{"id":2075,"date":"2010-04-24T21:11:49","date_gmt":"2010-04-25T00:11:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2075"},"modified":"2010-04-24T21:11:49","modified_gmt":"2010-04-25T00:11:49","slug":"a-duvida-em-akira-kurosawa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-duvida-em-akira-kurosawa","title":{"rendered":"A D\u00daVIDA EM AKIRA KUROSAWA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Ver Kurosawa \u00e9 obrigat\u00f3rio: ele inventou o cinema que grandes cineastas copiaram. No seu centen\u00e1rio de nascimento, que se comemora este ano, \u00e9 uma forma de homenagear os olhos e o esp\u00edrito. E o correto \u00e9 ver tudo, j\u00e1 que n\u00e3o existe Kurosawa menor. Ele sempre extrapola o que percebemos \u00e0 primeira vista, pois usa sua arte como s\u00edntese e desdobramento de conflitos profundos, expl\u00edcitos em cenas de grande conflu\u00eancia de vetores. \u00c9 o caso de Anatomia do Medo (Ikimono no kiroku, 1955), de Akira Kurosawa, com Toshiro Mifune no papel do empres\u00e1rio que morre de medo da bomba H e tenta, em v\u00e3o, levar a fam\u00edlia para fora do perigo, o Brasil (j\u00e1 fomos uma vez o Eldorado).<\/p>\n<p>O filme \u00e9 sobre a d\u00favida, o medo \u00e9 sua conseq\u00fc\u00eancia. H\u00e1 a d\u00favida que provoca o medo generalizado, surdo e mudo, que impede o p\u00e2nico de vir \u00e0 tona. Nessa doen\u00e7a social cr\u00f4nica as pessoas se iludem com a estabilidade enquanto paira a amea\u00e7a real do exterm\u00ednio. \u201cEle est\u00e1 louco?\u201d pergunta o psiquiatra da casa de repouso onde est\u00e1 internado o velho que p\u00f4s fogo na fundi\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia para for\u00e7\u00e1-la a emigrar com ele. \u201cOu louco estamos n\u00f3s que ficamos absolutamente impass\u00edveis num mundo insano?\u201d A d\u00favida \u00e9: devemos nos insurgir ou deixar como est\u00e1, desde que n\u00e3o h\u00e1 nada a fazer? A maioria cede, mas alguns n\u00e3o.<\/p>\n<p>O dentista interpretado por Takashi Shimura, um dos atores mais convocados por Kurosawa, junto com Mifune, sabe que o velho tem raz\u00e3o, mas tem d\u00favidas se deve ou n\u00e3o consider\u00e1-lo judicialmente incapaz, pois sua paran\u00f3ia est\u00e1 provocando a ru\u00edna das finan\u00e7as da fam\u00edlia. A decis\u00e3o do tribunal de pequenas causas \u00e9 contra o empres\u00e1rio, mas isso provoca uma espiral de trag\u00e9dias. \u00c9 not\u00e1vel o detalhe de algumas cenas em que as pessoas tentam falar alguma coisa ao mesmo tempo depois de um longo sil\u00eancio. Ou quando custam a sair do lugar depois de um di\u00e1logo, como a considerar o que ainda v\u00e3o dizer ou decidir.<\/p>\n<p>Qual a s\u00edntese a que me referi acima nas seq\u00fc\u00eancias de Kurosawa? H\u00e1 v\u00e1rios exemplos. No in\u00edcio, a c\u00e2mara passeia pela cidade lotada de gente, bondes, autom\u00f3veis, barulho, e de repente fixa numa janela onde est\u00e1 o dentista que ser\u00e1 o fio condutor da trama. No caos urbano de uma sociedade amea\u00e7ada, a vida normal da sobreviv\u00eancia da classe m\u00e9dia procura uma atividade social, que \u00e9 a de participar dos julgamentos de casos familiares. O dentista que trabalha no consult\u00f3rio junto com o filho tem d\u00favida sobre essa atividade paralela e mant\u00e9m com ela uma rela\u00e7\u00e3o d\u00fabia, de fasc\u00ednio e ojeriza. Tudo isso est\u00e1 em poucos segundos de cinema. Kurosawa n\u00e3o brinca em servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Num plano geral, vemos que a saga familiar \u00e9 apenas um aspecto da luta de classes. O empres\u00e1rio que emprega dezenas de oper\u00e1rios s\u00f3 pensa em salvar a fam\u00edlia. Destr\u00f3i o patrim\u00f4nio que construiu ao logo da vida para tirar as pessoas pr\u00f3ximas do perigo. \u201cE n\u00f3s?\u201d pergunta o metal\u00fargico, \u201cque vivemos desta empresa, o senhor n\u00e3o pensou em n\u00f3s?\u201d Flagrado no ego\u00edsmo, o velho entra em parafuso at\u00e9 a loucura. A pr\u00f3pria amea\u00e7a da Bomba H \u00e9 a extrapola\u00e7\u00e3o da luta de classes em escala mundial. Os imp\u00e9rios entram em choque e s\u00f3 a amea\u00e7a de solu\u00e7\u00e3o final decide a parada.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos deveriam ter jogado a bomba em duas grandes cidades japonesas, onde n\u00e3o havia soldados, s\u00f3 civis, a maioria velhos, mulheres e crian\u00e7as? A guerra j\u00e1 estava ganha, mas era preciso dar uma li\u00e7\u00e3o para vingar o ataque a Pearl Harbour (eles s\u00e3o os imperdo\u00e1veis). A bomba cairia de novo no Jap\u00e3o ou a antiga pot\u00eancia se enquadraria de vez no jogo do Ocidente? Vimos o que aconteceu. Mas em 1955, ano em que foi feito o filme, o Jap\u00e3o ainda se digladiava com suas d\u00favidas, rec\u00e9m egresso de um conflito que acabou com a imagem tradicional do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Kurosawa tamb\u00e9m teve d\u00favidas no inicio de carreira Queria ser pintor, mas n\u00e3o conseguiu porque a escola de arte era cara. S\u00f3 foi para o cinema quatro anos depois que sua irm\u00e3 mais velha, narradora de filmes mudos, se suicidou. Ele mesmo tentou suic\u00eddio (devo viver ou n\u00e3o?) numa crise de depress\u00e3o nos anos 70. Cortou o pulso v\u00e1rias vezes. N\u00e3o teve \u00eaxito. Sorte nossa, que podemos ver seus 30 filmes maravilhosos. Em rela\u00e7\u00e3o a Kurosawa, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida: este \u00e9 o cineasta maior. David Lean, meu favorito, que me perdoe.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Ver Kurosawa \u00e9 obrigat\u00f3rio: ele inventou o cinema que grandes cineastas copiaram. No seu centen\u00e1rio de nascimento, que se comemora este ano, \u00e9 uma forma de homenagear os olhos e o esp\u00edrito. E o correto \u00e9 ver tudo, j\u00e1 que n\u00e3o existe Kurosawa menor. 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