{"id":2035,"date":"2010-03-21T20:46:50","date_gmt":"2010-03-21T23:46:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2035"},"modified":"2010-03-21T20:46:50","modified_gmt":"2010-03-21T23:46:50","slug":"loki-uma-historia-de-amor","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/loki-uma-historia-de-amor","title":{"rendered":"LOKI: UMA HIST\u00d3RIA DE AMOR"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>As palavras rodeiam Arnaldo Batista, o g\u00eanio musical de Os Mutantes reconhecido tardiamente pelos ingleses e, de tabela, pelo Brasil (que o havia esquecido), mas jamais conseguem alcan\u00e7\u00e1-lo: rock, psicodelia, pop, m\u00fasica brasileira. No document\u00e1rio <strong>Loki<\/strong>, de Paulo Henrique Fontenelli para o Canal Brasil, at\u00e9 bossa nova girou ao redor da luz que emana de sua personalidade. Mas a palavra mais apropriada, e que cabe nele em todas as fases de uma vida criativa, explosiva, exilada, complicada e que encontrou a ressurrei\u00e7\u00e3o e a gl\u00f3ria, \u00e9 amor.<\/p>\n<p>O amor de Arnaldo por sua primeira namorada e esposa, Rita Lee, toma conta de uma bom trecho do filme e quase o confina num rodopio autista (tanta gente sem import\u00e2ncia falando sobre o que se passou entre eles&#8230;). Mas o que se sobressai, se sobrep\u00f5e, se imp\u00f5e, se destaca \u00e9 o amor de sua atual mulher, Lucinha Barbosa, que o pegou no ch\u00e3o, na p\u00f3s-tentativa de suic\u00eddio e o retirou da roda vida paulistana para faz\u00ea-lo reintegrar-se consigo mesmo num lugar isolado. Essa rela\u00e7\u00e3o sustenta e costura o filme, provando que a mulher escolhe o homem e este, quando \u00e9 escolhido, pouco ou nada lhe resta a fazer, enquanto ao tentar escolher, descobre quem d\u00e1 realmente as cartas.<\/p>\n<p>Mas a palavra amor tem uma amplitude maior, j\u00e1 que Arnaldo Batista colocou a busca da espiritualidade em primeiro plano, deixando de lado a carreira e nem querendo viver do que tinha feito na juventude. S\u00f3 o que ele produziu junto com o irm\u00e3o S\u00e9rgio, a mulher Rita, e os m\u00fasicos que os acompanhavam, o colocaram no mais alto p\u00f3dio da m\u00fasica internacional. \u201cMelhor do que os Beatles\u201d, disseram nos depoimentos dois m\u00fasicos. \u201cQuerem escutar algo que os deixar\u00e1 abismados?\u201d pergunta outro. \u201cOs Mutantes sintetizavam todos os g\u00eaneros numa s\u00f3 frase musical, diferente dos Beatles, que faziam uma colagem de g\u00eaneros\u201d, diz mais um.<\/p>\n<p>Foi sorte nossa a exist\u00eancia desse amor tardio, mas providencial, da atual esposa, e desse amor eterno, do som que sai dele para o deslumbre geral. Fez com que voltasse \u00e0 tona, depois que o Brasil tinha resolvido enterrar mais um dos seus grandes talentos, a sina do pa\u00eds que se auto-devora, como se a grandeza fosse nossa principal culpa. D\u00e1 d\u00f3 ver figuras vazias fazendo caras e bocas para falar de Arnaldo, umas estrela que brilha al\u00e9m das arqueadas de sobrancelhas e o fechar de olhos para refor\u00e7ar abobrinhas. D\u00e1 d\u00f3 ver um dos m\u00fasicos dos Mutantes achar gra\u00e7a do fim do casamento e da banda.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, \u00e9 um al\u00edvio ver Kurt Cobain ou Sean Lennon falarem um temp\u00e3o sobre a import\u00e2ncia e a qualidade de um brasileiro que fez Hist\u00f3ria. \u00c9 uma voca\u00e7\u00e3o que n\u00e3o temos, o de admirar os outros, de reconhecer, de lutar para que sejam vistos e ouvidos pelo p\u00fablico. A tend\u00eancia no Brasil \u00e9 eleger meia d\u00fazia de imbecis para gritarem d\u00e9cadas nos palcos como se fossem grandes artistas, quando n\u00e3o passam de contrafa\u00e7\u00f5es. Enquanto isso, nossos criadores amargam o ex\u00edlio interno, como aconteceu com Tom Z\u00e9 (que trocou v\u00e1rias vezes de roupa nos seus depoimentos para o document\u00e1rio para representar as muitas fases da vida de Arnaldo), at\u00e9 que de novo os estrangeiros vissem nele todo o valor que aqui tinha sumido pelo ralo.<\/p>\n<p>O amor, em Arnaldo Batista, junto com sua forma\u00e7\u00e3o (a m\u00e3e, concertista de piano, aparece pouco no filme, infelizmente) o leva por todos os g\u00eaneros numa s\u00f3 frase musical, e pontua sua obra melodiosa, tocante, profunda. Pessoa querida por todas, cruzou os umbrais dos preconceitos. Quem o chamava de louco, agora tem de enxergar o g\u00eanio. O criador sem carreira \u00e9 o mais bem sucedido, pois \u00e9 aclamado por onde se apresenta (as novas gera\u00e7\u00f5es brasileiras quiseram saber quem era esse m\u00fasico que tinha feito tanto e estava no limbo). O que parecia psicod\u00e9lico era apenas liberdade criadora. O que dizem ser rock era uma composi\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o sem r\u00f3tulos. O que tem tudo para ser brasileira, \u00e9 apenas a recria\u00e7\u00e3o do que h\u00e1 de mais forte no mundo todo, inclusive no Brasil. Por isso as pessoas se curvam diante do menino grande, com a cara marcada pela dor. Por isso quem fala sobre ele no filme diz que ama esse artista \u00fanico.<\/p>\n<p>Um dia fui ver um show dele em S\u00e3o Paulo. Estava a servi\u00e7o da Ilustrada, da Folha de S. Paulo. Entrevistei-o em 1977 (ou ser\u00e1 que foi 1978?), na \u00e9poca em que ele tinha uma banda, o Patrulhas do Espa\u00e7o, que achei fraca. Elogiei a performance chapliniana no palco, pois ele fazia quest\u00e3o de surpreender todas as expectativas para mostrar algo silenciosamente hil\u00e1rio. Tocou pouco, e tamb\u00e9m falou pouco na entrevista no seu apartamento de janelas todas fechadas.<\/p>\n<p>Estive frente a frente com essa mansid\u00e3o reticente, esse inv\u00f3lucro que guarda o melhor de n\u00f3s e \u00e0s vezes sai para a rua a brilhar como uma supernova.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s As palavras rodeiam Arnaldo Batista, o g\u00eanio musical de Os Mutantes reconhecido tardiamente pelos ingleses e, de tabela, pelo Brasil (que o havia esquecido), mas jamais conseguem alcan\u00e7\u00e1-lo: rock, psicodelia, pop, m\u00fasica brasileira. 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