{"id":2182,"date":"2010-07-19T17:37:58","date_gmt":"2010-07-19T20:37:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2182"},"modified":"2010-07-19T17:37:58","modified_gmt":"2010-07-19T20:37:58","slug":"estrelas-da-conexao-entre-ceu-e-terra","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/estrelas-da-conexao-entre-ceu-e-terra","title":{"rendered":"ESTRELAS DA CONEX\u00c3O ENTRE C\u00c9U E TERRA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Escola, disse aqui esses dias, quando escrevi sobre o filme franc\u00eas Entre les murs, serve para o ensino e o aprendizado do uso da l\u00edngua, passaporte para todas as outras mat\u00e9rias. Esa conceitua\u00e7\u00e3o cabe perfeitamente no filme indiano Pedras preciosas como estrelas na terra, minha tradu\u00e7\u00e3o livre de Taare Zameen Par (2007), dirigido e interpretado pelo ator cult Aamir Khan, considerado um perfeccionista e desde a primeira inf\u00e2ncia envolvido com cinema, por obra dos neg\u00f3cios familiares; escrito pelo tamb\u00e9m considerad\u00edssimo Amole Gupte (quem consulta o supersite IMDB vira especialista em cinema indiano desde criancinha); e estrelado pelo fen\u00f4meno de nove anos Darsheel Safary, que ganhou todos os pr\u00eamios no seu pa\u00eds no papel do garoto disl\u00e9xico, que quase se suicida e \u00e9 salvo pelo professor de arte.<\/p>\n<p>O filme \u00e9 uma gra\u00e7a suprema e n\u00e3o passa em lugar nenhum no Brasil porque estamos entupidos de blockbusters, onde roda dinheiro f\u00e1cil. E porque destru\u00edmos a inf\u00e2ncia, rebentamos com a inoc\u00eancia e devoramos o nosso futuro \u00e0s gargalhadas e tiros. Em contrapartido, o filme indiano tem de tudo: \u00e9 drama, \u00e9 musical, \u00e9 did\u00e1tico. Ensina como trabalhar a individualidade no que ela tem de escassa para descobrir o que nela sobra. Mostra que nenhuma exclus\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel ou vai consertar quem quer que seja. Ao contr\u00e1rio, vai intensificar o problema e levar a um desfecho tr\u00e1gico. E contrap\u00f5e a voca\u00e7\u00e3o e a sensibilidade ao pragmatismo cego de quem quer formar rob\u00f4s competitivos.<\/p>\n<p>Naif demais, \u00f3bvio demais? Como precisamos dessas obviedades que foram jogadas fora! Infelizmente, de repente nos sentimos superiores, por dentro, modernos e progressistas. Somos um bando de c\u00ednicos, isso sim. Muitas de nossas escolas est\u00e3o na m\u00e3os de traficantes. Cada vez mais, a alunocracia imp\u00f5e o terror aos professores, empurrados para a mis\u00e9ria e o sufoco. Escola aqui \u00e9 lugar de merenda e conversa fiada. O discurso educacional se esmera em ser correto enquanto a realidade das pixa\u00e7\u00f5es, da viol\u00eancia e do despreparo impera.<\/p>\n<p>Bem oposto \u00e0 \u00cdndia, que exporta alunos preparados no seu r\u00edgido sistema de ensino. Tem formando e p\u00f3s-graduando indiano em tudo que \u00e9 lugar. Eles est\u00e3o com tanta presen\u00e7a no sistema de ensino, que podem se dar ao luxo de trabalhar algo mais amplo, mais preciso, mais significativo, mas voltado para o futuro que \u00e9 abordar os alunos especiais, que devem ser inclu\u00eddos nas escolas normais e n\u00e3o serem confinados em guetos. Mas chega de perora\u00e7\u00e3o. Vamos ao cinema.<\/p>\n<p>Esta obra indiana \u00e9 sobre conflitos de percep\u00e7\u00e3o entre o mundo adulto e infantil. Enquanto no franc\u00eas Le Petit Nicolas (2009), baseado na obra do escritor Ren\u00e9 Goscinny e do artista Semp\u00e9, dirigido por Laurent Tirard, trata de mundos paralelos entre a inf\u00e2ncia e o mundo adulto, os indianos falar sobre os pontos de interse\u00e7\u00e3o entre esses dois universos. Nicolas \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o baseado na mem\u00f3ria, j\u00e1 que o livro original que gerou a s\u00e9rie e agora o filme, de 1960, resgata o r\u00edgido sistema escolar dos anos 40, suas brincadeiras, suas hist\u00f3rias e seus encantos e problemas.<\/p>\n<p>A narrativa \u00e9 feita pelo personagem mirim. O autor escreveu como se fosse a hist\u00f3ria ideal que gostaria de ouvir quando crian\u00e7a. Isso cria uma atmosfera de sonho em todo o filme, levando-o para o humor, garantido pela independ\u00eancia entre as duas vis\u00f5es de mundo, dos adultos repressores e dos alunos em outra, tudo dentro de normas duras e fam\u00edlias nucleares tradicionais. Fico me perguntando se n\u00e3o foi melhor assim: s\u00f3 quando h\u00e1 limites \u00e9 poss\u00edvel saborear a transgress\u00e3o, s\u00f3 quando h\u00e1 disciplina d\u00e1 para sentir o gosto da liberdade.<\/p>\n<p>Na hora que libera geral e as aulas ficam l\u00fadicas, por vaidade e pregui\u00e7a dos adultos irrespons\u00e1veis, no recreio a garotada sai dando tiro, no m\u00ednimo. No filme indiano O professor de arte faz todo mundo dan\u00e7ar e pular, mas h\u00e1 um entorno de rigidez. N\u00e3o se trata da dan\u00e7a o tempo todo, mas de um necess\u00e1rio contraponto ao que existe ao redor. Tudo \u00e9 dial\u00e9tico e n\u00e3o se pode puxar demais para nenhum dos lados. No fim, o ensino inovador da arte serve para fazer a escola tradicional respirar, mas n\u00e3o a destr\u00f3i, ao contr\u00e1rio, a atualiza e a preserva.<\/p>\n<p>A escola mostrada no filme indiana \u00e9 s\u00f3 para meninos, todos usam uniformes, s\u00e3o obrigados ao asseio, a limpeza, ao bom comportamento e ao estudo brutal das disciplinas. Isso cria um problema, pois o protagonista disl\u00e9xico vive em outro mundo e precisa ser amparado pelo brilhante professor de arte para aprender a ler e escrever e assim poder convencer os outros professores de sua capacidade e finalmente mergulhar no que gosta, pintar.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 um caminho f\u00e1cil. O professor se esfor\u00e7a para convencer o diretor, os outros professores e a fam\u00edlia do garoto que h\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o para o problema. Claro, consegue, o filme tem happy e end e exagera nas interpreta\u00e7\u00f5es over e nas situa\u00e7\u00f5es exageradamente emocionais (foi feito para chorar, enquanto Nicolas, para rir). Mas \u00e9 um trabalho maravilhoso dos realizadores dessa obra, que deveria ser visto no Brasil para servir de par\u00e2metro. N\u00e3o para alimentar discursos, que disso estamos fartos. Mas para estimular os bons exemplos, em que os adultos abrem m\u00e3o de sua percep\u00e7\u00e3o viciada e veem melhor o que as crian\u00e7as nos trazem. S\u00f3 o cinema, arte que se enxerga o tempo todo, poderia se sair bem dessa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Escola, disse aqui esses dias, quando escrevi sobre o filme franc\u00eas Entre les murs, serve para o ensino e o aprendizado do uso da l\u00edngua, passaporte para todas as outras mat\u00e9rias. 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