{"id":2117,"date":"2010-06-01T19:56:53","date_gmt":"2010-06-01T22:56:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2117"},"modified":"2010-06-01T19:56:53","modified_gmt":"2010-06-01T22:56:53","slug":"so-o-que-importa-e-a-linguagem","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/so-o-que-importa-e-a-linguagem","title":{"rendered":"S\u00d3 O QUE IMPORTA \u00c9 A LINGUAGEM"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Vivemos na Era do Conte\u00fado, tamb\u00e9m chamada de Era do Conhecimento, ou seja, com o foco errado. Essa abordagem joga no lixo um s\u00e9culo de estudos sobre a linguagem. A coisa em si, para usar uma express\u00e3o popular emprestada da filosofia, n\u00e3o \u00e9 o chamado conte\u00fado, o tema, a informa\u00e7\u00e3o contida por tr\u00e1s do biombo das palavras. Mas sim a pr\u00f3pria linguagem. A palavra, o frame, a imagem, o objeto \u00e9 o que se trata. N\u00e3o adianta, portanto, voc\u00ea transbordar de afeto, amor pelo pr\u00f3ximo se usar a muleta \u201cum beijo no cora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A frase diz tudo sobre voc\u00ea. Sua forma\u00e7\u00e3o \u00e9 tosca, sua percep\u00e7\u00e3o limitada, seu conhecimento espiritual \u00e9 zero. Por mais que os italianos precisem ser celebrados e considerados, voc\u00ea p\u00f5e tudo a perder se usar o jarg\u00e3o \u201cum bom italiano\u201d, pois o excesso de uso e a limita\u00e7\u00e3o do insight colocam d\u00favidas sobre o significado de \u201cbom\u201d nesse caso. Assim como um \u201cbom\u201d vinho. Por mais que admiremos vinhos e italianos, a linguagem usada joga fora toda essa considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos coment\u00e1rios sobre filmes e livros, \u00e9 comum, nas conversas informais, se enredar exatamente na linguagem. A pessoa ficou arrebatada pelo que leu ou viu, mas acaba caindo no jarg\u00e3o \u201cfora de s\u00e9rie\u201d, ou no \u201cgostei muito\u201d ou ainda, querendo parecer t\u00e9cnica, comenta a-fo-to-gra-fia. \u00c9 complicado migrar a linguagem do cinema ou da literatura para a do coment\u00e1rio, resenha, ensaio. Um livro precisa ser visto pelo que \u00e9: palavras num ambiente impresso ou eletr\u00f4nico. E um filme tamb\u00e9m: imagens, sons e palavras. Nada fora disso. N\u00e3o existe conte\u00fado, mensagem. Existe linguagem. Nela est\u00e1 o truque, o segredo.<\/p>\n<p>Um blockbuster que queira incensar o papel da CIA usa todos os artif\u00edcios para dizer como os espi\u00f5es americanos cuidam da paz e da democracia no resto do mundo e para isso tocam fogo logo no puteiro. Se voc\u00ea enxergar o conte\u00fado, a mensagem, ver\u00e1 que os caras s\u00e3o \u00e9ticos, corajosos, comedores de tailandesas etc. Mas se prestar aten\u00e7\u00e3o na linguagem, decifrar\u00e1 todo o c\u00f3digo de sacanagens embutido na obra. Ent\u00e3o os poderes tentam desviar o foco da linguagem para o conte\u00fado, onde eles dominam.<\/p>\n<p>Note que n\u00e3o existe nada mais \u00e9tico, perfeito, moderado, civilizado e coisinha fofa do papai do que o poder. Veja como se vestem, seus gestos, a maneira como falam. Eles procuram projetar nesse conjunto de sinais tudo o que pregam. Mas se voc\u00ea usar o mesmo recurso, olhar para a linguagem usada, ver\u00e1 como s\u00e3o falsos, cretinos, criminosos, perigosos, anti-humanos. Ningu\u00e9m engana o olho cl\u00ednico treinado para enxergar o conjunto enigm\u00e1tico de linguagens cifradas ocultas sob um palimpsesto de luxo. Coloque contra luz e perto do fogo o objeto de estudo, como no conto c\u00e9lebre de Edgar Allan Poe. Ali est\u00e1 o que \u00e9 realmente dito, e n\u00e3o o texto aparente, o \u201cconte\u00fado\u201d, o \u201cconhecimento\u201d.<\/p>\n<p>Isso tudo gera uma enorme solid\u00e3o. Voc\u00ea tenta desviar o foco para o que interessa, a linguagem, e as pessoas insistem em querer debater conte\u00fado. &#8220;Mas o que voc\u00ea tem contra os italianos ou os vinhos?&#8221; perguntou algu\u00e9m no Twitter, cheio de zes e ts no nome. Nada. Minha abordagem \u00e9 a linguagem, o uso do jarg\u00e3o bom, e n\u00e3o o \u201csangue\u201d. Por mim, gosto de tudo da It\u00e1lia, dos pintores cl\u00e1ssicos aos grandes cineastas. E venho de uma fam\u00edlia Molinari, portanto&#8230;Mas n\u00e3o me convidem para conhecer um bom italiano e tomar um bom vinho. Vou chiar.<\/p>\n<p>Por um tempo o foco estava certo, nos \u00e1ureos anos de \u201co meio \u00e9 a mensagem\u201d, de Marshall McLuhan, que vinha na esteira de grandes estudiosos, de Saussurre a L\u00e9vi-Strauss. Mas a\u00ed o excesso dessa abordagem acabou cansando. Triunfou a soberba, a pose. Isso tamb\u00e9m foi usado politicamente, pois enquanto todos ficavam prestando aten\u00e7\u00e3o nos signos, o pau corria solto e de maneira expl\u00edcita nas ruas. A desmoraliza\u00e7\u00e3o do excesso acabou desaguando no est\u00e1gio em que nos encontramos, o do beijo no cora\u00e7\u00e3o e da celebra\u00e7\u00e3o da Pax Americana no resto do mundo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, n\u00e3o tem sa\u00edda? Tem. \u00c9 preciso produzir pensamento de combate, pontual, para usar no front. Desmascarar os produtos da ind\u00fastria do espet\u00e1culo, gerar auto-consci\u00eancia, saber do que se trata. Nem precisa erudi\u00e7\u00e3o ou capital simb\u00f3lico. Basta saber que existe esse segredo e ficar mais focado no que realmente interessa. S\u00f3 o que importa \u00e9 a linguagem. Nela reside todo o potencial de mudan\u00e7a necess\u00e1ria. Se pudermos agir para transformar a linguagem (e n\u00e3o falo em vanguardismos) teremos uma chance. Nada mais atual e necess\u00e1rio, quando estamos em plena campanha pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Ou voc\u00ea acha que candidato \u00e9 o qu\u00ea, sen\u00e3o apenas linguagem?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Vivemos na Era do Conte\u00fado, tamb\u00e9m chamada de Era do Conhecimento, ou seja, com o foco errado. Essa abordagem joga no lixo um s\u00e9culo de estudos sobre a linguagem. 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