque, entrou na roda viva da repress\u00e3o na \u00e9poca, em que tudo se resolvia no pau-de-arara.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 o que mostra e sugere o filme, ao mesmo tempo que lamenta o ostracismo que o lament\u00e1vel evento provocou na mete\u00f3rica carreira de Simonal. Este, pressionado pelas circunst\u00e2ncias, boicotado pelos colegas de profiss\u00e3o, sem sa\u00edda, acabou se entregando \u00e0 m\u00e1goa, \u00e0 raiva, \u00e0 bebida. Deveria (e isso falamos agora, depois do desenlace, pois sua morte ocorreu em 2000) partir para o Exterior, se concentrar na sua carreira, na sua voz maravilhosa, na penetra\u00e7\u00e3o que tinha conseguido no mundo todo fazendo seus shows. Mas ficou no Brasil. Deveria ter optado pelo desterro, mas acabou desterrado em sua pr\u00f3pria terra, cumprindo assim o diagn\u00f3stico preciso de Sergio Buarque de Holanda em &#8220;Ra\u00edzes do Brasil&#8221;.<\/p>\n<p>Sua reluzente performance junto com Sarah Vaugham apontava para essa sa\u00edda honrosa, o aeroporto. Quem segura uma interpreta\u00e7\u00e3o, junto com a diva, do cl\u00e1ssico sucesso The Shadow of your smile, teria meio caminho andado num recome\u00e7o longe do Brasil. Poderia voltar depois, quando as feridas tivesem cicratizado. Mas a condena\u00e7\u00e3o foi perp\u00e9tua e Simonal entrou numa espiral de perdas.<\/p>\n<p>No outro lado do balc\u00e3o, vemos o sentimento de injusti\u00e7a dos que perdiam amigos e parentes na repress\u00e3o e tortura se manifestar com tudo em cima de Simonal. O \u00eddolo era um prato feito, um alvo f\u00e1cil. Exposto de maneira escancarada devido ao seu enorme sucesso, negro, debochado, rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de uma multinacional, exibindo riqueza com seus tr\u00eas Mercedes, confessando que n\u00e3o acreditava nas virtudes da pobreza em entrevistas coletivas, n\u00e3o houve perd\u00e3o para Simonal, que caiu na besteira de dizer que estava sim junto com o governo e seus esquemas policiais. Declara\u00e7\u00e3o feita, a mando do seu advogado, segundo a vers\u00e3o n\u00e3o contestado no filme pelo contador.<\/p>\n<p>Vemos ent\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es de racismo e cinismo por parte de quem o ataca e quem o defende. Chico An\u00edsio chega a dizer que Simonal n\u00e3o precisava do paninho na testa, marca registrada surgida, segundo a entrevista de seus filhos no document\u00e1rio, numa noite que estava com dor de cabe\u00e7a e teria feito uma simpatia para conseguir al\u00edvio; e quando foi chamado \u00e1s pressas ao palco, foi com o pano na testa e tudo. Por que n\u00e3o precisava? \u201cPorque seu cabelo jamais cairia em seus olhos\u201d, diz An\u00edsio, de maneira infeliz.<\/p>\n<p>Nelson Motta tamb\u00e9m debocha ao levantar a falsa hip\u00f3tese de um Simonal fino e coerente, que deveria ter chamado uma auditoria especializada para verificar suas finan\u00e7as. \u201cChamou a Arthur Andersen? N\u00e3o, pegou tr\u00eas sujeitos e resolveu dar uma surra no suspeito\u201d. Para Motta, algu\u00e9m inculto como Simonal s\u00f3 podia mesmo partir para a ignor\u00e2ncia. Mas o mais chocante s\u00e3o as gargalhadas para dentro, sinistras, de Jaguar, que cinicamente diz que o assunto est\u00e1 encerrado. Puidera, o principal interessado numa solu\u00e7\u00e3o morreu em fun\u00e7\u00e3o mda persegui\u00e7\u00e3o que sofreu!<\/p>\n<p>As feridas continuam abertas. Vemos isso hoje. Basta voc\u00ea emitir uma opini\u00e3o fora dos padr\u00f5es do poliiticamente correto para um monte de gente cair em cima. A trag\u00e9dia profisional e pessoal de Simonal, vista depois da corrup\u00e7\u00e3o dos ex-corret\u00edssimos, serviu para desmascarar essa turma. Hoje, nem vem que n\u00e3o tem. Estamos mais soltos, mais livres para dizer o que pensamos. E n\u00e3o foi porque eles &#8220;lutaram&#8221; n\u00e3o, j\u00e1 que s\u00e3o t\u00e3o algozes quanto os que combatiam. Ningu\u00e9m sabe o duro que todos n\u00f3s demos para falar com liberdade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Vi o document\u00e1rio Simonal &#8211; Ningu\u00e9m Sabe o Duro que Dei, de Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal. Trata do sentimento de injusti\u00e7a e sua conseq\u00fc\u00eancia nefasta, a vingan\u00e7a. Sem ser vingativo, o filme tenta reparar a injusti\u00e7a sofrida por Simonal, acusado de ser informante dos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o na \u00e9poca da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2033"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2033"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2033\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2034,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2033\/revisions\/2034"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2033"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2033"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2033"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}