{"id":2082,"date":"2010-04-24T21:23:24","date_gmt":"2010-04-25T00:23:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2082"},"modified":"2010-04-24T21:23:24","modified_gmt":"2010-04-25T00:23:24","slug":"dois-classicos-da-luta-de-classes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/dois-classicos-da-luta-de-classes","title":{"rendered":"DOIS CL\u00c1SSICOS DA LUTA DE CLASSES"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nTr\u00eas d\u00e9cadas separam dois vencedores de Cannes: o alem\u00e3o A Fita Branca ( no original com o complemento \u201cUma hist\u00f3ria para crian\u00e7as&#8221;), de Michael Haneke, de 2009; e o italiano A \u00e1rvore dos tamancos, de Ermanno Olmi, de 1978. Ambos abordam sociedades camponesas fechadas, crist\u00e3s, dominadas por um r\u00edgido sistema de classes, onde um dono de terra \u00e9 dono da vida de cada um. A narrativa \u00e9 ambientada em \u00e9pocas pr\u00f3ximas e id\u00eanticas: anos 1910 antes da I Guerra em Haneke e final do s\u00e9culo 19 em Olmi.<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o visual diz tudo sobre as inten\u00e7\u00f5es e resultados das duas obras. O preto e branco alem\u00e3o enfoca a classe m\u00e9dia \u2013 o professor, o m\u00e9dico, o pastor &#8211; como reprodutora dos princ\u00edpios do regime de castas, que \u00e9 a repress\u00e3o, o ressentimento e a vingan\u00e7a. O colorido italiano resgata a rica diversidade dos h\u00e1bitos do povo, sem deixar de lado os crimes produzidos pela imposi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Ambos giram em torno das novas gera\u00e7\u00f5es, que sofrem o impacto da situa\u00e7\u00e3o e interagem com ela.<\/p>\n<p>Mesmo que Haneke seja duro com seu universo da Alemanha pr\u00e9-nazista, denunciando suas fraudes e perversidades, e Olmi coloque em pauta a aliena\u00e7\u00e3o e divis\u00e3o entre os camponeses, que acabam sendo coniventes com os crimes, fica claro o fasc\u00ednio que essas sociedades fechadas exercem sobre os dois cineastas. Olmi, filho de fam\u00edlia ferrovi\u00e1ria, n\u00e3o esconde a admira\u00e7\u00e3o por uma comunidade, do norte da It\u00e1lia, que ainda tateava as m\u00e1quinas e providenciava a sobreviv\u00eancia por meio do trabalho duro, a uni\u00e3o dentro da fam\u00edlia, a obedi\u00eancia cega ao patr\u00e3o. As brigas, as festas, o trato com os animais, os cuidados com as crian\u00e7as, tudo \u00e9 encantador no filme italiano, mesmo que encerre uma verdade cruel, a do campon\u00eas que foi expulso da gleba por ter recortado um olmo para fazer tamancos que seu filho pequeno necessitava, pois caminhava seis quil\u00f4metros por dia para estudar.<\/p>\n<p>Haneke disfar\u00e7a bem seu fasc\u00ednio pelo perfil social da Alemanha que gerou o nazismo. Seu filme \u00e9 sinistro. Um professor\/detetive\/narrador conta a hist\u00f3ria de crueldades praticadas contra os habitantes da aldeia. O m\u00e9dico ped\u00f3filo, o pastor s\u00e1dico, o bar\u00e3o tirano, a bab\u00e1 submissa, o campon\u00eas que cala diante da morte suspeita da esposa fazem parte de uma paisagem que s\u00f3 muda nas esta\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que sua voca\u00e7\u00e3o \u00e9 permanecer eternamente igual. Essa mesmice sufocante, com a emerg\u00eancia das crian\u00e7as, que pipocam por todo, n\u00e3o cabe mais na ilus\u00e3o sazonal do clima, que modela o trabalho escravo na semeadura e colheita. O momento \u00e9 de ruptura.<\/p>\n<p>No caso alem\u00e3o, a briga familiar do patr\u00e3o, pressionada pelos eventos criminosos do lugar, \u00e9 o sintoma de uma ruptura maior, a do assassinato em Sarajevo que desencadeou o primeiro grande conflito mundial. No caso italiano, a sa\u00edda \u00e0 noite, do campon\u00eas junto com a mulher a bra\u00e7os com um rec\u00e9m nascido e rodeado de crian\u00e7as, \u00e9 pren\u00fancio da agita\u00e7\u00e3o social que desaguou no fascismo. V\u00e3o para onde? Para o desconhecido. Para a guerra.<\/p>\n<p>\u201cQuando existe um princ\u00edpio, uma ideologia ou uma religi\u00e3o absoluta, ser\u00e1 automaticamente desumano\u201d, disse Haneke numa entrevista. \u201cEssa \u00e9 a raiz de todos os terroristas, n\u00e3o importa a ideologia ou a religi\u00e3o. Se existe uma id\u00e9ia perversa de ideologia, \u00e9 perigoso. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 um problema especificamente alem\u00e3o, mas uma grande generalidade\u201d. Tirar da Alemanha a canga exclusiva da tirania coloc\u00e1-la nos ombros da humanidade \u00e9 a tarefa do alem\u00e3o Hanecke que, sem omitir responsabilidades, chama o espectador para outra arena. A que est\u00e1 ao nosso redor.<\/p>\n<p>Olmi e Haneke produziram cl\u00e1ssicos na linhagem marxista, mesmo que n\u00e3o admitam. Eles seguem o que a obra de Marx tem de mais significativo, que \u00e9 definir a hist\u00f3ria humana como a hist\u00f3ria da luta de classes. Em ambos, a identidade cultural entre as classes envolvidas serve para dar mais transpar\u00eancia ao conflito principal, j\u00e1 que s\u00e3o seres da mesma nacionalidade que convivem num sistema de opress\u00e3o. Na \u00e9poca abordada pelos filmes, n\u00e3o h\u00e1, como hoje, o confronto de opostos que existe entre a barb\u00e1rie americana e o fundamentalismo \u00e1rabe.<\/p>\n<p>\u00c9 entre iguais que se d\u00e1 o drama. A sociedade imobilizada come\u00e7a a ruir e des\u00e1gua na guerra. Nada ser\u00e1 como antes, mas o modelo das sociedades fechadas, fundamentalistas, permanece. Ou como den\u00fancia ou como fasc\u00ednio, vetores poderosos nestes dois filmes admir\u00e1veis. Eles mostram que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para a inoc\u00eancia numa sociedade dividida em classes. A fita branca colocada no jovem rebelde, em vez de significar a pureza de sentimentos, como quer o pastor, \u00e9 o sinal da imposs\u00edvel reconcilia\u00e7\u00e3o entre a opress\u00e3o e a responsabilidade. E o p\u00e9 de tamanco novo, que cal\u00e7a o garoto campon\u00eas escolhido para ir \u00e0 escola, torna-se in\u00fatil com a expuls\u00e3o da fam\u00edlia ao cair da noite, quando todos se recolhem para n\u00e3o se envolver com o pecado do pai que quis proteger o filho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Tr\u00eas d\u00e9cadas separam dois vencedores de Cannes: o alem\u00e3o A Fita Branca ( no original com o complemento \u201cUma hist\u00f3ria para crian\u00e7as&#8221;), de Michael Haneke, de 2009; e o italiano A \u00e1rvore dos tamancos, de Ermanno Olmi, de 1978. 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