{"id":2174,"date":"2010-07-09T17:53:34","date_gmt":"2010-07-09T20:53:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2174"},"modified":"2010-07-09T17:53:34","modified_gmt":"2010-07-09T20:53:34","slug":"para-que-serve-a-escola","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/para-que-serve-a-escola","title":{"rendered":"PARA QUE SERVE A ESCOLA?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A escola serve para o ensino e aprendizado do uso da l\u00edngua, passaporte para o conhecimento em todas as outras mat\u00e9rias. Por isso o filme de <strong>Laurent Cantet, Entre les murs (Entre os muros da escola)<\/strong>, Palma de Ouro em Cannes em 2008, foca no professor de franc\u00eas e seu embate com alunos migrantes, fonte permanente de tens\u00e3o entre a autoridade e seus comandados, entre mestre e disc\u00edpulos, entre institui\u00e7\u00e3o e insurg\u00eancia, entre gram\u00e1tica e g\u00edria, entre nacionalidade europ\u00e9ia e etnias n\u00e3o caucasianas, entre argumento e xingamento, entre concentra\u00e7\u00e3o e dispers\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 um duelo numa arena que faz v\u00edtimas. No Brasil, a escola age nas popula\u00e7\u00f5es carentes por meio de uma a\u00e7\u00e3o perversa, submetendo as fam\u00edlias \u00e0 matr\u00edcula para o ganho de esmolas sociais, como a merenda. A sociedade da exclus\u00e3o mant\u00e9m assim o jugo dos despossu\u00eddos trocando um ensino prec\u00e1rio por comida, em vez de gerar oportunidades para que todos tenham uma vida decente. O ensino p\u00fablico, em muitos estabelecimentos, acaba sendo apenas o ponto de encontro entre alunos que fazem quest\u00e3o de n\u00e3o aprender e professores que desistiram de ensinar, por ser humanamente imposs\u00edvel enfrentar o jogo bruto da insurrei\u00e7\u00e3o permanente contra qualquer imposi\u00e7\u00e3o. A escola fica sendo o \u00fanico lugar onde as pessoas podem se manifestar e isso entope as aulas de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Na Fran\u00e7a, eles acham que tem problemas. Escola limpa, montes de professores, um sistema de acompanhamento e monitoramento baseado na disciplina e na l\u00f3gica, um esquema r\u00edgido, tradicional, mas temperado pela flexibilidade das pessoas envolvidas, todas idealistas e vocacionadas. Miss\u00e3o civilizat\u00f3ria de uma na\u00e7\u00e3o imperial com povos de outros continentes, disseram os cr\u00edticos. Vejo diferente. \u00c9 o repasse de par\u00e2metros para que os futuros adultos fiquem instrumentados, por meio do dom\u00ednio b\u00e1sico da l\u00edngua, para a vida plena num mundo hostil.<\/p>\n<p>Os migrantes precisam aprender a l\u00edngua. Os mais velhos n\u00e3o conseguem e no filme aparecem com seus dialetos e linguagens pr\u00f3prias, sendo traduzidos pelos filhos, os alunos, que por sua vez est\u00e3o num processo de transi\u00e7\u00e3o entre a oralidade excessiva e a l\u00edngua culta. \u201cNingu\u00e9m mais usa essa conjuga\u00e7\u00e3o de verbo\u201d, dizem os alunos. \u201cIsso \u00e9 coisa da Idade M\u00e9dia. \u201cPouca gente usa o imperfeito do indicativo\u201d, diz o professor, interpretado por Fran\u00e7ois B\u00e9gaudeau, que \u00e9 o autor do livro que originou o filme e co-autor do roteiro. \u201cQuem usa costuma ser esnobe, elitista, afetado. Mas \u00e9 preciso que voc\u00eas saibam que ele existe, saibam fazer a conjuga\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>O professor franc\u00eas, explica o diretor, \u00e9 o oposto dos her\u00f3is did\u00e1ticos do cinema americano, em que um mestre enfrenta a barra dos alunos e sai endeusado. Aqui, n\u00e3o. Fran\u00e7ois comete erros, como xingar alunas. Isso o enfraquece e quase coloca todo seu trabalho a perder. \u00c9 o risco que corre num ambiente pesado e cheio de contradi\u00e7\u00f5es, onde des\u00e1guam todos os conflitos e confrontos de um mundo em transforma\u00e7\u00e3o e em que a migra\u00e7\u00e3o \u00e9 uma pedra no sapato da direita. No fundo, os professores progressistas querem desmascarar a direita que exige o fechamento das fronteiras, expuls\u00e3o dos advent\u00edcios pobres, sob o argumento de que s\u00e3o inferiores e jamais v\u00e3o aprender algo ou contribuir para o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Quando um dos alunos rebeldes \u00e9 punido com a expuls\u00e3o, o professor sabe que ele ser\u00e1 levado de volta para \u00c1frica pelo seu rigoroso pai. N\u00e3o consegue impedir que haja a puni\u00e7\u00e3o. Isso abre uma ferida no filme, que fecha com um balan\u00e7o feito pelos alunos sobre o que aprenderam no ano letivo. O filme, excelente em todos os sentidos, \u00e9 um primor de t\u00e9cnica. Tem um planejamento r\u00edgido, um roteiro pr\u00e9-determinado, mas h\u00e1 abertura e flexibilidade para o improviso, um clima refor\u00e7ado pela contrata\u00e7\u00e3o de atores n\u00e3o profissionais. Fica parecendo document\u00e1rio, cinema verdade, mas \u00e9 fic\u00e7\u00e3o totalmente sintonizada com a realidade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a montagem obedece a um per\u00edodo completa de atividades escolares. H\u00e1 o principal, que \u00e9 o desenrolar da aula, cortado por intervalos significativos. H\u00e1 grande impacto com a solu\u00e7\u00e3o encontrada pelo diretor do filme, de fazer as tens\u00f5es se acumularem com o protagonista e seus alunos de franc\u00eas e a explos\u00e3o ocorrer com outro professor, que faz tabula rasa do corpo discente, dizendo que jamais v\u00e3o aprender algo e que ele desistiu de ensinar. Depois cai em si e o inconformado mestre \u00e9 convidado a tomar um pouco de ar.<\/p>\n<p>H\u00e1 um recado nisso: o trabalho \u00e9 pesado, complicado e perigoso, mas pode valer a pena se houver f\u00f4lego, par\u00e2metros, e decis\u00f5es acertadas. Tudo isso depende da l\u00f3gica, do dom\u00ednio da l\u00edngua nas reuni\u00f5es entre professores, entre pais e professores e nos encontros onde comparecem representantes dos alunos. Muitas vezes, Fran\u00e7ois fica mudo diante da argumenta\u00e7\u00e3o alheia, por mais que se esforce. S\u00e3o os limites do uso da l\u00edngua, que \u00e9 o foco deste filme excepcional, que jamais passa em TV aberta, porque \u00e9 muito melhor entupir a popula\u00e7\u00e3o de porcaria audiovisual e depois culp\u00e1-la de falta de gosto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s A escola serve para o ensino e aprendizado do uso da l\u00edngua, passaporte para o conhecimento em todas as outras mat\u00e9rias. 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