{"id":2044,"date":"2010-04-06T10:54:37","date_gmt":"2010-04-06T13:54:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2044"},"modified":"2010-04-06T10:54:37","modified_gmt":"2010-04-06T13:54:37","slug":"atualidade-de-guy-debord-revolucao-contra-ideologia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/atualidade-de-guy-debord-revolucao-contra-ideologia","title":{"rendered":"ATUALIDADE DE GUY DEBORD: REVOLU\u00c7\u00c3O CONTRA IDEOLOGIA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O livro <em>A Sociedade do Espet\u00e1culo<\/em>, de Guy Debord, lan\u00e7ado em 1967, foi a base para as a\u00e7\u00f5es da ala mais radical do Maio de 1968 na Fran\u00e7a. Trata-se um milagre te\u00f3rico, pela sua extrema atualidade e clareza na abordagem de um tema complicado que costuma enredar os scholars. Escrito numa sucess\u00e3o de aforismas precisos e geniais, Debord decifra o mundo contempor\u00e2neo gerado pela abund\u00e2ncia e as contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo na era da mass media. Vi o filme de 1973 que ele produziu com o mesmo t\u00edtulo, que \u00e9 o seu livro ilustrado por imagens, filmes, publicidade, acrescido da experi\u00eancia vivida na revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1rio-estudantil francesa de maio de 1968.<\/p>\n<p>Nesse filme fica claro que aquela foi uma revolta n\u00e3o apenas contra o capitalismo, mas contra seus novos aliados: a ideologia de esquerda engessada em sindicatos e partidos comunistas ou socialistas (soa familiar?). Debord explica que a abund\u00e2ncia da sociedade do espet\u00e1culo \u2013 que \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o social entre pessoas numa sociedade de classes e n\u00e3o um ac\u00famulo de imagens &#8211; anexou a indigna\u00e7\u00e3o como mercadoria. As institui\u00e7\u00f5es representativas do operariado tamb\u00e9m entraram nesse c\u00edrculo, participando do sufoco de um sistema que provoca a divis\u00e3o e o vazio. Os gestos dos concertos musicais para multid\u00f5es, que representariam a revolta contra ao sistema, tamb\u00e9m fazem parte dessa impostura da indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Debord acerta sempre pois usa (sem se deixar cegar pela burrice da leitura datada), de maneira l\u00facida, radical e criativa, as principais li\u00e7\u00f5es extra\u00eddas das obras de Karl Marx, uma fonte magistral do pensamento que hoje, por ignor\u00e2ncia, \u00e9 atacada como se tivesse a culpa da exist\u00eancia dos imbecis que a invocam. Reproduzo aqui alguns aforismas que tirei do filme e escrevi de mem\u00f3ria: &#8220;A mercadoria fetichizada da sociedade do espet\u00e1culo perde seu valor quando entra na casa dos consumidores&#8221;. Quantas vezes n\u00e3o nos encantamos com uma roupa na vitrine e quando chegamos em casa vemos que tudo n\u00e3o passava de ilus\u00e3o? Tamb\u00e9m some a id\u00e9ia de originalidade ao notarmos o uso massivo do que nos seduziu.<\/p>\n<p>&#8220;Stalin foi descartado como mercadoria obsoleta da sociedade do espet\u00e1culo concentrado, o capitalismo burocr\u00e1tico&#8221;. Entendemos assim como o stalinismo foi jogado fora para a R\u00fassia continuar tendo o direito de invadir a Chech\u00eania. Confirmamos tamb\u00e9m que os militares no Brasil foram colocados \u00e0 margem do poder pelo mesmo motivo, j\u00e1 que a presen\u00e7a da farda n\u00e3o atendia mais aos prop\u00f3sitos do capitalismo da sociedade do espet\u00e1culo difuso, o do Ocidente. A nova situa\u00e7\u00e3o se pautava pelo Consenso de Washington, o que inventou as falsas democracias atuais, totalmente dependentes da pirataria internacional e focado na derrubada das fronteiras nacionais.<\/p>\n<p>&#8220;O capitalismo se apropriou de todo espa\u00e7o urbano, que ficou t\u00e3o sujo, feio e barulhento quanto uma f\u00e1brica&#8221;. Sabemos agora porque n\u00e3o d\u00e1 para passear nas cidades brasileiras, elas se transformaram num enorme esgoto industrial, principalmente da ind\u00fastria imobili\u00e1ria, que ocupou todo o territ\u00f3rio ou desvirtuou o urbanismo cl\u00e1ssico para que coubesse o autom\u00f3vel, a mercadoria fetichizada por excel\u00eancia. Vemos tamb\u00e9m que foi exatamente esse nicho do supra-sumo do fetiche da mercadoria automotiva que surgiu o atual presidente do Brasil, que assumiu o papel atribu\u00eddo a ele pela esquerda engessada nos sindicatos, denunciada por Debord. Claro como \u00e1gua.<\/p>\n<p>Na Fran\u00e7a, o Maio de 1968 foi uma composi\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre os estudantes que se rebelaram contra o engessamento da c\u00e1tedra e de um sistema educacional obsoleto, e os oper\u00e1rios que se insurgiram contra a falsidade de suas representa\u00e7\u00f5es. \u00c9 esclarecedor o fato de os sindicatos dos trabalhadores serem a favor da pol\u00edcia e da repress\u00e3o \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es, que tomaram conta da Fran\u00e7a e incendiaram o imagin\u00e1rio do mundo, tornando-se refer\u00eancia de uma revolu\u00e7\u00e3o leg\u00edtima, que atacasse a totalidade do problema e n\u00e3o se deixasse enredar pela armadilha proporcionada pelo capitalismo mutante.<\/p>\n<p>O tempo como mercadoria \u00e9 uma das maiores sacadas de Debord. O eterno presente, que falamos sempre aqui, nada mais \u00e9 do que a padroniza\u00e7\u00e3o do tempo da mercadoria e da produ\u00e7\u00e3o, imposto para o mundo inteiro, \u00e0 revelia dos tempos pessoais e comunit\u00e1rios ou nacionais. O tempo pseudociclico, ou seja, o turismo e as f\u00e9rias e as festas durante o ano apenas mascaram esse tempo \u00fanico e hegem\u00f4nico, pois funcionam como um carrossel do Mesmo que gera a insatisfa\u00e7\u00e3o permanente e a revolta surda, que acaba um dia explodindo.<\/p>\n<p>Aqui no Brasil,1968 foi essencialmente estudantil e como revolta estudantil se esvaziou. A insurg\u00eancia oper\u00e1ria foi falsa, pois manipulada pelos sindicatos. Gerou um l\u00edder falso, que acabou assumindo a presid\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 limites para a trag\u00e9dia brasileira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s O livro A Sociedade do Espet\u00e1culo, de Guy Debord, lan\u00e7ado em 1967, foi a base para as a\u00e7\u00f5es da ala mais radical do Maio de 1968 na Fran\u00e7a. Trata-se um milagre te\u00f3rico, pela sua extrema atualidade e clareza na abordagem de um tema complicado que costuma enredar os scholars. 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