{"id":2038,"date":"2010-04-06T10:41:12","date_gmt":"2010-04-06T13:41:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2038"},"modified":"2010-04-06T10:41:12","modified_gmt":"2010-04-06T13:41:12","slug":"alice-adulta-troca-wonderland-pelo-imperio","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/alice-adulta-troca-wonderland-pelo-imperio","title":{"rendered":"ALICE ADULTA TROCA WONDERLAND PELO IMP\u00c9RIO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Tim Burton projetou Alice in wonderland, seu mega sucesso deste in\u00edcio de ano, para a solu\u00e7\u00e3o de um impasse: a menina que cresceu precisa revisitar suas fantasias para se jogar numa aventura maior, real e que esteja acima das representa\u00e7\u00f5es da inf\u00e2ncia. \u00c9 assim que ele mergulha no buraco de seu inconsciente para lembrar (fazer o balan\u00e7o) do seu imagin\u00e1rio gerado pela orfandade, quando, ao perder o pai, o mundo virou pelo avesso e o absurdo tomou conta das cenas cotidianas.<\/p>\n<p>Essa sess\u00e3o psicanal\u00edtica nasce de uma fuga da mulher adulta que \u00e9 pedida em casamento por algu\u00e9m que ela detesta, um noivo que \u00e9 a promessa de uma vida tranq\u00fcila e rica. Ela prefere navegar na lama do jardim atr\u00e1s de um personagem animado, um coelho que fala e que a atrai novamente para o n\u00facleo do conflito deixado para tr\u00e1s, sem resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse conflito \u00e9 uma luta do Bem, a rainha Branca, exilada pelo Mal, a rainha vermelha, a famosa que manda cortar cabe\u00e7as. Trata-se de uma divis\u00e3o entre a virtude e o pecado e a necessidade de reentronizar a virtude, derrubada por esse universo partido, inaugurado pela morte do pai. Sua participa\u00e7\u00e3o no conflito \u00e9 a mistura de Hist\u00f3ria Sem Fim (1984), o cl\u00e1ssico infantil alem\u00e3o de Wolfgang Peterson (as viagens em cachorros gigantes voadores s\u00e3o id\u00eanticas) e filmes antigos de capa e espada, onde Alice vira um Errol Flyn misturado com Rainha Cristina, a Greta Garbo de vestes masculinas e de rosto impass\u00edvel.<\/p>\n<p>Ela conta com a ajuda de um pretendente, o Chapeleiro Louco, que \u00e1 a transgress\u00e3o usada para derrubar a rainha m\u00e1, o m\u00e1gico que a carrega para centro da arena. Feito o servi\u00e7o, ela se livra desse outro noivo imagin\u00e1rio para colocar ordem no mundo real. Habitada por sua experi\u00eancia, em que erradicou o pecado e o caos (n\u00e3o por acaso vermelho), colocando no seu lugar um reino harm\u00f4nico e belo (n\u00e3o por acaso branco), ela parte para a defini\u00e7\u00e3o dos pap\u00e9is, dela mesma e de quem a rodeia.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que se livra do pretendente rico e prop\u00f5e uma investida colonial em terras distantes, assumindo a fun\u00e7\u00e3o abortada pela morte do pai, o da expans\u00e3o do imp\u00e9rio colonial. Mas Alice vai extrapolar os planos antigos do pai morto, j\u00e1 que faz parte de uma novas gera\u00e7\u00e3o, espichando as fronteiras da domina\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica para os confins da China. Ela \u00e9 o elemento que ir\u00e1 realizar essa a\u00e7\u00e3o pioneira, j\u00e1 que est\u00e1 livre das cartas marcadas do relacionamento previs\u00edvel, o que seria um perigo para o Imp\u00e9rio, pois estagnaria. Ela parte para uma aventura de verdade, encarnando os princ\u00edpios da domina\u00e7\u00e3o de sua civiliza\u00e7\u00e3o sobre o resto do mundo, por meio da navega\u00e7\u00e3o, do com\u00e9rcio e eventualmente da guerra.<\/p>\n<p>Alice Kingsley j\u00e1 teve seu batismo de sangue ao derrotar o monstro em Wonderland. Foi ela quem cortou a cabe\u00e7a do grande pesadelo que tinha se formado em sua vida. E se alimentou do seu sangue para voltar a si, ao buraco do jardim de onde tinha se enfiado. Tim Burton comp\u00f5e essa met\u00e1fora da domina\u00e7\u00e3o, solucionando o pesadelo de Wonderland pela perspectiva da conquista de um mundo ex\u00f3tico, distante e lucrativo. Trata-se de uma artista a servi\u00e7o da civiliza\u00e7\u00e3o que o gerou. Faz isso de forma consciente, usando um cl\u00e1ssico da literatura, criado pela pedofilia plat\u00f4nica de um g\u00eanio da linguagem, Lewis Carrol, que inventou a hist\u00f3ria para as garotas que estavam aos seus cuidados.<\/p>\n<p>Johnny Deep faz um Chapeleiro circense p\u00f3s-moderno, que dan\u00e7a funk e tem um humor minimalista e cerebral. Mia Wasikowska faz uma Alice angelical, que fica nua ao crescer ou diminuir demais, colocando assim em risco suas virtudes ao experimentar drogas que a espicham ou a encolhem. Helena Bonham Carter, mulher de Tim Burton, onipresente em seus filmes, faz uma rainha m\u00e1 impression\u00e1vel e, portanto, vulner\u00e1vel. Sua queda do trono fica previs\u00edvel, pois o espet\u00e1culo arma tudo para que o Mal perca a batalha.<\/p>\n<p>Todos ficam felizes e v\u00e3o para casa com os olhos cheios de efeitos visuais. Mas na ess\u00eancia, no n\u00facleo vazio do espet\u00e1culo, que \u00e9 a especialidade de Tim Burton, fica essa fidelidade ao poder dominador do imp\u00e9rio que \u00e9 o seu ber\u00e7o. Ali, os estilha\u00e7os da linguagem s\u00e3o as ru\u00ednas da fantasia infantil que virou pesadelo e as frases contundentes no final s\u00e3o a nova cartilha que vai orientar as pessoas em suas novas responsabilidades.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Tim Burton projetou Alice in wonderland, seu mega sucesso deste in\u00edcio de ano, para a solu\u00e7\u00e3o de um impasse: a menina que cresceu precisa revisitar suas fantasias para se jogar numa aventura maior, real e que esteja acima das representa\u00e7\u00f5es da inf\u00e2ncia. \u00c9 assim que ele mergulha no buraco de seu inconsciente para [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2038"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2038"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2038\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2040,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2038\/revisions\/2040"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2038"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2038"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2038"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}