{"id":2114,"date":"2010-06-01T19:54:43","date_gmt":"2010-06-01T22:54:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2114"},"modified":"2010-06-01T19:54:43","modified_gmt":"2010-06-01T22:54:43","slug":"caligrafia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/caligrafia","title":{"rendered":"CALIGRAFIA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><\/p>\n<p>Escrever sem ajuda do teclado \u00e9 uma arte que foi reduzida \u00e0 assinatura do nome \u2013 com o perigo de sumir por completo por obra das senhas. Mas um dia foi mat\u00e9ria obrigat\u00f3ria no Prim\u00e1rio. Cadernos caprichados com extensos exerc\u00edcios modelavam as letras, desenhadas como se fossem p\u00f3rticos barrocos. Era um instrumento para aquela vida tomada pelos cadernos, relat\u00f3rios, cartas, tudo feito s\u00f3 com a for\u00e7a dos dedos e o apoio dos punhos.<\/p>\n<p>Passar a limpo era uma das atividades mais nobres. Primeiro, fazia-se o rascunho (parece que algo sobreviveu hoje nas reda\u00e7\u00f5es para os vestibulares), normalmente a l\u00e1pis. Depois, passava-se a caneta por cima e a borracha para apagar os rastros da grafite. Pode parecer estranho que a palavra grafite apare\u00e7a assim no selecionado dos assuntos mais candentes. Imperador seria mais plaus\u00edvel, lembra as velhas ilustra\u00e7\u00f5es sobre Roma nos livros do gin\u00e1sio. Mas houve \u00e9poca em que viv\u00edamos desbastando a madeira dos l\u00e1pis para afinar a grafite, de onde sa\u00edam os rabiscos da nossa febril vida estudantil.<\/p>\n<p>\u00c9 que a datilografia, ocupa\u00e7\u00e3o paralela assumida apenas por secret\u00e1rias, ainda n\u00e3o tinha tomado o poder. Existiam (talvez ainda existam) escolas que ensinavam a batucar nas pretinhas, como se falava nas antigas reda\u00e7\u00f5es. Era preciso aprender a usar todos os dedos para n\u00e3o catar milho, considerado o horror da t\u00e9cnica profissional do bem escrever. Cheguei a freq\u00fcentar algumas aulas, mas acabei me aprimorando na convoca\u00e7\u00e3o unilateral de poucos craques, que sempre acertam as letras, e aos quais j\u00e1 estou acostumado.<\/p>\n<p>Prefiro ficar com o Indicador e o Pai de Todos e deixar de lado o Anular e o Mindinho, tidos como portentos por todas as plat\u00e9ias. N\u00e3o me deixo levar pela opini\u00e3o dos especialistas, que insistem com outras op\u00e7\u00f5es. Se eu fosse atender todas as pondera\u00e7\u00f5es e exig\u00eancias, n\u00e3o escreveria mais nada. Teria at\u00e9 de ficar restrito ao Polegar, desde que esse emergisse subitamente com algum talento no campeonato das frases e textos.<\/p>\n<p>Acho que estou preparado para grandes certames, usando os jogadores que me deram tantas alegrias. O que me constrange \u00e9 ler o que dizem. Se eu vencer, ser\u00e1 pura sorte, pois n\u00e3o convoquei as maravilhas apontadas por todos. E se eu perder, que desapare\u00e7a e nunca mais tente sequer teclar um convite de anivers\u00e1rio, pois ficar\u00e1 provado que n\u00e3o nasci para isso.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada no dia 18 de maio de 2010, no caderno Variedades, do Di\u00e1rio Catarinense.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Escrever sem ajuda do teclado \u00e9 uma arte que foi reduzida \u00e0 assinatura do nome \u2013 com o perigo de sumir por completo por obra das senhas. Mas um dia foi mat\u00e9ria obrigat\u00f3ria no Prim\u00e1rio. Cadernos caprichados com extensos exerc\u00edcios modelavam as letras, desenhadas como se fossem p\u00f3rticos barrocos. 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