{"id":2190,"date":"2010-08-01T21:21:53","date_gmt":"2010-08-02T00:21:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2190"},"modified":"2010-08-01T21:21:53","modified_gmt":"2010-08-02T00:21:53","slug":"em-busca-da-identidade-perdida-da-linguagem","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/em-busca-da-identidade-perdida-da-linguagem","title":{"rendered":"EM BUSCA DA IDENTIDADE PERDIDA DA LINGUAGEM"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nA poesia \u00e9 a linguagem em busca da sua identidade. Para cumprir seu destino, deixou de lado o amplo espectro dos temas e concentrou-se na sua pr\u00f3pria ci\u00eancia: modernidade pelo avesso, j\u00e1 que o \u00fanico exerc\u00edcio \u00e9 recuperar a magia perdida ou dispersa na selva minada pelo jornalismo, a publicidade, a m\u00eddia eletr\u00f4nica, a diplomacia, a advocacia, o cinema ou a m\u00fasica. N\u00e3o \u00e9 buscar a f\u00f3rmula exata, mas a palavra-chave, reinstauradora do verbo.<\/p>\n<p>Pois no caos \u2013 que podemos batizar de discurso, linguagem em ru\u00ednas \u2013 fazer poesia \u00e9 inventar a carne. Morder, por enquanto \u2013 nessa transi\u00e7\u00e3o de signos -, a \u201ccarne intermedi\u00e1ria\u201d, de que nos fala Paulo Henriques Britto no livro M\u00ednima L\u00edrica .Aquela que existe entre a \u201ccasca e o caro\u00e7o\u201d da vida, em que \u201ca l\u00edngua elabora a doce palavra\u201d. Ou promover o \u201ccurto-circuito da frase\u201d, op\u00e7\u00e3o de Rubens Rodrigues Torres Filho em Poros. Trata-se de uma luta de arma branca: a poesia n\u00e3o encontra nos m\u00edsseis sua met\u00e1fora mais contundente, mas na faca, na l\u00e2mina. O corte fala melhor do que a bomba. Por isso os poetas n\u00e3o apertam bot\u00f5es, eles ainda afiam espadas e continuam carregando os mesmos detritos: \u201cH\u00e1 algum tempo coleciono cad\u00e1veres\u201d (Britto); \u201cLongas, frias, vazias \u2013 certas letras somem ao olho que tombado cai\u201d (Torres Filho).<\/p>\n<p>Mas cada poeta briga de maneira diferente pelo seu peda\u00e7o, instaura estruturas expostas, territ\u00f3rios ocultos. Torres Filho, por exemplo, procura infeccionar a linguagem com um tom \u00e9pico, exatamente para diferenci\u00e1-la da selva selvaggia: \u201cS\u00e3o \u00e1geis palavras circundando fatos ariscos e perme\u00e1veis lunetas onde se aninham os astros imponder\u00e1veis\u201d ( em Certos Momentos). Ou: \u201cEntornas a \u00e2ncora das viagens que te desenham na \u00e1gua\u201d. Britto prefere outro caminho, o do desencanto feito revela\u00e7\u00e3o: \u201cPor isso n\u00e3o tive P\u00e1tria, s\u00f3 discos\u201d (Gera\u00e7\u00e3o Paissandu). Ou: &#8220;Nem tudo o que fui se aproveita&#8221; (Queima de Arquivo).<\/p>\n<p>Mas os dois poetas tem um ponto em comum: o da esgrima exausta com o discurso, a busca da fibra luminosa na armadilhas montadas pela morte da linguagem. Sobram exemplos: para Britto, a poesia \u00e9 a \u201cfala esquiva, obl\u00edqua, angulosa \u2013 do que resiste \u00e0 retid\u00e3o da prosa\u201d; ou \u201ca palavra \u00e9 coisa feita, de uma mat\u00e9ria turva e densa, impura\u201d. E para Torres Filho, o \u201cocioso exerc\u00edcio\u201d \u00e9 \u201cmarcar, assim o signo papel, macul\u00e1-lo com a letra incruenta\u201d; ou \u201co poema s\u00f3 quer ser feio e n\u00e3o dar nenhum recado\u201d.<\/p>\n<p>O resultado deste embate, sua s\u00edntese, \u00e9 absolutamente imposs\u00edvel dentro da jaula de um livro. Acuado, o poeta prop\u00f5e sua pr\u00f3pria sa\u00edda: \u201cEscrever, sim, mas como quem grafita\u201d, diz Britto. E para Torres Filho, que enche sua poesia de tambores, o resultado s\u00f3 pode ser este: \u201cCai o poema, filigrana grave, precipitado na p\u00e1gina alvura\u201d. A gravidade do trabalho po\u00e9tico ganha uma dimens\u00e3o pr\u00f3pria no Brasil, onde destruir a linguagem passa por dois corredores: o excesso de oferta do discurso \u2013 obsessivo e redundante \u2013 e o deboche em rela\u00e7\u00e3o ao poema.<\/p>\n<p>Na terra do repente e do improviso, dos poetas incuravelmente rom\u00e2nticos, do vazio sinf\u00f4nico do niilismo temperado pelo talento, sobra espa\u00e7o para a constru\u00e7\u00e3o de pequenas pontes, da inven\u00e7\u00e3o de espelhos ao longo da estrada \u2013 para que o discurso se parta diante da pr\u00f3pria imagem -, da conviv\u00eancia com a armadura da linguagem \u2013 carne dif\u00edcil em meio ao mar de falsidades.<\/p>\n<p>Sobra espa\u00e7o tamb\u00e9m para a cr\u00edtica, que pode selecionar uma rota de in\u00fameros sinais colocados pelos poetas. A fun\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica \u00e9 de absoluta trai\u00e7\u00e3o: n\u00e3o se render \u00e0s facilidades do discurso, a quem pertence, como esp\u00f3lio de guerra \u2013 e, como o poeta, expor-se na constru\u00e7\u00e3o do verbo. Subvers\u00e3o tamb\u00e9m exposta ao deboche, \u00e0s sobras do discurso. S\u00f3 assim a cr\u00edtica poder\u00e1 iniciar sua pr\u00f3pria luta: a de descobrir a identidade perdida da sua linguagem.<\/p>\n<p><em>Ensaio publicado na se\u00e7\u00e3o Leitura, p\u00e1gina 6 de Caderno 2 do jornal O Estado de S\u00e3o Paulo, do dia 29 de junho de 1989. O editor do Caderno 2, na \u00e9poca, era Jos\u00e9 Onofre. Os dois livros fazem parte da cole\u00e7\u00e3o Claro Enigma, editada pelo poeta e cr\u00edtico Augusto Massi.<br \/>\n<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s A poesia \u00e9 a linguagem em busca da sua identidade. 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