{"id":2166,"date":"2010-07-09T17:47:00","date_gmt":"2010-07-09T20:47:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2166"},"modified":"2010-07-09T17:47:00","modified_gmt":"2010-07-09T20:47:00","slug":"off-side-a-elipse-em-jafar-panahi","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/off-side-a-elipse-em-jafar-panahi","title":{"rendered":"OFF SIDE, A ELIPSE EM JAFAR PANAHI"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Elipse \u00e9 um recurso cinematogr\u00e1fico em que a a\u00e7\u00e3o oculta \u00e9 sugerida pelo que vemos na tela. Em <strong>Off Side<\/strong>, de <strong>Jafar Panahi<\/strong>, filme ganhador do Urso de Prata no Festival de Berlim em 2006, essa a\u00e7\u00e3o oculta \u00e9 o jogo decisivo entre Ir\u00e3 e Bahrein pelas eliminat\u00f3rias para a Copa da Alemanha, que seria realizada naquele ano . O que vemos na tela \u00e9 um grupo de mulheres tentando entrar no est\u00e1dio, sendo detidas e acompanhando os lances numa longa trajet\u00f3ria at\u00e9 a pris\u00e3o, que afinal n\u00e3o acontece porque a explos\u00e3o popular de alegria pela classifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa.<\/p>\n<p>O filme, dirigido pelo cineasta que foi preso pelo ditador do Ir\u00e3, amic\u00edssimo do governo brasileiro, e que foi solto depois de pagar 160 mil euros, \u00e9 um primor e jamais ser\u00e1 exibido nas televis\u00f5es brasileiras, mais preocupados em imbecilizar a popula\u00e7\u00e3o com blockbusters e produ\u00e7\u00f5es americanas de quinta categoria. Quem acompanha futebol sabe o que significa off side, o impedimento de quem fica sozinho atr\u00e1s da linha de zagueiros advers\u00e1rios esperando a bola para fazer um gol covarde. Foi o que aconteceu na copa da \u00c1frica do Sul, com Tosco Tevez, o bobalh\u00e3o argentino, que estava no off side mas ganhou o aval da arbitragem corrupta da Fifa no jogo contra os mexicanos, que ainda v\u00e3o pegar todos eles \u201cna sa\u00edda\u201d, como se dizia nos tempos do col\u00e9gio.<\/p>\n<p>Pois as mulheres do Ir\u00e3 est\u00e3o impedidas de ver o jogo porque s\u00e3o mulheres e devem ser preservadas dos insultos e poss\u00edveis estupros na companhia de dezenas de milhares de homens, conforme suspeita a moral da ditadura iraniana. Mas elas tentam driblar a fiscaliza\u00e7\u00e3o e acabam todas num redil, guardadas por um soldado bronco vindo do interior e que cumpre compulsoriamente o servi\u00e7o militar, louco de medo de cometer alguma transgress\u00e3o e ter de ficar para sempre vestindo a farda, sem poder voltar para cuidar do seu gado e de sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O cinema iraniano segue os protagonistas e d\u00e1 voz a seus di\u00e1logos de maneira ininterrupta, como vemos em outros cineastas desse pa\u00eds, como o festejado Abas Kiarostami, entre outros. Dizem que \u00e9 pelos poucos recursos, mas n\u00e3o acredito que seja s\u00f3 por isso. Edi\u00e7\u00e3o, com os recursos atuais, \u00e9 f\u00e1cil de fazer e n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o caro como antes. O que h\u00e1 \u00e9 sinceridade, vontade de cumprir \u00e0 risca a m\u00e1xima de Godard, de que o cinema \u00e9 a verdade 24 vezes por segundo (conceito tirado da \u00e9poca do celul\u00f3ide). Panahi filma em tempo real a saga das garotas para ver seus \u00eddolos do futebol (algumas tamb\u00e9m jogam) e torcer pelo seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>O sentimento de perten\u00e7a, que aqui no Brasil explode nas vit\u00f3rias e implode nas derrotas, \u00e9 trabalhado neste filme com amor e respeito. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas sobre a legitimidade desse sentimento, desse patriotismo expl\u00edcito, que \u00e9 representado pela multid\u00e3o indo para o est\u00e1dio e depois saindo para festejar e dan\u00e7ar. A comemora\u00e7\u00e3o inclusive serve para libertar as prisioneiras de dentro da van que as levava para o c\u00e1rcere. Met\u00e1fora da liberdade sendo gerada pela festa da nacionalidade, pela alegria de fazer parte de um pa\u00eds. Terra adorada, salve salve: aqui virou deboche, l\u00e1 \u00e9 luta a favor da popula\u00e7\u00e3o e contra a ditadura que enche o saco do mundo com o aval do governo brasileiro.<\/p>\n<p>Panhi estava impedido, preso, porque foi acusado de fazer um filme sobre a corrup\u00e7\u00e3o eleitoral no Ir\u00e3, evento tr\u00e1gico com protestos de muitos mortos e cenas tremendas de viol\u00eancia e repress\u00e3o. O jogo decisivo, no filme, estava impedido de ser visto e alguns dos seus lances faiscavam por entre as grades, na tela da televis\u00e3o do bar vislumbrado da van, pelo r\u00e1dio com antena defeituosa. Os soldados estavam impedidos de deixarem as prisioneiras escapar. Tudo estava contra o cinema: a censura de imagens e de comportamento e a falta completa de di\u00e1logo com os poderes. Mas Panahi fez um filme magn\u00edfico com t\u00e3o poucos elementos.<\/p>\n<p>O final, em que a garota queima sete fogos em mem\u00f3rias dos torcedores mortos no passado num jogo entre Ir\u00e3 e Jap\u00e3o, ao som de m\u00fasica nacional do Ir\u00e3, provoca aquela emo\u00e7\u00e3o rara quando vemos uma grande obra. Estamos impedidos de termos um pa\u00eds decente porque os ditadores se abra\u00e7am e nos sufocam. Resta-nos a luta pela livre express\u00e3o, nesse ninho de cobras que s\u00e3o todos os tipos de m\u00eddias, em que o insulto substitui a raz\u00e3o e o deboche imp\u00f5e o obscurantismo at\u00e9 o \u00faltimo suspiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Elipse \u00e9 um recurso cinematogr\u00e1fico em que a a\u00e7\u00e3o oculta \u00e9 sugerida pelo que vemos na tela. 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