{"id":209,"date":"2005-05-28T23:05:28","date_gmt":"2005-05-29T01:05:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=209"},"modified":"2009-12-21T20:50:48","modified_gmt":"2009-12-21T22:50:48","slug":"a-lentidao-em-ben-hur","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-lentidao-em-ben-hur","title":{"rendered":"A LENTID\u00c3O EM BEN-HUR"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O filme Ben-Hur, de William Wyler, ficou famoso pela corrida de bigas, mas essa seq\u00fc\u00eancia memor\u00e1vel s\u00f3 pode ser entendida como o momento intensificado de uma obra lenta, densa, dram\u00e1tica. H\u00e1 uma s\u00e9rie de acusa\u00e7\u00f5es a esse cl\u00e1ssico, todas execr\u00e1veis. Come\u00e7a por Charlton Heston, ator magn\u00edfico que caiu em desgra\u00e7a por ser confundido com canastr\u00f5es e, ultimamente, por ter sido alvo da falta de respeito por parte de Michael Moore (que, mesmo movido por motivos corretos, for\u00e7ou a m\u00e3o ao filmar Heston na pr\u00f3pria casa para denunci\u00e1-lo, abusando da hospitalidade e constrangendo o anfitri\u00e3o ). Outra, a de que n\u00e3o passa de uma refilmagem, o que \u00e9 um absurdo, pois a vers\u00e3o anterior era muda e o forte em Ben-Hur s\u00e3o os di\u00e1logos (vejam Gladiador para notar como refilmar pode gerar uma porcaria). E terceiro (desta vez a carga negativa vem de Gore Vidal), de que o filme n\u00e3o passa de uma rela\u00e7\u00e3o homossexual entre o her\u00f3i e o vil\u00e3o, cal\u00fania desmentida pelo grande final, com Ben-Hur abra\u00e7ado \u00e0s mulheres da sua vida: esposa, m\u00e3e e irm\u00e3.<\/p>\n<p>JUD\u00c9IA &#8211; Hoje \u00e9 moda fazer filmes horrendos de glorifica\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio, com bandidos fantasiados de her\u00f3is dando tiro no Oriente M\u00e9dio e vilanizando os povos de l\u00e1. Em Ben-Hur \u00e9 o contr\u00e1rio. O vil\u00e3o \u00e9 o imp\u00e9rio e a guerra perde a luta para a paz. Besteiras ut\u00f3picas? N\u00e3o, recado pol\u00edtico a favor do entendimento numa regi\u00e3o conflagrada. A solu\u00e7\u00e3o seria a lucidez, o alto n\u00edvel espiritual, o perd\u00e3o, a emo\u00e7\u00e3o. O filme aborda o sofrimento humano. O bem-nascido que cai em desgra\u00e7a, perde a fam\u00edlia, mas tem sua segunda chance. Procura a vingan\u00e7a no front, na guerra, mas \u00e9 obrigado, pelas circunst\u00e2ncias e o aconselhamento, a trabalhar na representa\u00e7\u00e3o do conflito, no est\u00e1dio lotado. As seq\u00fc\u00eancias anteriores \u00e0 corrida s\u00e3o impressionantes pela for\u00e7a que transmitem. O \u00e1rabe criador de cavalos e jogador profissional fala sobre Balthazar, um dos reis Magos da estrela de Bel\u00e9m que tenta trazer o her\u00f3i para a solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica. Balthazar \u00e9 um grande homem, diz o mercador, um dia todos ser\u00e3o como ele. Mas antes disso vamos manter nossas espadas afiadas. Esse vai-e-vem entre a luta e a paz pontua toda a obra e carrega de emo\u00e7\u00e3o o reencontro de Ben-Hur com a vida que tinha perdido. Voc\u00ea se transformou em Messala, diz a noiva para o her\u00f3i, que cai em si diante da revela\u00e7\u00e3o, de que o \u00f3dio o estava levando para o que mais odiava. Esse tipo de filme seria, segundo an\u00e1lise tradicional, apenas propaganda dos judeus que dominavam a ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica da \u00e9poca. Mesmo que fosse, \u00e9 um tipo de filme que n\u00e3o se faz mais. Hoje, temos a barb\u00e1rie dominando tudo. N\u00e3o h\u00e1, para come\u00e7ar, lentid\u00e3o no andamento, densidade no timing, nada. O que h\u00e1 s\u00e3o explos\u00f5es e sangue e crueldade. Filmes fora do circuito tamb\u00e9m apelam para a viol\u00eancia. Vejam essa coisa megal\u00f4mana chamada Tarantino, que chegou a dizer que a viol\u00eancia existe para ele film\u00e1-la. Ben-Hur foi um mega-sucesso. Provocava emo\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o. Quem nos dera, hoje.<\/p>\n<p>RUSSIA &#8211; Grandes filmes costumam ser exclu\u00eddos, colocados como perda de tempo. Vejam o caso de <em>Dr. Jivago<\/em>, o espetacular filme de David Lean. Tratado como uma obra \u00e1gua-com-a\u00e7\u00facar, foi tamb\u00e9m acusado de n\u00e3o estar \u00e0 altura do livro que o originou, de Boris Pasternak. S\u00f3 a seq\u00fc\u00eancia do reencontro de Jivago com Lara no interior do grande pa\u00eds, ou a cena em que ele a perde para seu arqui-inimigo, com seu amor sumindo no meio da neve no horizonte, ou mesmo toda a viagem de trem, que tem pelo meio a passagem de Strelnikov (Tom Courtenay lembrando Trotsky) bastam para dizer que este \u00e9 um filme cl\u00e1ssico, magn\u00edfico, inesquec\u00edvel. Sem falar no personagem interpretado por Alec Guiness, que procura a filha do irm\u00e3o desaparecido e a encontra tocadora, como o pai, de balalaika. \u00c9 um dom, diz ele no final para a mo\u00e7a que some no meio da popula\u00e7\u00e3o de Moscou. Lembro de outro grande filme, esse de Vittorio de Sica, <em>Os Girass\u00f3is da R\u00fassia<\/em>, com Sophia Loren e Marcelo Mastroianni. Filme sobre a perda, filme em que o cen\u00e1rio \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o da majestade dos sentimentos. Tudo isso levou a arte cinematogr\u00e1fica ao esplendor. Mas achavam uma porcaria. Queriam a crueza, a viol\u00eancia pura e simples, o horror. Agora tem isso de sobra. Bom proveito. Eu prefiro a madrugada de ins\u00f4nia para rever o que me apertou contra a poltrona no cinema, naquela solid\u00e3o do pampa, em que t\u00ednhamos acesso \u00e0 cultura universal de grande presen\u00e7a est\u00e9tica, esse cinema que corria o mundo com sua grandeza jamais igualada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O filme Ben-Hur, de William Wyler, ficou famoso pela corrida de bigas, mas essa seq\u00fc\u00eancia memor\u00e1vel s\u00f3 pode ser entendida como o momento intensificado de uma obra lenta, densa, dram\u00e1tica. 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