{"id":2050,"date":"2010-04-06T10:59:15","date_gmt":"2010-04-06T13:59:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2050"},"modified":"2010-04-06T10:59:15","modified_gmt":"2010-04-06T13:59:15","slug":"a-monstra","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-monstra","title":{"rendered":"A MONSTRA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Meryl Streep confunde a imprensa. Foram 13 ou 16 indica\u00e7\u00f5es ao Oscar? Ganhou s\u00f3 dois, um por &#8220;A Escolha de Sofia&#8221; e outro por &#8220;Kramer x Kramer&#8221;. Deveria ganhar mais. Comete erros, como &#8220;Mama Mia&#8221;, onde quis ser a Madona. Mas 99% do trabalho dela \u00e9 g\u00eanio. Est\u00e1 na categoria dos monstros, aquele tipo de interpreta\u00e7\u00e3o em que o ator se transforma numa criatura assustadora.<\/p>\n<p>Foi assim em O Diabo Veste Prada, quando a bruxa da moda massacra uma pobre Anna Hattaway,atriz engolida junto com seu personagem. E \u00e9 assim na sua magistral interprta\u00e7\u00e3o em Julie &amp; Julia, quando encarna de Julia Child, a mulher de diplomata e de fam\u00edlia rica do interior dos Estados Unidos que disseminou a gastronomia francesa em terreno est\u00e9ril, a cozinha americana, onde o frango frito do fast food da esquina substitui o chato trabalho de fazer comida.<\/p>\n<p>Talvez Julia Child seja a respons\u00e1vel por essa frescurada de reunir amigos para \u00e1gapes onde se elogia os pratos e \u201cum bom vinho\u201d. Esse tipo de evento, que \u00e9 um rod\u00edzio de vaidades, substitui o fraco desempenho dom\u00e9stico da fam\u00edlia moderna, mais preocupada em aparecer para os outros do que trabalhar o que tem entre quatro paredes. Mas n\u00e3o tenho certeza. O que \u00e9 certo \u00e9 que Meryl Streep comp\u00f4s a personagem na sua intimidade extrapolando o que aparece na televis\u00e3o, num programa de culin\u00e1ria, para o que imaginou ser a vida \u201creal\u201d de Julia Child. Os cacoetes verbais e gestuais que foram vistos por milh\u00f5es por muitos anos na telinha ganham vida e cor pr\u00f3pria na luta da mulher que procurava uma ocupa\u00e7\u00e3o na Paris dos anos 50.<\/p>\n<p>Como costuma fazer normalmente, Meryl Streep devora quem a acompanha na sua performance. O marido cordato interpretado muito bem por Stanley Tucci (um ator apropriadamente apagado) ou a blogueira que a admira (Amy Adams) praticamente somem do mapa e o que aparece \u00e9 a monstra o tempo todo, apesar de o filme ser bem divididod em dois tempos, um de 50 anos atr\u00e1s e outro deste s\u00e9culo. Numa entrevista para o Telegraph, Streep conta como entrou em conflito com a pessoa que inspirou seu personagem neste filme, que estaria a servi\u00e7o do agribusiness e n\u00e3o atendeu um pedido para apoiar a agricultura e a alimenta\u00e7\u00e3o org\u00e2nica.<\/p>\n<p>Streep jura que admira Julia Child, mas sua performance magistral fundada numa caricatura (a performance televisiva da cozinheira famosa) n\u00e3o seria uma doce vingan\u00e7a pelo que o \u00eddolo aprontou h\u00e1 vinte anos? Talvez, mas isso n\u00e3o tira o m\u00e9rito da interpreta\u00e7\u00e3o. Julia Child jamais seria a favor da comida org\u00e2nica, j\u00e1 que adorava tudo o que \u00e9 considerado pecado contra o colesterol, como fartas por\u00e7\u00f5e s de chocolate e manteiga. Mas o que \u00e9 admir\u00e1vel nos americanos \u00e9 que eles n\u00e3o deixam nenhum \u00eddolo solto, \u00e0 merc\u00ea dos detratores. A ind\u00fastria do cinema sempre d\u00e1 um jeito de encontrar grandeza em tudo. Neste caso. Streep elogia a determina\u00e7\u00e3o da mulher que inventou uma profiss\u00e3o e aguentou tranco da persegui\u00e7\u00e3o ao marido proporcionado pelo macartismo. Nada demais. Falar mal dos republicanos agora \u00e9 moda na era Obama.<\/p>\n<p>Lembro de um filme de 1953, The President&#8217;s Lady, em que Susan Hayward interpreta uma primeira dama mal afamada. Pois o filme limpa a barra da ilustre senhora, pois \u00e9 assim que eles fazem: jamais permitem que o pa\u00eds, base da sobreviv\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o, seja atingido em sua honra. Aqui, s\u00f3 falta rebatizar o aeroporto Santos Dumont de Irm\u00e3os Wright. Tudo \u00e9 poss\u00edvel, depois que substitu\u00edram o nome do aeroporto de Salvador, que era batizado com a data her\u00f3ica da vit\u00f3ria brasileira na Guerra de Independ\u00eancia, Dois de Julho, e agora tem o nome do filho do ACM.<\/p>\n<p>L\u00e1 a pessoa pode ser uma cozinheira de televis\u00e3o cheia de maneirismos que eles n\u00e3o deixam barato. Podem at\u00e9 debochar, como acontece num quadro humor\u00edstico apresentado no filme, mas no fim das contas retratam a dignidade da pessoa que criou um caminho na gastronomia, levando oito anos para lan\u00e7ar seu primeiro livro. Dever\u00edamos imitar os americanos nisso e n\u00e3o no frango frito comprado no fast-food da esquina.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Meryl Streep confunde a imprensa. Foram 13 ou 16 indica\u00e7\u00f5es ao Oscar? 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