{"id":213,"date":"2005-05-28T23:09:17","date_gmt":"2005-05-29T01:09:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=213"},"modified":"2009-12-20T21:05:44","modified_gmt":"2009-12-20T23:05:44","slug":"os-escritores-que-a-ditadura-produz","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/os-escritores-que-a-ditadura-produz","title":{"rendered":"OS ESCRITORES QUE A DITADURA PRODUZ"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Para que o pa\u00eds continue sendo saqueado, a linguagem precisa se deslocar da nacionalidade, portanto, do sentido. Esse \u00e9 o papel da literatura que se consolida a partir da chamada globaliza\u00e7\u00e3o, ou da entrega do Brasil aos estrangeiros. Insurgir-se contra isso \u00e9 ser acusado de patrioteiro, xen\u00f3fobo e reacion\u00e1rio. Essa \u00e9 a grande armadilha dos escritores not\u00f3rios, que empalmam vastos espa\u00e7os na m\u00eddia (latif\u00fandios de divulga\u00e7\u00e3o, fruto da concentra\u00e7\u00e3o de renda): como tornaram-se uma contrafa\u00e7\u00e3o da vanguarda, sentem-se \u00e0 vontade para exercer a exclus\u00e3o que os compromete at\u00e9 o osso e os enche de dinheiro. Escrever \u00e9 mentir e tirar a m\u00e1scara \u00e9 assumir personagens vazios de realidade. Esse pesadelo \u00e9 justificado pela cr\u00edtica comprometida com o c\u00edrculo vicioso da linguagem artificial, que se alimenta tamb\u00e9m do artificialismo acad\u00eamico, que reproduz indefinidamente as mesmas teorias pretensamente radicais e que no fundo n\u00e3o passam de \u00e1libis para manter os escritores de verdade no ostracismo.<\/p>\n<p><strong>SOBERANIA<\/strong> &#8211; O que s\u00e3o escritores de verdade? Os que n\u00e3o se deixam levar pelos modismos e escrevem com o esp\u00edrito livre. Os mais radicais inovadores da linguagem, os que n\u00e3o fazem parte dessa curriola que se retroalimenta sem parar, compartilham desse ostracismo. O que d\u00e1 dinheiro \u00e9 cortejar a falta de escr\u00fapulos dos pseudo-escritores, que fizeram do joguinho de palavras um saco aparentemente sem fundos. A pseudo-vanguarda hoje vitoriosa em todas as m\u00eddias nada tem a ver com a intensifica\u00e7\u00e3o e o aprofundamento experimental e te\u00f3rico que gerou, na m\u00fasica, a bossa nova, e na literatura a poesia praxis e o concretismo. Mas o que foi intenso e realmente transformador serve de insumo dessas vanguardinhas de araque que tomam conta dos cadernos culturais e ainda se d\u00e3o o luxo de se acharem marginalizados e perseguidos. \u00c9 tudo mentira, claro. A falsidade \u00e9 tamanha que, al\u00e9m de tomar conta da cultura oficial (a bem remunerada pelo dinheiro p\u00fablico) ainda conservam as paran\u00f3ias das persegui\u00e7\u00f5es de gera\u00e7\u00f5es anteriores.<\/p>\n<p><strong>LUTA<\/strong> &#8211; A falsa literatura (que sobra em exemplos por toda parte) \u00e9 essa que te tira tempo e em nada te retribui. Que te deixa vazio, irritado. E que n\u00e3o passa de um conjunto de poesias p\u00edfias e romancezinhos de araque, tudo fruto do desespero individualista que tomou conta da ex-na\u00e7\u00e3o, hoje um amontoado de indiv\u00edduos. Esse ambiente n\u00e3o aborda mais os princ\u00edpios \u00e9ticos, tornados vil\u00f5es ou meras excresc\u00eancias obsoletas; n\u00e3o cuidam da fam\u00edlia, extinta em favor da celebra\u00e7\u00e3o do Mesmo e sua tempestade l\u00fadica desconectada do destino, da eternidade ou da alegria. \u00c9 um ambiente sinistro e soturno, o dessas palavras que invadem todos os espa\u00e7os, deixando de lado os valores que n\u00e3o possuem incentivo para proliferar. Quantas gavetas amarelam e v\u00e3o para o lixo, quantos escritores assassinam a pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o, desencantados com tanto horror, com tantas luzes e holofotes sobre nulidades tornadas c\u00e9lebres. Vai ler esse cara t\u00e3o incensado, vai ver o que ele escreveu! \u00c9 o reino da baixaria, das palavras sem poder, de \u00e2ncoras que pegam teu pesco\u00e7o de leitor e te jogam para o fundo. E quanto mais escatol\u00f3gicos, mais f\u00f4fos nos seus olhares apertados, a sugerir reflex\u00e3o, suas carinhas de anjo, a sugerir juventude, a sua falta de escr\u00fapulos, a sugerir inova\u00e7\u00e3o. Cada um no seu espa\u00e7o, funcionam como vasos comunicantes da linguagem que serve \u00e0 ditadura civil, formada pelo arrocho financeiro, a exclus\u00e3o social e o voto de cartas marcadas.<\/p>\n<div id=\"_mcePaste\" style=\"overflow: hidden; position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px;\">\n<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Para que o pa\u00eds continue sendo saqueado, a linguagem precisa se deslocar da nacionalidade, portanto, do sentido. Esse \u00e9 o papel da literatura que se consolida a partir da chamada globaliza\u00e7\u00e3o, ou da entrega do Brasil aos estrangeiros. Insurgir-se contra isso \u00e9 ser acusado de patrioteiro, xen\u00f3fobo e reacion\u00e1rio. Essa \u00e9 a grande armadilha dos escritores not\u00f3rios, que empalmam vastos espa\u00e7os na m\u00eddia (latif\u00fandios de divulga\u00e7\u00e3o, fruto da concentra\u00e7\u00e3o de renda): como tornaram-se uma contrafa\u00e7\u00e3o da vanguarda, sentem-se \u00e0 vontade para exercer a exclus\u00e3o que os compromete at\u00e9 o osso e os enche de dinheiro. Escrever \u00e9 mentir e tirar a m\u00e1scara \u00e9 assumir personagens vazios de realidade. Esse pesadelo \u00e9 justificado pela cr\u00edtica comprometida com o c\u00edrculo vicioso da linguagem artificial, que se alimenta tamb\u00e9m do artificialismo acad\u00eamico, que reproduz indefinidamente as mesmas teorias pretensamente radicais e que no fundo n\u00e3o passam de \u00e1libis para manter os escritores de verdade no ostracismo.<\/p>\n<p><strong>SOBERANIA<\/strong> &#8211; O que s\u00e3o escritores de verdade? Os que n\u00e3o se deixam levar pelos modismos e escrevem com o esp\u00edrito livre. Os mais radicais inovadores da linguagem, os que n\u00e3o fazem parte dessa curriola que se retroalimenta sem parar, compartilham desse ostracismo. O que d\u00e1 dinheiro \u00e9 cortejar a falta de escr\u00fapulos dos pseudo-escritores, que fizeram do joguinho de palavras um saco aparentemente sem fundos. A pseudo-vanguarda hoje vitoriosa em todas as m\u00eddias nada tem a ver com a intensifica\u00e7\u00e3o e o aprofundamento experimental e te\u00f3rico que gerou, na m\u00fasica, a bossa nova, e na literatura a poesia praxis e o concretismo. Mas o que foi intenso e realmente transformador serve de insumo dessas vanguardinhas de araque que tomam conta dos cadernos culturais e ainda se d\u00e3o o luxo de se acharem marginalizados e perseguidos. \u00c9 tudo mentira, claro. A falsidade \u00e9 tamanha que, al\u00e9m de tomar conta da cultura oficial (a bem remunerada pelo dinheiro p\u00fablico) ainda conservam as paran\u00f3ias das persegui\u00e7\u00f5es de gera\u00e7\u00f5es anteriores.<\/p>\n<p><strong>LUTA<\/strong> &#8211; A falsa literatura (que sobra em exemplos por toda parte) \u00e9 essa que te tira tempo e em nada te retribui. Que te deixa vazio, irritado. E que n\u00e3o passa de um conjunto de poesias p\u00edfias e romancezinhos de araque, tudo fruto do desespero individualista que tomou conta da ex-na\u00e7\u00e3o, hoje um amontoado de indiv\u00edduos. Esse ambiente n\u00e3o aborda mais os princ\u00edpios \u00e9ticos, tornados vil\u00f5es ou meras excresc\u00eancias obsoletas; n\u00e3o cuidam da fam\u00edlia, extinta em favor da celebra\u00e7\u00e3o do Mesmo e sua tempestade l\u00fadica desconectada do destino, da eternidade ou da alegria. \u00c9 um ambiente sinistro e soturno, o dessas palavras que invadem todos os espa\u00e7os, deixando de lado os valores que n\u00e3o possuem incentivo para proliferar. Quantas gavetas amarelam e v\u00e3o para o lixo, quantos escritores assassinam a pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o, desencantados com tanto horror, com tantas luzes e holofotes sobre nulidades tornadas c\u00e9lebres. Vai ler esse cara t\u00e3o incensado, vai ver o que ele escreveu! \u00c9 o reino da baixaria, das palavras sem poder, de \u00e2ncoras que pegam teu pesco\u00e7o de leitor e te jogam para o fundo. E quanto mais escatol\u00f3gicos, mais f\u00f4fos nos seus olhares apertados, a sugerir reflex\u00e3o, suas carinhas de anjo, a sugerir juventude, a sua falta de escr\u00fapulos, a sugerir inova\u00e7\u00e3o. Cada um no seu espa\u00e7o, funcionam como vasos comunicantes da linguagem que serve \u00e0 ditadura civil, formada pelo arrocho financeiro, a exclus\u00e3o social e o voto de cartas marcadas.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para que o pa\u00eds continue sendo saqueado, a linguagem precisa se deslocar da nacionalidade, portanto, do sentido. 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