{"id":2048,"date":"2010-04-06T10:58:12","date_gmt":"2010-04-06T13:58:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2048"},"modified":"2010-04-06T10:58:12","modified_gmt":"2010-04-06T13:58:12","slug":"a-tela-e-o-jardim-o-olhar-que-liberta","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-tela-e-o-jardim-o-olhar-que-liberta","title":{"rendered":"A TELA E O JARDIM: O OLHAR QUE LIBERTA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A domina\u00e7\u00e3o de classe leva \u00e0 escurid\u00e3o do olhar e \u00e0 sua m\u00e1scara: o que \u00e9 negado \u00e0 percep\u00e7\u00e3o serve de insumo para a cr\u00edtica pseudovanguardista da arte, em que o breu n\u00e3o \u00e9 breu, \u00e9 o \u201cn\u00e3o-branco\u201d. Com isso, se justifica a imposi\u00e7\u00e3o perceptiva, j\u00e1 que a pose intelectual encerra os agentes (o pintor e seus cr\u00edticos) numa pris\u00e3o ditada pela moda, ou seja, o mercado im\u00f3vel de produtos art\u00edsticos, que obedece ao movimento pseudoc\u00edclico do tempo (as exposi\u00e7\u00f5es que se repetem). Ali, o que conta \u00e9 o dinheiro aparentemente despossu\u00eddo de sua brutalidade natural de domina\u00e7\u00e3o e o sil\u00eancio do sufoco, como se fosse o estado natural das coisas.<\/p>\n<p>Para romper essa barreira, o filme Dialogue avec mon jardinier (2007), de Jean Becker, com Daniel Auteuil, Jean-Pierre Darroussin e Fanny Cotten\u00e7on, prop\u00f5e uma sa\u00edda cl\u00e1ssica, dentro do materialismo hist\u00f3rico da dial\u00e9tica marxista: a ado\u00e7\u00e3o da cultura prolet\u00e1ria, a que percebe por meio do dom\u00ednio da natureza. Ao contratar seu amigo de inf\u00e2ncia para cuidar do jardim abandonado da fam\u00edlia tradicional que se desfez, o pintor redescobre os la\u00e7os familiares e comunit\u00e1rios, a tradi\u00e7\u00e3o do fazer oper\u00e1rio e, mais importante, sua vis\u00e3o de mundo, antes pautado pelo que produz (seu trabalho nas ferrovias ao longo da vida), e que \u00e9 substitu\u00eddo pelo que cria (hortas e jardins, seu hobby que acaba virando profiss\u00e3o na aposentadoria).<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o \u00e9 o conv\u00edvio \u201cnatural\u201d com as plantas que formata as id\u00e9ias sobre o que \u00e9 visto, mas seu tratamento, ou seja, a m\u00e3o na terra, o ato de regar, a colheita cuidadosa e o aproveitamento dos frutos. N\u00e3o se trata de uma volta \u00e0 natureza, mas a recupera\u00e7\u00e3o da capacidade de enxergar o mundo por meio da a\u00e7\u00e3o do trabalho n\u00e3o alienado, no caso, o do jardineiro liberto de sua faina prolet\u00e1ria, que est\u00e1 livre para o trabalho prazeroso o dia todo, previsto por Marx quando a humanidade se libertasse de seus grilh\u00f5es.<\/p>\n<p>O filme, portanto, n\u00e3o \u00e9 uma gracinha que todos admiram por ser \u201chumano\u201d. Mas uma exposi\u00e7\u00e3o dos motivos marxistas da Hist\u00f3ria, produzido num pa\u00eds que \u00e9, ou foi, o centro do pensamento revolucion\u00e1rio desde a Tomada da Bastilha e que, com a Comuna de Paris, insuflou Marx e Engels a produzirem sua obra que mudou o mundo. O pintor, ao adotar a vis\u00e3o oper\u00e1ria, se desaliena do mundo onde estava confinado e recupera sua capacidade de ver, sentir e pintar. N\u00e3o est\u00e1 mais a servi\u00e7o das encomendas ou das frustra\u00e7\u00f5es de um trabalho que, como qualquer outro, apesar de ser parte da cultura, lhe provocava aborrecimentos.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que, para recuperamos o que perdemos no comportamento, na cultura e no sonho, vemos um filme argentino. E para que possamos nos civilizar, avan\u00e7ar, nos conectar com o pensamento cl\u00e1ssico da liberta\u00e7\u00e3o humana, vemos um filme franc\u00eas. O oper\u00e1rio apaixonado pela esposa admirava os olhos do seu grande amor. No olhar est\u00e1 a chave do enigma. No desfecho, quando o oper\u00e1rio parte, s\u00e3o exatamente os olhos da mulher que aparecem vazados, como nas est\u00e1tuas gregas. Uma refer\u00eancia \u00e0 cultura cl\u00e1ssica, que precisamos revisitar todos os dias para n\u00e3o nos deixar enredar nessa soma de armadilhas que nos aguardam em cada esquina.<\/p>\n<p>Cinema, o grande amor de nossas vidas, tem esse dom: nos colocar diante da cria\u00e7\u00e3o de alto risco, a que n\u00e3o teme fracasso comercial e fala diretamente ao nossos olhos, que, como diz o lugar comum, s\u00e3o as janelas do esp\u00edrito. Por essa janela entra a luz, as cores, os instrumentos de trabalho, o grande peixe cobi\u00e7ado nas pescarias. N\u00e3o se trata de celebrar o figurativismo tradicional, mas o de recuperar a for\u00e7a da percep\u00e7\u00e3o liberta dos ditames da sociedade do espet\u00e1culo. Tudo no fim vira produto, mas como diz o poema vendo no mercado o que liberta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s A domina\u00e7\u00e3o de classe leva \u00e0 escurid\u00e3o do olhar e \u00e0 sua m\u00e1scara: o que \u00e9 negado \u00e0 percep\u00e7\u00e3o serve de insumo para a cr\u00edtica pseudovanguardista da arte, em que o breu n\u00e3o \u00e9 breu, \u00e9 o \u201cn\u00e3o-branco\u201d. 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