{"id":2186,"date":"2010-07-19T17:44:30","date_gmt":"2010-07-19T20:44:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2186"},"modified":"2010-07-19T17:44:30","modified_gmt":"2010-07-19T20:44:30","slug":"kamtchakca-e-o-cinema-politico","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/kamtchakca-e-o-cinema-politico","title":{"rendered":"KAMTCHAKCA E O CINEMA POL\u00cdTICO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Fora Buenos Aires e a Patag\u00f4nia, tudo na Argentina parece a minha terra, Uruguaiana e arredores, situada bem na fronteira. Sempre que vejo um filme feito pelos hermanos me dou conta que a paisagem, as cal\u00e7adas, as cidades do interior, as pessoas, as roupas, as express\u00f5es, tudo faz parte da minha vida. Bem que os portoalegrenses me avisaram quando cheguei na capital ga\u00facha e abri minha grande boca: me perguntavam sempre se eu n\u00e3o tinha nascido no lado errado do rio Uruguai.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 barreiras entre aquelas crian\u00e7as que os geniais cineastas argentinos filmam e minha inf\u00e2ncia ou juventude. Eu estou l\u00e1 e por isso, talvez, ache que o cinema nacional hoje, com suas putarias e viol\u00eancias, com alguns o\u00e1sis como Sergio Rezende, est\u00e1 mais distante do que um Juan Jos\u00e9 Campanella e suas obras-primas (Clube da Lua, entre outras) , ou um Marcelo Pi\u00f1eyro e seu<br \/>\nKamtchakca (2002).<\/p>\n<p>Ma n\u00e3o \u00e9 por me identificar plenamente com o cinema argentino que o considero o melhor cinema do mundo atualmente. O topo j\u00e1 foi dos americanos nos anos 40 e 50 (gra\u00e7as principalmente aos imigrantes europeus corridos pelo nazismo), dos italianos e franceses nos 60 e 70, nos chineses e suas lanternas vermelhas nos 80 e in\u00edcio dos 90, dos iranianos e seus jarros nos 90 e agora \u00e9 desses caras que n\u00e3o perdoaram a ditadura e lutam contra ela todos os dias, ao contr\u00e1rio de n\u00f3s, que deixamos nos absorver pela tirania e por isso vemos o pa\u00eds resvalando inapelavelmente para o fundo do po\u00e7o.<\/p>\n<p>Kamtchakca \u00e9 a saga de uma fam\u00edlia em fuga e que acaba se esgar\u00e7ando. Por for\u00e7a de uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de sufoco, que aparece em alguns flashes na televis\u00e3o e no r\u00e1dio e \u00e9 apenas sugerida pelo p\u00e2nico dos protagonistas, que procuram escapar. Mas n\u00e3o h\u00e1 m\u00e1gica poss\u00edvel quando se trata de uma ditadura que envolve a todos e destr\u00f3i o tecido da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com a tecnologia, perdemos a embocadura da cronologia cinematogr\u00e1fica, j\u00e1 que temos acesso a todos os filmes ao mesmo tempo. N\u00e3o ficamos esperando lan\u00e7amentos ou sentimos saudades de filmes antigos. Al\u00e9m de ir ao cinema, basta comprar ou alugar dvds ou fazer downloads legais de filmes de dom\u00ednio p\u00fabico ou que s\u00e3o colocados na rede pelas pr\u00f3prias produtoras. Isso nos permite ver no espa\u00e7o de algumas horas, al\u00e9m de Kamtchakca, um thriller pol\u00edtico de primeira \u00e1gua como King\u00b4s Game (2004), de Nikolaj Arcel, feito na Dinamarca , ou Waltz with Bashir (2008), de Ari Folman, uma anima\u00e7\u00e3o impressionante, de produ\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o israelenses, sobre o massacre dos palestinos na guerra do L\u00edbano.<\/p>\n<p>O cinema pol\u00edtico \u00e9 a resposta ao notici\u00e1rio, \u00e0 cobertura da m\u00eddia, \u00e0 Hist\u00f3ria formatada em suas in\u00fameras vers\u00f5es. Os filmes em quest\u00e3o trabalham a investiga\u00e7\u00e3o de personagens que procuram saber a verdade sobre os bastidores da tomada do poder na Dinamarca, o que de verdade aconteceu no envolvimento israelense dos massacres do L\u00edbano ou o que houve com fam\u00edlias da classe m\u00e9dia argentina que de uma momento para outro foram tratados como animais e inimigos da na\u00e7\u00e3o. S\u00e3o temas explosivos demais para caber na produ\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica di\u00e1ria.<\/p>\n<p>Sem mem\u00f3ria, o ex-combatente da Valsa com Bahshir vai atr\u00e1s dos companheiros da guerra para saber por que esqueceu as cenas do massacre, onde esteve presente. \u00c9 pressionado por pesadelos e acaba descobrindo que sepultou as lembran\u00e7as porque identificou o horror presenciado com o horror herdado, j\u00e1 que os pais estiveram em Auschwitz. O filme assim tra\u00e7a um paralelo entre o nazismo e o que ocorre no Oriente M\u00e9dio. E o filme dinamarqu\u00eas \u00e9 um modelo de cinema sobre pol\u00edtica e jornalismo, com dois rep\u00f3rteres indo atr\u00e1s de uma hist\u00f3ria sinistro de manipula\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica e do Parlamento. O objetivo era o acesso ao cargo de Primeiro Ministro. \u201cIsso tudo ser\u00e1 esquecido em duas semanas\u201d, diz o vil\u00e3o para o jornalista. \u201cDuas semanas s\u00e3o suficientes\u201d, responde o rep\u00f3rter. Magn\u00edfico di\u00e1logo.<\/p>\n<p>Kamtchakca traz para a cena esse ator que n\u00e3o canso de celebrar aqui no Di\u00e1rio da Fonte, Ricardo Darin, o cara que demora demais a receber um Oscar. Neste filme, o grande ator exerce novamente seu of\u00edcio exibindo a capacidade de provocar emo\u00e7\u00e3o sem mover uma linha do rosto. Um exemplo de concentra\u00e7\u00e3o e talento, raros entre os atores alimentados a maizena de hoje. Darin faz o papel do pai dedicado que precisa fugir dos filhos, junto com a esposa (interpretada maravilhosamente por Cecilia Roth), deix\u00e1-los na m\u00e3o do av\u00f4 e partir para o nada, aquela estrada sem fim que o cinema j\u00e1 nos acostumou a mostrar como o limite de uma narrativa e que em Pi\u00f1eyro \u00e9 o limite de muitas vidas. Fica a resist\u00eancia, o pequeno lugar onde nos refugiamos para conseguir reverter o jogo imposto pela maldade.<\/p>\n<p>Cinema pol\u00edtico contempor\u00e2neo: a mil! Precisa ser visto, disseminado, celebrado. Para que todos aprendem antes que novamente a noite aconte\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Fora Buenos Aires e a Patag\u00f4nia, tudo na Argentina parece a minha terra, Uruguaiana e arredores, situada bem na fronteira. 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