{"id":2177,"date":"2010-07-19T17:33:59","date_gmt":"2010-07-19T20:33:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2177"},"modified":"2010-07-19T17:33:59","modified_gmt":"2010-07-19T20:33:59","slug":"darin-em-%e2%80%9cla-senal%e2%80%9d-mulher-e-cinema","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/darin-em-%e2%80%9cla-senal%e2%80%9d-mulher-e-cinema","title":{"rendered":"DAR\u00cdN EM \u201cLA SE\u00d1AL\u201d: MULHER \u00c9 CINEMA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Implicaram com La Se\u00f1al (O Sinal, 2007), dirigido pelo Ricardo Dar\u00edn (em parceria com Martin Hodara), ator fundamental do cinema argentino contempor\u00e2neo, que brilha em v\u00e1rios filmes de Juan Jos\u00e9 Campanella. Considerado confuso em sua trama onde entram todos os elementos cl\u00e1ssicos do noir, o filme precisa ser visto, para ser entendido, na sua natureza, ou seja, uma obra sobre cinema. Se existem d\u00favidas sobre a validade desse enfoque que costura meus ensaios, neste n\u00e3o deve pairar nenhuma, pois em cada segundo est\u00e1 expl\u00edcito o foco narrativo: tudo aqui \u00e9 sobre a S\u00e9tima Arte.<\/p>\n<p>Nem precisaria dizer, pois est\u00e1 na cara dos atores, dividida pela linha de sombra entre claro e escuro, nos cen\u00e1rios, personagens, situa\u00e7\u00f5es, seq\u00fc\u00eancias, imagens, di\u00e1logos, que brotam diretamente daquele tipo de filme que era considerado de segunda categoria, por serem pobres na produ\u00e7\u00e3o em preto e branco e que viraram cult pela grandeza que atingiram, se transformando em momentos inesquec\u00edveis. Pode-se dizer que O Sinal \u00e9 o excesso dessa evid\u00eancia, desse resgate, dessa mem\u00f3ria cinematogr\u00e1fica em tempos bicudos, pois hoje o que se faz \u00e9 destruir o que foi feito, para no seu lugar ser entronizado um monumento ao obscurantismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi a vanguarda que fez esse servi\u00e7o, foi a pr\u00f3pria ind\u00fastria, que devorou as transgress\u00f5es e desconstruiu a heran\u00e7a outorgada pela maestria de grandes cineastas. O Sinal poderia ser visto como uma volta ao passado, um anacronismo, um trabalho fake em todos os sentidos, pois o que aparece n\u00e3o \u00e9 a Am\u00e9rica da depress\u00e3o ou dos gloriosos anos 40 e 50, nem as personagens parecem veross\u00edmeis nessa Buenos Aires de 1952, quando Juan Per\u00f3n estava no poder e Evita, sua mulher, agonizava lentamente enquanto a multid\u00e3o em desespero rezava pela sua imposs\u00edvel recupera\u00e7\u00e3o. Mas, como \u00e9 sobre cinema, o filme dribla essa m\u00e1 vontade da percep\u00e7\u00e3o, e se imp\u00f5e como um trabalho de ruptura contra o eterno presente a que fomos condenados.<\/p>\n<p>\u201cA mulher pesa 40 quilos e n\u00e3o a deixam morrer\u201d diz o detetive Corval\u00e1n, interpretado por Ricardo Dar\u00edn, referindo-se a Evita. A primeira dama argentina \u00e9 o r\u00e1dio, a mulher a ser evitada pelo pragm\u00e1tico profissional que ganha a vida fotografando pequenos crimes dom\u00e9sticos, trai\u00e7\u00f5es em sua maioria. Corval\u00e1n n\u00e3o quer ser tra\u00eddo pelas ilus\u00f5es que tomam conta da pol\u00edtica e da sociedade. Ao contr\u00e1rio de seu s\u00f3cio (interpretado por Diego Peretti) do escrit\u00f3rio de detetives, que \u00e9 engajado na partido do governo e considera o mito Evita como uma coluna do templo nacional, Corval\u00e1n quer dist\u00e2ncia desse circo, e tamb\u00e9m das armadilhas da tradi\u00e7\u00e3o, outra ilus\u00e3o encarnada pelo pai doente tocador de bandoneon, aposentado de uma atividade sinistra, talvez a de matador, talvez a de detetive particular.<\/p>\n<p>Afastando-se de tudo o que lhe parece falso, Corval\u00e1n procura manter uma relacionamento frio com a amiga, professora de piano, com quem vai para a cama e que o trai com seus alunos. Amargando o impacto dessa revela\u00e7\u00e3o, quando flagra o namorado da amante numa volta pela sua rua, Corval\u00e1n n\u00e3o tem nem o consolo da ilus\u00e3o do jogo, j\u00e1 que aposta nos cavalos errados e nada ganha com os n\u00fameros da loteria. \u00c9 nesse quadro de decep\u00e7\u00e3o que v\u00ea o elemento obrigat\u00f3rio das hist\u00f3rias de detetive: a mulher fatal (interpretada por Julieta Diaz), que o contrata para uma miss\u00e3o misteriosa e complicada. Ela \u00e9 aquele sinal que muda tudo e faz com que os protagonistas se comportem de uma outra maneira.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 sua perdi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o entenderam como um sujeito pragm\u00e1tico, l\u00facido e que n\u00e3o se deixava impregnar pelas ilus\u00f5es, pode ter ca\u00eddo de maneira t\u00e3o completa nas tramas da f\u00eamea que o enganava e o levou para um ciclo de conflitos extremos, com o desfecho previs\u00edvel. Acenou para ele com a mais radical das ilus\u00f5es, o dinheiro farto e acess\u00edvel num cofre do mafiosos. Para l\u00e1 se dirigiu Corval\u00e1n, pois estava condenado na op\u00e7\u00e3o que fez. \u201cNingu\u00e9m me obrigou a nada\u201d disse, quando se viu perdido. Ele foi atra\u00eddo pela penumbra de um cinema, onde deu o primeiro beijo na sua cliente, ao som da m\u00fasica envolvente, dessas de filme de matin\u00e9, que embalam o sonho, mas oferecem inapelavelmente a ressaca na hora de sair da sala.<\/p>\n<p>Eis uma composi\u00e7\u00e3o de elementos cinematogr\u00e1ficos que se oferecem ao espectador como uma charada e deve ser decifrada pelo que \u00e9, filme sobre cinema. Podemos escapar de tudo, ser donos de nossas vidas, cumprir formalmente nossos destinos, formatar h\u00e1bitos, ficar distante das armadilhas, j\u00e1 que estamos preparados e usamos esses chap\u00e9us, vestimos esses ternos, dirigimos essas carros lustrosos, por ruas chuvosas e acendemos um cigarro atr\u00e1s do outro. Mas n\u00e3o devemos cair na tenta\u00e7\u00e3o de entrar numa sala de cinema, pois esse ser\u00e1 a trag\u00e9dia mais prazerosa que poder\u00e1 nos acontecer, quando enfim nos livramos da casca dessa realidade insuport\u00e1vel e morremos nos bra\u00e7os de um amor inating\u00edvel.<\/p>\n<p>O que fizemos de nossas vidas, prezado e brilhante Ricardo Darin? Tu, que \u00e9s do ramo, sabe como ningu\u00e9m. Fomos ao cinema.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Implicaram com La Se\u00f1al (O Sinal, 2007), dirigido pelo Ricardo Dar\u00edn (em parceria com Martin Hodara), ator fundamental do cinema argentino contempor\u00e2neo, que brilha em v\u00e1rios filmes de Juan Jos\u00e9 Campanella. 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