{"id":2090,"date":"2010-04-24T21:31:28","date_gmt":"2010-04-25T00:31:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/invasao-urbana-da-gruta-do-pampa"},"modified":"2010-04-24T21:31:28","modified_gmt":"2010-04-25T00:31:28","slug":"invasao-urbana-da-gruta-do-pampa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/invasao-urbana-da-gruta-do-pampa","title":{"rendered":"INVAS\u00c3O URBANA DA GRUTA DO PAMPA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O cinema do Brasil, apesar dos festivais e de alguns sucessos da bilheteria, costuma se esconder. Por isso vejo tardiamente o que se faz dentro das nossas fronteiras. O jogo de gato e rato com as obras me cansa. Gostaria que tudo estivesse bem \u00e0 m\u00e3o para todo mundo assistir, mas n\u00e3o \u00e9 isso o que acontece.<\/p>\n<p>Como tomo conhecimento depois que os eventos sobre o lan\u00e7amento j\u00e1 fizeram mais de um anivers\u00e1rio, corro para ler a cr\u00edtica e s\u00f3 vejo injusti\u00e7a. Ou por omiss\u00e3o ou por indiferen\u00e7a ou pelo vazio dos textos, que definem alguns lugares comuns para abordar um trabalho coletivo, complicado, \u00e1rduo, enlouquecedor muitas vezes e que depende totalmente dos financiamentos p\u00fablicos, pois n\u00e3o temos ind\u00fastria, nem mercado sintonizado com o cinema nacional. A avalanche americana matou o resto entre n\u00f3s, at\u00e9 mesmo o cinema italiano, que era t\u00e3o presente. Hoje os americanos chegam ao c\u00famulo de refilmar tudo que \u00e9 sucesso europeu.<\/p>\n<p>Numa boa conversa em tarde chuva no feriado de Tiradentes, coment\u00e1vamos com Miguel Ramos e Tabajara Ruas como v\u00edamos filmes de todas as nacionalidades nos anos idos, desde mexicanos at\u00e9 franceses e espanh\u00f3is. Hoje \u00e9 tudo blockbuster, tiroteio, invas\u00e3o do Iraque e gringos protagonizando todas em qualquer parte do mundo, principalmente tra\u00e7ando nativas asi\u00e1ticas, hisp\u00e2nicas ou eslavas. Os Estados Unidos devoram o mundo e o invadem pelo com\u00e9rcio, a guerra e por uma inven\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia, o cinema.<\/p>\n<p>Mas a visita na Lagoa no feriado foi boa tamb\u00e9m porque ganhei de presente de Miguel Ramos tr\u00eas preciosidades: o curta-metragem sobre &#8220;A Invas\u00e3o do Alegrete&#8221;, de Diego e Pablo Muller, que \u00e9, acho, a primeira incurs\u00e3o cinematogr\u00e1fica no vasto anedot\u00e1rio do pampa, um ineditismo que precisa ser levado adiante, pois essa \u00e9 uma riqueza larga e que render\u00e1 bons frutos; algumas cenas de divulga\u00e7\u00e3o de \u201cEnquanto a noite n\u00e3o chega\u201d, de Beto Souza, que est\u00e1 em fase de pr\u00e9-lan\u00e7amento; e, o mais importante por enquanto, que \u00e9 o filme de 2005 tamb\u00e9m de Beto Souza, Cerro do Jarau. N\u00e3o li nada que preste sobre este filme que mistura v\u00e1rios g\u00eaneros, onde se sobressai o policial. Mas posso estar enganado.<\/p>\n<p>Cerro do Jarau tem o m\u00e9rito de ousar despretens\u00e3o com uma produ\u00e7\u00e3o apurada, um roteiro bem feito e interpreta\u00e7\u00f5es antol\u00f3gicas. Brinca com a lenda sobre a Salamanca do Jarau, mito trazido pelos espanh\u00f3is sobre a bruxa moura devoradora de homens que vive numa gruta no Cerro do Jarau, tema que inspirou Jo\u00e3o Sim\u00f5es Lopes Neto (que est\u00e1 sendo definido como \u201co Guimar\u00e3es Rosa do Sul\u201d, quando publicou sua obra muito antes de Rosa, que dele bebeu-lhe diretamente na fonte, do trabalho na linguagem a personagens, como o narrador Blau Nunes, que gerou Riobaldo de Grande Sert\u00e3o, como publiquei no pref\u00e1cio de uma edi\u00e7\u00e3o de Lopes Neto para a Editora Globo).<\/p>\n<p>O Cerro do Jarau exerce grande fasc\u00ednio naquela regi\u00e3o da fronteira. Lembro que as pescarias em lugares mais remotos estavam perto daquela eleva\u00e7\u00e3o de terra, rara no horizonte estaqueado do pasto. O filme gira em torno da mulher e seu poder de costurar a hist\u00f3ria, onde os homens s\u00e3o coadjuvantes e suas v\u00edtimas. Implicaram com Beto Souza com o t\u00edtulo escolhido, j\u00e1 que \u201cningu\u00e9m conhece\u201d a lenda. Haja. Primeiro porque isso \u00e9 mentira, a lenda est\u00e1 entranhada na cultura geral do estado. Segundo, porque se fosse mesmo desconhecida a\u00ed \u00e9 que deveria ser escolhida, ora pampas! Est\u00e1 tudo invertido no pa\u00eds das facilidades fofas.<\/p>\n<p>Virou moda torcer o nariz para temas ga\u00fachos no cinema. Vejam que coincid\u00eancia. No momento em que os filmes no Rio Grande do Sul deram um salto com o trabalho de Tabajara Ruas e Beto Souza, entre outros cineastas, \u00e9 que inventaram de implicar com o gauchismo. N\u00e3o \u00e9 demais? Sentiram medo da concorr\u00eancia, pois um centro alternativo de cinema, fora das garras normais, capta financiamento e isso \u00e9 um perigo para os devoradores de grana.<\/p>\n<p>O diretor foi certeiro ao atualizar a lenda promovendo uma invas\u00e3o urbana na gruta do ermo. Uma persegui\u00e7\u00e3o digna de um bom filme policial enfrenta o resgate da amizade cultivada na inf\u00e2ncia. Cora\u00e7\u00f5es partidos lidam com o cinismo triunfante de um personagem que \u00e9 a express\u00e3o m\u00e1xima da interpreta\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s: Miguel Ramos, o monstro, no papel do Correntino, o vil\u00e3o hil\u00e1rio e sinistro. Costumo dizer que os atores\/monstros, os que se transformam nas criaturas que inventam, fazem isso para nos assustar. Miguel Ramos, que ganhou tudo que \u00e9 pr\u00eamio com esse papel, consegue. Tenho medo daquele correntino, s\u00edntese de todos os canalhas que conheci na fronteira, representado com perfei\u00e7\u00e3o pelo nosso ator maior.<\/p>\n<p>Mas tem mais. Lu Adams no papel da mulher dilacerada por um casamento de trai\u00e7\u00f5es e que procura no passado a reden\u00e7\u00e3o, est\u00e1 perfeita, sensual, intensa. Tarcisio Meira Filho faz muito bem o gal\u00e3 de duas caras, atrapalhado e fraco. Roberto Birindelli, Thiago Real, Nestor Monasterio e Jo\u00e3o Fran\u00e7a matam a pau em personagens coadjuvantes que d\u00e3o grande sustenta\u00e7\u00e3o \u00e1 hist\u00f3ria. E no mais \u00e9 o palco da m\u00fasica avassaladora do sul, o pampa aberto e limpo com sua m\u00edstica e for\u00e7a, e o perfil de metr\u00f3pole de Porto Alegre, mostrada n\u00e3o como paisagem, mas como um labirinto, conjunto indecifr\u00e1vel de pr\u00e9dios e pontes num clima noir. \u201cCinza \u00e9 o nome da cidade apesar do claro que me abriu na alma\u201d disse eu num poema do livro No Meio da Rua. \u00c9 assim que eu via Porto Alegre e \u00e9 assim que Beto Souza filma, com sua equipe t\u00e9cnica de primeira e o apoio de excelentes roteiristas. Geraldo Borowski e Fernando Mar\u00e9s de Souza, que trabalharam o script junto com Taba e Beto.<\/p>\n<p>Querem mais de um filme? Ora, v\u00e3o ver Avatar, que \u00e9, literalmente, uma bosta. Cerro do Jarau est\u00e1 numa caixa caprichada com dois cds, um \u00e9 o filme e o outro s\u00e3o os extras, com cenas das filmagens, depoimentos e dois curta-metragens como b\u00f4nus.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s O cinema do Brasil, apesar dos festivais e de alguns sucessos da bilheteria, costuma se esconder. Por isso vejo tardiamente o que se faz dentro das nossas fronteiras. O jogo de gato e rato com as obras me cansa. 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