{"id":2198,"date":"2010-08-01T21:28:09","date_gmt":"2010-08-02T00:28:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2198"},"modified":"2010-08-01T21:28:09","modified_gmt":"2010-08-02T00:28:09","slug":"historias-minimas-pessoas-em-busca-de-um-rosto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/historias-minimas-pessoas-em-busca-de-um-rosto","title":{"rendered":"HIST\u00d3RIAS M\u00cdNIMAS: PESSOAS EM BUSCA DE UM ROSTO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O filme Hist\u00f3rias M\u00ednimas (2002), de Carlos Sorin, \u00e9 a busca da identidade pr\u00f3pria empreendida pelas pessoas pertencentes a um povo a c\u00e9u aberto, na Patag\u00f4nia argentina. Casas esparsas, estradas desertas, falta de energia el\u00e9trica, dispers\u00e3o, imobilidade e isolamento formam o cen\u00e1rio cercado pelo mundo em transforma\u00e7\u00e3o, onde as profiss\u00f5es se extinguem, os produtos perdem a qualidade e os caminh\u00f5es passam indiferentes \u00e0 humanidade \u00e0 margem da rodovia. Alguns personagens precisam se movimentar e fazem um esfor\u00e7o para sair das travas que os prendem a um lugarzinho remoto e partem pela estrada rumo \u00e0s solu\u00e7\u00f5es dos seus impasses.<\/p>\n<p>A mulher com marido ausente n\u00e3o tem espelho, a televis\u00e3o que a atrai para um concurso de pr\u00eamios. A TV reflete lugares ex\u00f3ticos (o Brasil, claro, ou os sarad\u00f5es de Los Angeles, ou ainda os dramalh\u00f5es das novelas, distantes da vida prosaica). Ao ser sorteada num programa que ela v\u00ea no armaz\u00e9m que tem um aparelho de TV, ela decide viajar. L\u00e1, acaba ficando com um estojo de maquiagem, onde finalmente consegue se enxergar. Seu rosto iluminado na tela na hora em que ganha o pr\u00eamio principal (que trocou pelo estojo) revela o rosto que tinha perdido numa vida an\u00f4nima. E seu rosto refletido no pequeno espelho que veio junto com os cosm\u00e9ticos mostra sua beleza, que estava oculta pelo ermo. Para isso foi feito o filme: para revelar seu rosto, e a das pessoas que a cercam.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m o caixeiro viajante, que n\u00e3o tem pouso, um lugar onde possa se encontrar. Vive trafegando por paisagens assombradas pela solid\u00e3o sem fim, sozinho, sem mulher e sem filhos, tentando se amparar numa subliteratura, aquela que prega a oportunidade na crise. Sente-se poderoso com esse apoio, mas no fundo amarga um vazio do tamanho dos campos frios e batidos pelo vento que enxerga pelos vidros do seu autom\u00f3vel. Sua a\u00e7\u00e3o para romper esse ciclo \u00e9 fazer a corte a dist\u00e2ncia a uma vi\u00fava, que tem um filho de nove anos. Tentar acertar o bolo de anivers\u00e1rio para o garoto e assim ficar bem com a vi\u00fava \u00e9 uma sucess\u00e3o hil\u00e1ria de momentos dram\u00e1ticos.O vendedor abandonado procura uma fam\u00edlia, uma identidade pr\u00f3pria, j\u00e1 que trabalha num mundo econ\u00f4mico em decomposi\u00e7\u00e3o, com sua profiss\u00e3o sendo empurrada para a auto-ajuda e a venda de quinquilharias.<\/p>\n<p>E h\u00e1 o idoso que busca ser perdoado pelo c\u00e3o que o abandonou depois de ele, velho, ter cometido um crime. O cachorro se chama Malacara. Na Argentina, \u00e9 um mito, sin\u00f4nimo de fidelidade e hero\u00edsmo animal: o cavalo que salta o abismo salvando o dono de um ataque mortal de \u00edndios, como aconteceu com Jonh Evans, migrante gal\u00eas que fez um t\u00famulo em homenagem ao companheiro, que morreu em 1909. Fazer cara de mau, torcer a cara \u00e9 bom para afugentar os inimigos, montar guarda, garantir a seguran\u00e7a do dono. Mas, e se o c\u00e3o fiel acaba se voltando contra seu parceiro humano, e o condena por ter atropelado algu\u00e9m na estrada sem prestar socorro? O cachorro n\u00e3o reconhece mais o rosto, a identidade do dono e por isso o abandona.<\/p>\n<p>A saga do velho que parte escondido do filho e da nora em busca do c\u00e3o perdido costura essas hist\u00f3rias \u00edntimas de pessoas obscuras, que trafegam ao longo da estrada onde uma bi\u00f3loga, talvez a representa\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio cineasta, especialista em vida , recolhe quem parece estar indo a p\u00e9 na luta determinada por uma sa\u00edda. O velho precisa achar Malacara, o cachorro que o culpou mesmo que presenciado apenas um acidente. Na met\u00e1fora de Carlos Sorin, \u00e9 a dificuldade de ver que provoca o atropelamento involunt\u00e1rio. \u00c9 sobre cinema, como sempre: n\u00e3o poder enxergar acaba destruindo a identidade e gerando uma culpa que parece irrevers\u00edvel.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 preciso reencontrar o c\u00e3o, localizado por um motorista de \u00f4nibus. Ir busc\u00e1-lo, mesmo que as pernas estejam tr\u00f4pegas, a press\u00e3o excessivamente baixa e de companhia exista apenas uma cuia, uma bomba, um punhado de erva mate e uma garrafa t\u00e9rmica cheia de \u00e1gua quente. Na sua trajet\u00f3ria, ele encontra o povo perdido como ele e que sobrevive e o ajuda no encontro com o animal perdido, que enfim se realiza. A Patag\u00f4nia assim, que estava fora do olhar do cinema, se insere nesse abra\u00e7o entre a S\u00e9tima Arte e a paisagem humana, urbana e geogr\u00e1fica. S\u00e3o pessoas daquele lugar identificadas com o povo argentino, ao qual pertencem. E \u00e9 o cinema que faz esse invent\u00e1rio, essa comunh\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 como costumo dizer aqui: esse admir\u00e1vel cinema argentino! Esses diretores, atrizes, atores, roteiristas, c\u00e2maras s\u00e3o enxutos, precisos, originais e quando menos se espera, nos fazem chorar. Era mesmo o que nos faltava. Logo os argentinos!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s O filme Hist\u00f3rias M\u00ednimas (2002), de Carlos Sorin, \u00e9 a busca da identidade pr\u00f3pria empreendida pelas pessoas pertencentes a um povo a c\u00e9u aberto, na Patag\u00f4nia argentina. 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