{"id":215,"date":"2005-05-28T23:11:03","date_gmt":"2005-05-29T01:11:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/o-passo-a-mais-da-passara"},"modified":"2009-12-21T20:04:13","modified_gmt":"2009-12-21T22:04:13","slug":"o-passo-a-mais-da-passara","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-passo-a-mais-da-passara","title":{"rendered":"O PASSO A MAIS DA P\u00c1SSARA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Nenhuma palavra te serve de consolo, Daiane, j\u00e1 que n\u00e3o conseguiste a medalha que justificaria todo o teu esfor\u00e7o. Mas eu n\u00e3o poderia deixar de dar meu testemunho. Vi como esse falso jornalismo de comportamento (que desvirtua uma inven\u00e7\u00e3o antiga, a materinha humana) te extraiu at\u00e9 o \u00faltimo choro e como os urubus voltearam tua dan\u00e7a farejando ouro. S\u00f3 que n\u00e3o tinhas uma vit\u00f3ria ol\u00edmpica para oferecer, Daiane, pois o quinto lugar n\u00e3o sobe ao p\u00f3dio. Tinhas muito mais, mas disso n\u00e3o cuidaram, porque as aten\u00e7\u00f5es est\u00e3o focadas no que n\u00e3o interessa, no que \u00e9 sabido at\u00e9 o osso. Jamais atentam para o que vale realmente, o que nunca foi feito, o que \u00e9 inven\u00e7\u00e3o pura, marca registrada da civiliza\u00e7\u00e3o a qual pertences, a qual todos dever\u00edamos pertencer, a civiliza\u00e7\u00e3o do Brasil soberano.<\/p>\n<p><strong>IMPULSO<\/strong> -Homenageaste Waldir Azevedo e seu cl\u00e1ssico Brasileirinho, Daiane, para provar o quanto est\u00e1s mergulhada nas ra\u00edzes que te formaram, no teu povo sem m\u00e1scara, na tua voca\u00e7\u00e3o para o v\u00f4o. Porque todas as outras saltam, Daiane, fazem piruetas, cumprem o regulamento, s\u00e3o perfeitas nas cambalhotas, na queda, nos gestos, no timing. S\u00f3 tu, pequena p\u00e1ssara, voa de verdade. E porque voas tentaste o desenho mais ousado. E porque voas deslumbras especialistas que n\u00e3o entendem como o peso do teu corpo some quando te despedes do solo. \u00c9 que eles n\u00e3o entendem a vontade que temos de voar.<\/p>\n<p>Homem voa? perguntavam para Santos Dumont menino. Voa, respondia e por isso era alvo das vaias dos outros. Ele descobriu que dever\u00edamos imitar os p\u00e1ssaros n\u00e3o pelo que vemos neles, mas pelo que nos ensinam. Pois aquele brasileiro descobriu que o segredo estava n\u00e3o nas asas m\u00f3veis, pois nisso todos erravam: at\u00e9 \u00cdcaro bateu asas e estatelou-se no ch\u00e3o. O segredo estava no impulso que as asas, com seu arco, sua leveza, sua forma de tri\u00e2ngulo, recebiam. E de o\u00adnde vinha esse impulso? Do pr\u00f3prio movimento que as asas faziam para impulsionar o v\u00f4o. Foi ent\u00e3o que Dumont teve a id\u00e9ia de colocar um motor de autom\u00f3vel para jogar a nave para a frente, mantendo as asas com suas formas fixas, j\u00e1 que eram duas coisas completamente diferentes que se completavam (e jamais deveriam ser confundidas numa coisa s\u00f3), o impulso e o arco, o motor e o salto.<\/p>\n<p>Hoje parece simples, mas foi preciso um cidad\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o brasileira para entender isso. Tu tamb\u00e9m, Daiane, foste hoje para o tablado n\u00e3o para obedecer aos \u00e1rbitros, mas para voar. J\u00e1 tinhas feito a cabe\u00e7a do teu anjo da guarda, que pulou junto contigo.<\/p>\n<p><strong>POESIA <\/strong>-O impulso foi t\u00e3o grande, t\u00e3o ansioso por se mostrar, que no final deste um passo para frente para reequipar teu equil\u00edbrio. Para quem tem voca\u00e7\u00e3o para o v\u00f4o, para que servem linhas retas delimitando espa\u00e7os, a n\u00e3o ser para eliminar a surpresa? Foi essa gana, essa vontade de mostrar tua inven\u00e7\u00e3o, que te jogou um metro a mais do que deverias, pelo regulamento, ficar. Depois, foi a consci\u00eancia desse passo, doce p\u00e1ssara, que te deixou prostrada, a dar explica\u00e7\u00f5es para as c\u00e2maras famintas que te perseguiam para extrair o \u00faltimo suspiro da tua inven\u00e7\u00e3o, o v\u00f4o perfeito que precisa de um passo a mais para definir o reequil\u00edbrio.<\/p>\n<p>Nesse instante, Daiane, s\u00f3 a poesia pode te acolher de verdade. N\u00e3o a poesia vaidosa dos reiventores da roda, a poesia que recolhe dinheiro com o chap\u00e9u da notoriedade, a poesia da exclus\u00e3o que nos ronda como um c\u00e3o raivoso. Mas a poesia de verdade, aquele colo o\u00adnde repousa nossa humanidade e tudo de repente faz sentido. Essa poesia te abra\u00e7a e nela arrulhas teu desencanto enquanto n\u00f3s, os poetas, ficamos impressionados com o que nos revelaste sem nada dizer, apenas colocando em forma teu corpo cheio de grandeza e voando para a maioridade da tua vida.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a derrota que nos humaniza, Daiane, e nem mesmo a maior das vit\u00f3rias. O que realmente nos salva \u00e9 a certeza de que colocamos a vida no que inventamos, que colocamos toda a nossa coragem num \u00fanico e definitivo v\u00f4o. Esse pulo sobre o abismo da cria\u00e7\u00e3o infinita \u00e9 que nos enche de gra\u00e7a. E \u00e9 com essa gra\u00e7a que cruzamos o tempo que nos deram para viver sobre a terra. Voei contigo, hoje, Daiane. Porque me ensinaste a voar e nenhum ouro pagar\u00e1 jamais essa li\u00e7\u00e3o majestosa que uma menina pode ensinar a um veterano, que procura ter os olhos livres para encontrar a poesia, o\u00adnde ela estiver.<\/p>\n<p><em>(Texto publicado no Di\u00e1rio da Fonte, a 23 de agosto de 2003, na \u00e9poca das Olimp\u00edadas)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O impulso foi t\u00e3o grande, t\u00e3o ansioso por se mostrar, que no final deste um passo para frente para reequipar teu equil\u00edbrio. 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