{"id":2046,"date":"2010-04-06T10:56:39","date_gmt":"2010-04-06T13:56:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2046"},"modified":"2010-04-06T10:56:39","modified_gmt":"2010-04-06T13:56:39","slug":"strange-days-e-2012-apocalipse-ontem-e-hoje","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/strange-days-e-2012-apocalipse-ontem-e-hoje","title":{"rendered":"STRANGE DAYS E 2012: APOCALIPSE ONTEM E HOJE"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O Apocalipse \u00e9 uma das mercadorias do tempo, assim como o hor\u00e1rio do almo\u00e7o ou o per\u00edodo de f\u00e9rias (se formos seguir o rastro das observa\u00e7\u00f5es de Guy Debord em A Sociedade do Espet\u00e1culo). No eterno presente, que \u00e9 a imposi\u00e7\u00e3o de tempo do sistema econ\u00f4mico que nos rege, f\u00e9rias, pausa para a refei\u00e7\u00e3o ou fim dos tempos s\u00e3o eventos com roupagem c\u00edclica: eles se repetem sem interferir na hegemonia do tempo \u00fanico imposto pelo capitalismo. S\u00e3o produtos como qualquer outro e obedecem \u00e0 roda viva da produ\u00e7\u00e3o e consumo, que escraviza corpos e mentes como se fosse algo \u201cnatural\u201d e por isso, incontest\u00e1vel.<\/p>\n<p>Nos anos 90, a proximidade do n\u00famero redondo, o ano 2000, provocou um frenesi em torno do Apocalipse, que se nutria do texto b\u00edblico de S. Jo\u00e3o e das profecias de Nostradamus. Foi uma mercadoria que ganhou intensidade conforme se aproximava a representa\u00e7\u00e3o m\u00e1xima desse final dos tempos, o reveillon da virada para o chamado novo \u201cmil\u00eanio\u201d, a palavra que gastou de tanto uso e hoje est\u00e1 esquecida (mil anos passaram em menos de dez).<\/p>\n<p>Como n\u00e3o aconteceu nada demais, como era de se esperar, o Apocalipse precisou de uma nova embalagem para continuar funcionando como mercadoria. Para isso, alimentou-se de novidades expl\u00edcitas do novo s\u00e9culo: o tsunami, onda gigante que varreu a Indon\u00e9sia; a derrubada das torres g\u00eameas de Nova York, que interrompeu a arenga internacional sobre a integra\u00e7\u00e3o entre na\u00e7\u00f5es e a Pax americana; e a profecia maia sobre 2012, uma nova data tirada do anacronismo da Hist\u00f3ria transformada em arena do espet\u00e1culo. O marco pr\u00f3ximo e assustador serve para gerar novos produtos de consumo, na ind\u00fastria cultural e de entretenimento, e seu entorno, a astrologia e a ci\u00eancia mutante e adapt\u00e1vel para a circula\u00e7\u00e3o de produtos.<\/p>\n<p>Um dos filmes sobre o velho Apocalipse, aquele que foi desmoralizado pela besteira do reveillon 2000, \u00e9 <em>Strange Days<\/em> (1995), de Kathryn Bigelow, com roteiro do seu marido na \u00e9poca, James Cameron. \u00c9 sobre a ruptura das fronteiras das mercadorias da ind\u00fastria audiovisual, pois no lugar de filmes, segundo a profecia do filme, ter\u00edamos o fluxo permanente de imagens e sons percebidos diretamente na cabe\u00e7a dos compradores (o que se concretizou com a internet). Essa ilus\u00e3o, pelo excesso, precisava de cada vez mais radicalidade na sua produ\u00e7\u00e3o e \u00e9 por isso que a transgress\u00e3o \u00e9 a l\u00f3gica para seduzir os que podem pagar.<\/p>\n<p>O anti-her\u00f3i do filme, interpretado por Ralph Fiennes, que se chama Nero exatamente porque precisa ver o circo pegar fogo para continuar vivo, \u00e9 o mercador das cenas brutais que encantam as pessoas imobilizadas no sistema. Recusa-se a vender assassinatos e mortes, mas \u00e9 empurrado para isso pelas circunst\u00e2ncias, onde um ex-amor faz o papel de tornassol de uma explosiva combina\u00e7\u00e3o qu\u00edmica, quando entra de tudo, desde estupro at\u00e9 execu\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria nas ruas de Los Angeles.<\/p>\n<p>Qual a diferen\u00e7a dos antigos filmes com essa realidade de imagens sem forma que tomam conta da paisagem? No cinema ultrapassado, havia um fim, um the end, diz a ex-namorada, interpretada por Juliete Lewis. Esse al\u00edvio n\u00e3o existe mais. A esperan\u00e7a \u00e9 que a virada do mil\u00eanio traga o desfecho do pesadelo. Mas o que acontece \u00e9 apenas a resolu\u00e7\u00e3o de um crime, gra\u00e7as \u00e0 interven\u00e7\u00e3o de uma mulher apaixonada por Nero, a motorista de limousine interpretada por Angela Bassett . Tudo se reduz a um caso policial com final feliz e com direito ao beijo deslumbrado.<\/p>\n<p>J\u00e1 <em>2012 <\/em>(feito em 2009 e dirigido por Roland Emmerich) joga mais pesado. \u00c9 a fantasia americana de se livrar do resto da humanidade e ficar com a parte nobre do planeta, o Terceiro Mundo sem seus habitantes para atrapalhar. A arca que salva os eleitos que pagaram para sobreviver revela as imagens do estrago que a destrui\u00e7\u00e3o provocada pelas manchas solares provoca por toda parte. Para n\u00f3s, brasileiros, sobra o deboche: \u00e9 o \u00fanico lugar onde o Apocalipse desencadeia uma corrida suicida aos mantimentos, j\u00e1 que somos mesmo esses macacos famintos, na vis\u00e3o deles.<\/p>\n<p>A derrubada do Cristo Redentor acompanha a destrui\u00e7\u00e3o de todos os s\u00edmbolos da civiliza\u00e7\u00e3o que se esvai: a Bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro (os americanos jamais v\u00e3o perdoar o catolicismo), a Torre Eiffel (jamais v\u00e3o perdoar a defec\u00e7\u00e3o francesa no Iraque), o monast\u00e9rio budista encravado no alto da montanha (toda devo\u00e7\u00e3o ser\u00e1 castigada). Resta apenas a fam\u00edlia que estava separada e se une na trag\u00e9dia, j\u00e1 que o Apocalipse cuidou de levar o sujeito que ocupava o lugar do pai das crian\u00e7as (este, interpretado pro John Cusack). E fica tamb\u00e9m aquela por\u00e7\u00e3o da humanidade milion\u00e1ria ou feita de alguns outros esp\u00e9cimes que acabaram inundando a arca nos minutos finais: todos eles v\u00e3o reconstruir o mundo agora livre do excesso de gente pobre.<\/p>\n<p>O novo Apocalipse \u00e9 um alerta para a sucess\u00e3o de eventos que est\u00e3o matando em massa por toda parte (como, recentemente, no Haiti e no Chile). \u00c9 demais o n\u00famero de terremotos e furac\u00f5es e tsunamis. Algo est\u00e1 errado. O clima tem sido usado como arma, essa \u00e9 uma evid\u00eancia que os cientistas s\u00e9rios j\u00e1 admitem, apesar da incredulidade dos eternos desconfiados de teorias conspirat\u00f3rias. Parece que a id\u00e9ia \u00e9 fazer uma limpa geral, onde s\u00f3 sobrariam umas 500 mil pessoas. A pergunta \u00e9: como v\u00e3o sobreviver os donos do mundo sem escravos para sustent\u00e1-los?<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a entre os dois filmes \u00e9 radical: Bigelow \u00e9 cineasta da pesada e faz um thriller de prospec\u00e7\u00e3o de comportamento coletivo numa \u00e9poca de intensa manipula\u00e7\u00e3o do medo da popula\u00e7\u00e3o, enquanto 2012 \u00e9 uma bobagem avassaladora que deixa no chinelo todos os outros filmes de cat\u00e1strofe. Uma onda que atinge o pico do Everest \u00e9 o sinal da dem\u00eancia absoluta que tomou conta de Hollywood na sua faina de produzir mercadorias que o tempo dissolve na primeira curva.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s O Apocalipse \u00e9 uma das mercadorias do tempo, assim como o hor\u00e1rio do almo\u00e7o ou o per\u00edodo de f\u00e9rias (se formos seguir o rastro das observa\u00e7\u00f5es de Guy Debord em A Sociedade do Espet\u00e1culo). 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