{"id":206,"date":"2005-05-27T23:01:49","date_gmt":"2005-05-28T01:01:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=206"},"modified":"2009-12-20T23:48:07","modified_gmt":"2009-12-21T01:48:07","slug":"o-gatilho-do-texto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-gatilho-do-texto","title":{"rendered":"O GATILHO DO TEXTO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Quem acampou na chuva, quem tem apenas um f\u00f3sforo e est\u00e1 s\u00f3, no ermo, quem tenta tirar fa\u00edsca de madeira verde, quem n\u00e3o consegue fazer uma pequena chama, que dir\u00e1 uma labareda, sabe o deslumbramento que \u00e9 um raio depois de horas de nuvens carregadas. Como a natureza pode fazer corisco apenas com \u00e1gua suspensa? Se houve algu\u00e9m que um dia tentou chegar na primeira chispa, deve ter desistido muitas vezes, depois de uma vida vendo o fogo quando n\u00e3o esperava e longe do inc\u00eandio quando mais queria. Ele sentou-se numa pedra numa tarde em que se prenunciava a tempestade e notou o susto de uma veia saltada de n\u00e9on no azul\u00e3o escuro do c\u00e9u. S\u00f3 um milagre poderia ensinar alguma coisa sobre esse mist\u00e9rio. Assim tamb\u00e9m acontece no texto.<\/p>\n<p>ESQUELETO &#8211; Acumular hist\u00f3rias, informa\u00e7\u00f5es, falas, n\u00e3o faz de ningu\u00e9m um escritor. O que faz de n\u00f3s um escritor \u00e9 o gatilho do texto, a fa\u00edsca que bota fogo na montanha de coisas que juntamos, o grude que garante a massa, quando tudo finalmente faz sentido. Comparo o resultado dessa fa\u00edsca que gera vida com um esqueleto imantado. O bruto est\u00e1 no meio da sala de anatomia e os meninos bocejam. De repente ele dan\u00e7a o twist e p\u00e1ra. Um dos alunos v\u00ea e se aproxima. Os outros continuam na sesta da indiferen\u00e7a. Ent\u00e3o o garoto chega perto e \u00e9 sugado pelos ossos do sujeito exposto. O aluno \u00e9 a informa\u00e7\u00e3o, o detalhe, o dado, a declara\u00e7\u00e3o. O esqueleto imantado \u00e9 a narrativa. Ele atrai a inoc\u00eancia com prazer e a faz parte de si. Os outros continuam indiferentes quando ent\u00e3o descobrem que algo acontece na figura que toma conta do recinto, e correm o risco ent\u00e3o de serem tamb\u00e9m sugados pelo im\u00e3. O encantamento provocado por um texto vem dessa jun\u00e7\u00e3o de criaturas dispersas, que acabam formando algo \u00fanico.<\/p>\n<p>Vi esses dias uma reportagem na TV sobre pescadores do nordeste. O personagem entrevistado, velho pescador de Fortaleza, falava em vento misturado, do nordeste e sul ao mesmo tempo, e era debochado constatemente pelo rep\u00f3rter (eles nunca falham). Foi a fagulha que faltava para a hist\u00f3ria que eu guardava num canto de mim, do vigia do mar. Descobri naquele instante que a mudan\u00e7a cont\u00ednua era o universo de quem estava sempre dependendo das \u00e1guas para viver, e quem n\u00e3o participava daquele mundo n\u00e3o conseguia entender esse redemoinho. Fiquei meses com a narrativa em potencial. Mas foi aquele clar\u00e3o que juntou as pe\u00e7as dispersas.<\/p>\n<p>BARCA &#8211; O talento dorme dentro de n\u00f3s como Deus na barca. L\u00e1 fora, a tempestade. Entramos em p\u00e2nico, vamos afundar. Despertamos ent\u00e3o aquele que nem toma conhecimento do nosso susto. Ele se levanta, se equilibra na prec\u00e1ria superf\u00edcie e faz um gesto. As nuvens se dissipam e ressurge o dia. Ele ent\u00e3o pergunta por nossa f\u00e9. Onde estava a f\u00e9 quando a barra pesou? Essa pequena e deslumbrante explica\u00e7\u00e3o de Alan Kardec para um trecho do Evangelho serve para nos revelar o segredo. Acredite que vai conseguir. Carregue-se. De repente, o c\u00e9u se ilumina com um clar\u00e3o. \u00c9 tua alma que implodiu diante do sagrado. Voc\u00ea atingiu a forja dos deuses.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acumular hist\u00f3rias, informa\u00e7\u00f5es, falas, n\u00e3o faz de ningu\u00e9m um escritor. 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