{"id":216,"date":"2005-05-28T23:12:30","date_gmt":"2005-05-29T01:12:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=216"},"modified":"2009-12-20T23:45:37","modified_gmt":"2009-12-21T01:45:37","slug":"quando-a-patria-fazia-sentido","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/quando-a-patria-fazia-sentido","title":{"rendered":"QUANDO A P\u00c1TRIA FAZIA SENTIDO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Naquele tempo, \u00e9ramos crian\u00e7as apenas para nossas m\u00e3es. Para nossos pais, \u00e9ramos homens. Eu vestia uma avental branco, com um enorme tope azul no pesco\u00e7o, cal\u00e7a curta, meia branca e sapato preto. Esse era o uniforme de quem ainda estava no jardim da inf\u00e2ncia. N\u00e3o cham\u00e1vamos nossa professora de tia, cham\u00e1vamos nossas tias de tia. As palavras ocupavam um lugar seguro, assim como nosso lugar na fila. Form\u00e1vamos para marchar na majestosa avenida Presidente Vargas, que se espraiava por um longo trajeto, toda embandeirada, com um obelisco pontificando bem no meio dela e ao som das marchas militares. Nosso cora\u00e7\u00e3ozinho batia apressado.<\/p>\n<p><strong>AMOR<\/strong> &#8211; A grande emo\u00e7\u00e3o n\u00e3o era a P\u00e1tria, n\u00e3o era marchar, n\u00e3o era olhar para a bandeira. N\u00e3o est\u00e1vamos numa cena do patriotismo oficial. Nossa grande emo\u00e7\u00e3o, vestindo aquele avental branco lavado, passado, engomado, que fazia um arco ao nosso redor, n\u00e3o era marchar com nossos pezinhos pequenos batendo firme no asfalto e fazendo movimento com os bra\u00e7os dobrados, r\u00edgidos, imitando o gesto c\u00edvico das paradas de soldadinhos em movimento. Nada disso nos emocionava realmente, pois como nascemos numa p\u00e1tria soberana, isso era assunto para os mais velhos.<\/p>\n<p>A grande emo\u00e7\u00e3o era saber que minha m\u00e3e estava no meio do povo, levantando a cabe\u00e7a para me ver, sorrindo o sorriso orgulhoso das m\u00e3es, abanando para n\u00f3s que n\u00e3o pod\u00edamos abanar de volta, pois est\u00e1vamos compenetrados demais. Essa era a festa c\u00edvica: ficar compenetrado diante de uma m\u00e3e que expunha publicamente o seu grande amor por n\u00f3s. S\u00f3 ent\u00e3o a p\u00e1tria fazia sentido.<\/p>\n<p><strong>CENA<\/strong> &#8211; Agora compreendo inteiramente a cena favorita da minha inf\u00e2ncia, quando meu pai me levou, aos tr\u00eas anos de idade, para conhecer a casa nova que ele estava reformando para n\u00f3s morar. Ele n\u00e3o me pegou na m\u00e3o, pois eu sou um dos seus filhos homens. Ele abriu a porta do carro para eu entrar e l\u00e1 eu fiquei ao lado dele. Depois desceu comigo do autom\u00f3vel e visitamos a obra. Ele me mostrou todas as pe\u00e7as, comentando o trabalho dos oper\u00e1rios que se dependuravam em imensas, longu\u00edssimas escadas, que iam at\u00e9 o distante teto. Meu pai tornou-se maior, aos 18 anos, em plena revolu\u00e7\u00e3o de outubro de 1930. Casou aos 28 anos e fez sua vida na era Vargas inteirinha.<\/p>\n<p>Meu pai foi levado pelo exemplo do presidente Get\u00falio, que provou o quanto um homem podia fazer numa s\u00f3 vida. Os homens daquela \u00e9poca, antes de Get\u00falio, estavam confinados a um destino mesquinho. Meu pai nasceu pobre e trabalhou desde crian\u00e7a para sobreviver. Mas fez sua vida porque soube ousar. N\u00e3o limitou-se ao emprego p\u00fablico, t\u00e3o seguro, que segurou minha m\u00e3e at\u00e9 a a aposentadoria. Conheceram-se numa reparti\u00e7\u00e3o e de l\u00e1 formaram uma fam\u00edlia. Os dois, lindos na sua juventude sem par, posaram para a eternidade aquela felicidade deslumbrante e serena. Meu pai palmilhou o pa\u00eds com seus sapatos branco e marrom, seu terno de linho branco, seu chap\u00e9u de feltro com borda desabada. Viveu no pa\u00eds que Get\u00falio reinventou. Era um cidad\u00e3o que foi chamado \u00e0 sua responsabilidade, assim como eu, na primeira inf\u00e2ncia, fui convocado para conhecer e aprovar a casa (o pa\u00eds em obras!) o\u00adnde ir\u00edamos morar. Fui convocado para o que chamam hoje de cidadania.<\/p>\n<p>Quando sa\u00ed daquela visita, eu n\u00e3o era apenas o filho mimado da minha m\u00e3e. Eu j\u00e1 era um homem, pronto para mudar de vida, sob a prote\u00e7\u00e3o do pai no pa\u00eds soberano do presidente eleito (est\u00e1vamos em 1951), Get\u00falio Vargas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nossa grande emo\u00e7\u00e3o, vestindo aquele avental branco lavado, passado, engomado, que fazia um arco ao nosso redor, n\u00e3o era marchar com nossos pezinhos pequenos batendo firme no asfalto e fazendo movimento com os bra\u00e7os dobrados, r\u00edgidos, imitando o gesto c\u00edvico das paradas de soldadinhos em movimento.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[11],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/216"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=216"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/216\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1487,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/216\/revisions\/1487"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=216"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=216"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=216"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}