{"id":2194,"date":"2010-08-01T21:24:32","date_gmt":"2010-08-02T00:24:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/%e2%80%9clas-viudas-de-los-jueves%e2%80%9d-cinema-e-nacao"},"modified":"2010-08-01T21:24:32","modified_gmt":"2010-08-02T00:24:32","slug":"%e2%80%9clas-viudas-de-los-jueves%e2%80%9d-cinema-e-nacao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/%e2%80%9clas-viudas-de-los-jueves%e2%80%9d-cinema-e-nacao","title":{"rendered":"\u201cLAS VIUDAS DE LOS JUEVES\u201d: CINEMA \u00c9 NA\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Cinema n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 espet\u00e1culo. Nem apenas informa\u00e7\u00e3o, cultura e arte. Cinema \u00e9 na\u00e7\u00e3o. Todo filme \u00e9 sobre cinema e todo cinema \u00e9 sobre um pa\u00eds. N\u00e3o existe identidade dos EUA fora do cinema americano. Nem It\u00e1lia sem Dino Risi , Visconti, Fellini ou De Sica. Godard \u00e9 a Fran\u00e7a e Almod\u00f3var, Espanha. Voc\u00ea conhece o Ir\u00e3 pelos filmes iranianos e no momento em que os cineastas chineses formataram uma id\u00e9ia da China que procurava a liberdade da express\u00e3o, o governo de Pequim fez grossa interven\u00e7\u00e3o, a exemplo do atual governo iraniano em rela\u00e7\u00e3o aos filmes produzidos no pa\u00eds. A ditadura chinesa substituiu as lanternas vermelhas pelas adagas voadoras, pois era preciso impor uma id\u00e9ia s\u00f3lida de China imperial e milenar, para justificar uma pol\u00edtica invasiva mundial.<\/p>\n<p>O Brasil j\u00e1 teve cinema nacional, no tempo da Atl\u00e2ntida e, mais tarde, do Cinema Novo. Hoje tem um queijo su\u00ed\u00e7o, uma entidade perversa cheia de buracos pornogr\u00e1ficos e absurdamente violentos. Uma na\u00e7\u00e3o s\u00f3 se faz com cinema, que define o perfil nacional, \u00e9 fruto de suas pol\u00edticas p\u00fablicas, do comportamento da sociedade e dos rumos da economia e da pol\u00edtica. N\u00f3s consolidamos uma ditadura, por isso baixamos as cal\u00e7as nos primeiros cinco minutos de proje\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existe o \u00e9pico num pa\u00eds que precisa escolher entre Serra e Dilma.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos redefinem seu papel hegem\u00f4nico. A Fran\u00e7a foca em seus filmes o problema da educa\u00e7\u00e3o e dos migrantes. Os espanh\u00f3is no comportamento. Os argentinos no sucateamento da na\u00e7\u00e3o e na rea\u00e7\u00e3o popular \u00e0 pirataria internacional. Por ser parte de uma sociedade que vai \u00e0s ruas para expulsar presidente a panela\u00e7o, o cinema argentino \u00e9 uma obra de resist\u00eancia e liberdade. Tem um cinema primoroso, que \u00e9 a pr\u00f3pria na\u00e7\u00e3o procurando se costurar diante da barb\u00e1rie do que chamam capitalismo e \u00e9 apenas pirataria.<\/p>\n<p>H\u00e1 algumas cenas em Las Viudas de Los Jueves (2009) de Marcelo Pi\u00f1eyro, lapidares. O filme, baseado em livro de Claudia Pi\u00f1eiro (n\u00e3o h\u00e1 parentesco), se passa num condom\u00ednio de luxo habitado pelos predadores da economia atual, os laranjas das perdas internacionais, que se locupletam com a invas\u00e3o do dinheiro especulativo e das multinacionais. Como a hist\u00f3ria se passa em 2001, quando a Argentina foi mais uma vez \u00e0 bancarrota, um dos moradores treina dizer para a mulher a verdade: que perdeu o emprego e est\u00e1 zerado no banco.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o quis te falar antes para n\u00e3o te preocupar\u201d, diz o covard\u00e3o pra uma cadeira vazia. \u201cMas gostaria de vender a casa e nos mudar para um pa\u00eds s\u00f3lido. Voc\u00ea gosta tanto de Miami, por que n\u00e3o vamos para l\u00e1?\u201d A situa\u00e7\u00e3o precede a grande quebra geral de 2008, quando os bandid\u00f5es foram flagrados nos cr\u00e9ditos podres, levando as na\u00e7\u00f5es para a inadimpl\u00eancia, um buraco de onde ainda n\u00e3o sa\u00edmos. N\u00e3o existe pa\u00eds s\u00f3lido, mas n\u00e3o h\u00e1 duvida que na periferia do sistema, onde nos situamos, junto com a Argentina, o esgar\u00e7amento \u00e9 muito mais amplo e profundo.<\/p>\n<p>Outra cena importante \u00e9 quando uma fam\u00edlia de sobreviventes vai escapar do condom\u00ednio e \u00e9 aconselhado pelo porteiro (que \u00e9 um criminoso chantagista) e ficar, pois \u00e9 mais seguro, j\u00e1 que o povo est\u00e1 nas ruas quebrando tudo e h\u00e1 comandos trancando as estradas. A fam\u00edlia decide ir embora, pois h\u00e1 mais seguran\u00e7a no caos urbano e social do que numa pris\u00e3o de luxo, onde as pessoas se entredevoram no vazio e na superficialidade espiritual e econ\u00f4mica. N\u00e3o h\u00e1 fundos na na\u00e7\u00e3o para sustentar essa diferen\u00e7a brutal entre as classes sociais e tudo acaba numa viol\u00eancia contra os pr\u00f3prios protagonistas. N\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda pelo aeroporto, pois tudo est\u00e1 contaminado. As pessoas precisam se juntar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o em p\u00e9 de guerra, lutar pelo pa\u00eds que est\u00e1 sendo destru\u00eddo e n\u00e3o buscar ref\u00fagio onde a crise ir\u00e1 pegar todo mundo.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas outras cenas neste filme admir\u00e1vel, que \u00e9 mais uma prova da maestria de Pi\u00f1eyro na elipse, pois o filme foca o condom\u00ednio, mas as verdadeiras causas do sofrimento pulsam fora de cena, est\u00e3o expostas nas ruas, que aparecem em alguns flashes de televis\u00e3o e nos jornais. Ele j\u00e1 tinha feito isso em Kamtchaka, analisado aqui dias atr\u00e1s. A repress\u00e3o e a tortura rondam sem jamais aparecer diretamente, apenas se refletem no p\u00e2nico pessoal e coletivo.<\/p>\n<p>O mesmo ocorre em Las Viudas de Los Jueves, em que a bancarrota e a inadimpl\u00eancia invadem os funerais, as vidas competitivas, o desespero de adultos e adolescentes, uma situa\u00e7\u00e3o com desfecho tr\u00e1gico que \u00e9 tratado de maneira desdram\u00e1tica pelo diretor. Ele coloca no mesmo patamar cenas do presente e do passado, gerando um pouco de confus\u00e3o. Mas aos poucos a narrativa fica mais clara e contundente. Foi necess\u00e1rio n\u00e3o fingir surpresas no final e colocar de cara o que ocorreu com os personagens principais. Assim a aten\u00e7\u00e3o fica seguindo as a\u00e7\u00f5es e os motivos do drama, denunciado de maneira lapidar por mais esta obra do admir\u00e1vel cinema argentino, o melhor do mundo na atualidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Cinema n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 espet\u00e1culo. Nem apenas informa\u00e7\u00e3o, cultura e arte. Cinema \u00e9 na\u00e7\u00e3o. Todo filme \u00e9 sobre cinema e todo cinema \u00e9 sobre um pa\u00eds. N\u00e3o existe identidade dos EUA fora do cinema americano. Nem It\u00e1lia sem Dino Risi , Visconti, Fellini ou De Sica. Godard \u00e9 a Fran\u00e7a e Almod\u00f3var, Espanha. 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