{"id":211,"date":"2005-05-28T23:07:22","date_gmt":"2005-05-29T01:07:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=211"},"modified":"2009-12-20T22:51:20","modified_gmt":"2009-12-21T00:51:20","slug":"gol-do-brasileiro-franca","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/gol-do-brasileiro-franca","title":{"rendered":"GOL DO BRASILEIRO FRAN\u00c7A"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A bola veio do canto do campo, numa altura m\u00ednima, como se fosse a roda de um trem que rola sobre trilhos supercondutores, aquele que n\u00e3o faz fric\u00e7\u00e3o quando anda. Fran\u00e7a acompanhou a trajet\u00f3ria da bola como um menino que aposta corrida com um carro. Lembrei dos pneus velhos da minha inf\u00e2ncia, usados para colocar algu\u00e9m dentro, todo enrodilhado. A turma joga o cara que faz a prova morro abaixo, para ver se ele ag\u00fcenta ficar rodando dentro daquela borracha fedida. O corpo curvado e as pernas que se juntam aos bra\u00e7os o transformam numa parte do pneu. Os outros acompanham para debochar da cara do sujeito. Um deles \u00e9 Fran\u00e7a, o menino que segue a bola como se estivesse num outro tempo, quando havia inf\u00e2ncia. Os gestos dele se parecem com o que vislumbro na minha lembran\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>PARADA<\/strong> -\u00c9 uma corridinha t\u00edpica de garoto do interior. As pernas compridas e magras de Fran\u00e7a se aceleram como se fosse um Flintstone dando partida no carro com os p\u00e9s. H\u00e1 um descompasso entre aquela pressa e a quantidade de espa\u00e7o palmilhado. Ele no fundo corre alguns metros, mas parece que cruzou toda a rua acompanhando seu objeto de desejo. Os bra\u00e7os tamb\u00e9m se comportam de maneira t\u00edpica. Eles se encolhem, para economizar vento e criar o gesto adequado da acelera\u00e7\u00e3o. O cabelo de l\u00e3 do nosso artilheiro segue o percurso do corpo. Fran\u00e7a n\u00e3o tem corpo de atleta. Suas pernas muito finas, seu corpo aparentemente fr\u00e1gil, seu andar que mais parte para o desengon\u00e7o do que para eleg\u00e2ncia significam que ele faz parte dessa linhagem de craques que nada tem a ver com o corpo sarado de outros esportes. Um Maradona ou um Garrincha s\u00e3o aqueles companheiros de rua que, muito pequenos, nada tinham a ver com esporte, a n\u00e3o ser que faziam tudo com uma bola qualquer. Fran\u00e7a tem um corpo comum, desses que a gente v\u00ea todos os dias, nos \u00f4nibus, nas cal\u00e7adas, nos escrit\u00f3rios e f\u00e1bricas. N\u00e3o era para estar exposto na m\u00eddia mundial, participando da Copa dos Campe\u00f5es, defendo o Bayern Leverkusen contra o Real Madri. Era para estar na parada de \u00f4nibus, preocupado com o atraso da lota\u00e7\u00e3o. De rosto carregado, ele est\u00e1 esperando o coletivo e lembra um dia em que acompanhou o pneu com algu\u00e9m dentro. Seus olhos ent\u00e3o se descontraem com a lembran\u00e7a. Ele correu at\u00e9 l\u00e1 embaixo, no fim da rua, para ver como o cara sa\u00eda do pneu, todo tonto. Era ent\u00e3o o primeiro a pegar o cara para rodopi\u00e1-lo ainda mais, pois o engra\u00e7ado era v\u00ea-lo tentar ficar em p\u00e9 e depois cair.<\/p>\n<p><strong>SURPRESA<\/strong> -Fran\u00e7a estava correndo ao lado da bola que n\u00e3o tocava no ch\u00e3o e todos esperavam o cl\u00e1ssico chuveirinho europeu. Outros jogadores estavam \u00e0 espera do seu lance. Queriam receber a bola pelo alto para cabecear em dire\u00e7\u00e3o ao arco. Fran\u00e7a poderia fazer o previs\u00edvel: dar um tot\u00f3zinho esperto por cima dos zagueiros para entregar a crian\u00e7a nos p\u00e9s de um companheiro, colocando-o cara a cara com o gol. Mas ele estava correndo atr\u00e1s do pneu, n\u00e3o jogando uma partida de futebol. Sabia que a bola estava na medida para alcan\u00e7ar sua verdadeira rota, a que foi intencionalmente posta em jogo quando algu\u00e9m passou para ele. A bola precisava ir para o gol, mas deveria passar antes por Fran\u00e7a, que saberia coloc\u00e1-la no lugar certo. Mas Fran\u00e7a surpreendeu todo mundo. Seu corpo todo encolhido, do menino que corre, que d\u00e1 tudo numa arrancada para participar daquela turma imposs\u00edvel, de repente se desenrola como um novelo de fios de ouro, que um segundo antes davam a impress\u00e3o que ficariam para sempre na mesma posi\u00e7\u00e3o. Os p\u00e9s de Flintstone passam imediatamente para a c\u00e2mara lenta. O esquerdo serve para dar apoio (ele toca no ch\u00e3o? nunca saberemos) e o direito ent\u00e3o consegue pegar a bola meio por baixo, j\u00e1 que ela vinha numa altura m\u00ednima. Ent\u00e3o ele bate sem d\u00f3 com o peito do p\u00e9, ou melhor, a parte posterior do peito do p\u00e9, numa posi\u00e7\u00e3o de trivela (tr\u00eas dedos) centralizada. Na hora que ele bate, j\u00e1 \u00e9 tarde demais. Os atacantes podem desistir, os zagueiros lamentar. S\u00f3 o goleiro n\u00e3o quer render-se \u00e0s evid\u00eancias.<\/p>\n<p><strong>TEMPO<\/strong> &#8211; O goleiro deveria saber do que se tratava, mas n\u00e3o sabia. Achava que poderia defender o chute certeiro, que partiu bem da base do ch\u00e3o e foi ganhando altura como a \u00e1guia que j\u00e1 fisgou o peixe antes do mergulho fatal. O goleiro teima em querer saber mais do que artilheiro e atira-se, espichando-se todo. Mas na hora em que Fran\u00e7a bateu, a bola j\u00e1 tinha cruzado o \u00faltimo reduto da m\u00e3o do goleiro. J\u00e1 tinha passado, pois o chute de um artilheiro viaja na velocidade da luz. O goleiro fez bonito, atirou-se com tudo, para sempre. Mas a bola beijou o v\u00e9u da noiva, como dizia a cr\u00f4nica esportiva daqueles tempos em que havia inf\u00e2ncia. A comemora\u00e7\u00e3o do gol foi reveladora. Fran\u00e7a imitou o passo em falso de um boneco de mola. Era sua maneira de comemorar. Dizia com isso: meu corpo surpreende, jamais voc\u00eas ir\u00e3o me pegar. Ele foi ent\u00e3o agarrado, abra\u00e7ado, sufocado pelos seus companheiros. A sorte \u00e9 que existe replay. Foi no replay que vi Fran\u00e7a chutar em gol, depois que ele j\u00e1 tinha feito o servi\u00e7o. Vi apenas uma imagem de uma representa\u00e7\u00e3o, o repeteco de algo \u00fanico. O replay foi feito para aplacar a curiosidade dos distra\u00eddos, os que desistem de ver o jogo antes que este chegue ao esplendor. Quando houve o gol, nessa vit\u00f3ria contra o Real Madrid na ter\u00e7a-feira, que tinha fen\u00f4menos saindo pelo ladr\u00e3o, e Fran\u00e7a saiu pisando em falso como um moleque de rua de antigamente, e todos abra\u00e7avam o brasileiro que reinventou a dan\u00e7a do pneu usado, eu j\u00e1 estava fisgado pela m\u00e1gica que caiu sobre a tarde. Todos viram o que eu vi. Mas s\u00f3 as palavras poder\u00e3o resgatar o que o lance encerra na sua misteriosa performance de realidade invis\u00edvel. Foi um gol que estilha\u00e7ou a vidra\u00e7a do dia, provocando algazarra geral na vizinhan\u00e7a e nos lembrando o quanto podemos ser maiores quando somos apenas a mesma coisa de sempre: humana fantasia, prisioneira no tempo eterno e perec\u00edvel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A bola veio do canto do campo, numa altura m\u00ednima, como se fosse a roda de um trem que rola sobre trilhos supercondutores, aquele que n\u00e3o faz fric\u00e7\u00e3o quando anda. 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