{"id":208,"date":"2005-05-27T23:03:25","date_gmt":"2005-05-28T01:03:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/o-ultimo-duelo"},"modified":"2009-12-20T22:46:27","modified_gmt":"2009-12-21T00:46:27","slug":"o-ultimo-duelo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-ultimo-duelo","title":{"rendered":"O \u00daLTIMO DUELO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O goleiro \u00e9 um animal enjaulado. Preso pela regra e pela amea\u00e7a da derrota, ele usa o pulo para diminuir o sofrimento, jamais para inaugurar a fuga. Por mais que se movimente, sempre volta ao mesmo jugo. Tem apenas uma arma de defesa, o reflexo. O resto, como o golpe de vista, \u00e9 loteria. A vida vale pelos gols que toma e n\u00e3o pelos que salva. Sua humilha\u00e7\u00e3o suprema \u00e9 levar um chute certeiro pelo meio dos bra\u00e7os ou das pernas. O frango, aquele lance em que a bola chocha cisca o ch\u00e3o de maneira arisca e \u00e9 ca\u00e7ada em v\u00e3o, \u00e9 a sua puni\u00e7\u00e3o extrema. Um frango existe quando a bola dribla o goleiro e cobre a \u00e1rea de vergonha. Nem a ilus\u00e3o de que exista de fato o morrinho artilheiro \u00e9 capaz de redimir algu\u00e9m de um frango. Mas h\u00e1 um tipo de jogo que faz justi\u00e7a a esses condenados. Ele acontece cara a cara, ao anoitecer.<\/p>\n<p><strong>DESAFIO<\/strong> &#8211; Alguns goleiros, como Rog\u00e9rio, do S\u00e3o Paulo, fingem que s\u00e3o livres e v\u00e3o chutar faltas. Outros, como Higuita, n\u00e3o se conformam em ser testemunha a maior parte do tempo. Mas assim \u00e9 o goleiro: um bicho enjaulado que se rebela e que, sendo o \u00fanico a poder jogar com as m\u00e3os, tem, por vingan\u00e7a, o chute mais potente, que atravessa o campo. Seu objetivo \u00e9 acertar o seu semelhante, que no outro lado do jogo, compartilha a mesma maldi\u00e7\u00e3o. Por isso o jogo da inf\u00e2ncia, o gol a gol, \u00e9 \u00fanico no seu confronto entre duas pessoas que jamais participam de verdade de um time, que \u00e9 feito de zagueiros, volantes, atacantes, pontas, jamais de criaturas que t\u00eam licen\u00e7a para voar. O gol a gol \u00e9 uma esp\u00e9cie de vingan\u00e7a para quem nasce goleiro e pode, ao mesmo tempo, fazer gols, um atr\u00e1s do outro, sem que nada nem ningu\u00e9m interfira. O gol a gol \u00e9 um duelo ao entardecer, quando todos est\u00e3o exaustos e s\u00f3 sobra f\u00f4lego para quem \u00e9 goleiro. Esse \u00e9 o momento do desempate, do desenlace do dia inteiro dedicado ao futebol, ou seja, \u00e0 arte improv\u00e1vel de combinar retas com curvas e encaixar esferas em ret\u00e2ngulos. O que n\u00e3o foi conseguido a tarde toda pode ser definitivo agora, que o sol praticamente se foi e o Cruzeiro do Sul nos cobre com sua madeira de luzes poderosas. O l\u00edder, que n\u00e3o tem posi\u00e7\u00e3o, pois est\u00e1 sempre no centro dos acontecimentos, define as regras. Tira o par ou \u00edmpar e come\u00e7am as apostas. Os goleiros ent\u00e3o se esfacelam nas pedras para ganhar aquela partida, pois \u00e9 o momento que possuem para apagar um frango, subir na escala da tribo, poder contar vantagem mais tarde, diferenciar-se da situa\u00e7\u00e3o de mero coadjuvante, contrariar o que foi comum o tempo todo, e j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais tempo, pois acaba-se o dia e a inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p><strong>LUA<\/strong> &#8211; No sub\u00farbio, na pequena cidade, n\u00e3o existe luz sobrando, apesar do excesso de estrelas. O breu ent\u00e3o toma conta do campo (conjunto de terra atirada a esmo) e s\u00f3 se sobressai a bola, lua branca pequena e selvagem, que faz ru\u00eddo de lua branca. Quando a partida segue, com todos os envolvidos, \u00e9 a hora de marcar pesado, tirar a limpo aquela rasteira, atacar por baixo e por cima. Quando \u00e9 apenas um gol a gol, \u00e9 o momento da gargalhada. Pois \u00e9 trag\u00e9dia apenas entre os dois contendores, e com\u00e9dia para o resto. Ningu\u00e9m leva a s\u00e9rio um goleiro fazendo gol. Por isso essa modalidade n\u00e3o existe em parte alguma, nem em olimp\u00edada e, desconfio, nem mais naqueles ermos perdidos, que foram arrastados para o abismo do Nada. Deveria ter continuado o gol a gol perdido no \u00faltimo tiro. Deveria haver uma nova chance. Porque a noite \u00e9 imensa, intermin\u00e1vel e quando amanhecer j\u00e1 seremos homens, esses seres sem gra\u00e7a que na frente da televis\u00e3o olham com desprezo os goleiros e seus frangos, os goleiros e seus pulos, os goleiros e sua grande voca\u00e7\u00e3o para a eternidade. Quem viveu naquele tempo, sabe. Fui goleiro, por isso sou eterno. Por isso ainda estou pronto para o duelo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O gol a gol \u00e9 um duelo ao entardecer, quando todos est\u00e3o exaustos e s\u00f3 sobra f\u00f4lego para quem \u00e9 goleiro. 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