{"id":22,"date":"2005-05-13T14:02:43","date_gmt":"2005-05-13T16:02:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=22"},"modified":"2009-12-20T22:45:46","modified_gmt":"2009-12-21T00:45:46","slug":"raduan-nassar-as-ruinas-do-discurso","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/raduan-nassar-as-ruinas-do-discurso","title":{"rendered":"Raduan Nassar: As ru\u00ednas do discurso"},"content":{"rendered":"<p><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/icons\/raduan.jpg\" alt=\"\" \/>AS RU\u00cdNAS DO DISCURSO<br \/>\nUm copo de C\u00f3lera<br \/>\nRaduan Nassar<br \/>\nBrasiliense<br \/>\n(2\u00aa edi\u00e7\u00e3o), 88 pgs.<\/p>\n<p><strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><br \/>\nA oposi\u00e7\u00e3o fundamental que existe neste pequeno texto de Raduan Nassar n\u00e3o \u00e9 entre um homem (desiludido e de meia idade) e uma mulher ( jornalista e liberada) \u00c9, antes, um duelo entre a linguagem e o discurso, entre o corpo e a c\u00f3lera. S\u00e3o dois elementos que, aparentemente feitos da mesma mat\u00e9ria-prima, possuem rituais diferentes e evoluem em espa\u00e7os desiguais. O corpo ( a linguagem) \u00e9 a reden\u00e7\u00e3o permanente, o desdobramento do prazer atrav\u00e9s da proximidade, do detalhe oculto numa vitrine de formas. A c\u00f3lera ( o discurso) cabe num copo: sua arma \u00e9 a transpar\u00eancia e o seu desespero \u00e9 a pr\u00f3pria limita\u00e7\u00e3o. Transbordar significa tamb\u00e9m apagar-se: por isso, a despropor\u00e7\u00e3o entre os inimigos define o desenlace. Para o escritor, a vit\u00f3ria da linguagem sobre o discurso \u00e9 o \u00fanico desfecho insubstitu\u00edvel. Pois vencer \u00e9 cumprir o destino, \u00e9 redefinir o drama, \u00e9 render-se ao mito. Uma rendi\u00e7\u00e3o honrada que consegue tamb\u00e9m subverter a ideologia da guerra: as frases n\u00e3o s\u00e3o enxutas nem curtas, s\u00e3o \u00famidas e enormes; a palavra, mais do que um signo, \u00e9 a m\u00e3o, um bra\u00e7o; a pontua\u00e7\u00e3o n\u00e3o funciona apenas como recurso, s\u00e3o feridas abertas; os cap\u00edtulos n\u00e3o comp\u00f5em um jogo, n\u00e3o brincam de roda, nem obedecem aos caprichos da leitura: ao contr\u00e1rio, assumem um caminhar, criam a carne.<\/p>\n<p>O casal criado por Raduan Nassar encarna a complexidade dessa trama m\u00faltipla, onde o texto, \u00fanica realidade, procura a transfus\u00e3o salvadora. Abre pacientemente as veias, irriga o territ\u00f3rio, modela as curvas, incendeia o sexo. Nada resta mesmo para o escritor, explorado e nu em seus segredos, do que insistir no sagrado, manobrar o sil\u00eancio, conviver com a disson\u00e2ncia, extrair o sopro. O escritor sabe que a linguagem, para sobreviver \u00e0 pulveriza\u00e7\u00e3o, ao ataque do discurso, recolheu-se \u00e0s fontes e espera. Contrair suas \u00e1guas, penetr\u00e1-la com a degrada\u00e7\u00e3o da c\u00f3lera, \u00e9 provocar o debate. Seguindo no mesmo ritmo: \u00e9 preciso substituir a m\u00edmica pela qu\u00edmica, a ci\u00eancia pelo feiti\u00e7o, a emo\u00e7\u00e3o pelo esporro, o cora\u00e7\u00e3o pelo toque.<\/p>\n<p>S\u00f3 assim \u00e9 poss\u00edvel entender o abismo do casal de Raduan Nassar, separado pela linguagem em ru\u00ednas &#8211; o discurso -, mas unido pelas verdades do corpo. A narra\u00e7\u00e3o &#8211; p\u00f3lvora seca &#8211; acende o estopim: a c\u00f3lera toma a maior parte do tempo, mas carne encontra o seu caminho ao transbordar sobre si mesma. Ela assim define o forma, selecionada do escombro. Aqui, nenhuma rendi\u00e7\u00e3o. Apenas o of\u00edcio de escrever e seu esp\u00f3lio: o livro, em plena forma; e o escritor, seu transl\u00facido oper\u00e1rio.<\/p>\n<p><em>publicado na revista SENHOR, em 17 de outubro de 1984<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>AS RU\u00cdNAS DO DISCURSO Um copo de C\u00f3lera Raduan Nassar Brasiliense (2\u00aa edi\u00e7\u00e3o), 88 pgs. Nei Ducl\u00f3s A oposi\u00e7\u00e3o fundamental que existe neste pequeno texto de Raduan Nassar n\u00e3o \u00e9 entre um homem (desiludido e de meia idade) e uma mulher ( jornalista e liberada) \u00c9, antes, um duelo entre a linguagem e o discurso, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1445,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22\/revisions\/1445"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}