{"id":2209,"date":"2010-08-01T21:36:51","date_gmt":"2010-08-02T00:36:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2209"},"modified":"2011-03-05T16:18:23","modified_gmt":"2011-03-05T16:18:23","slug":"cid-o-pianista","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/cid-o-pianista","title":{"rendered":"CID, O PIANISTA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nUm os meus filmes favoritos \u00e9 &#8220;El Cid&#8221; (1961), de William Wyler, com Charlton Heston e Sophia Loren. Duas cenas s\u00e3o marcantes. Uma , a do casal em fuga que acorda no ermo, sai para fora da cabana onde est\u00e1 escondido, e \u00e9 rodeado pela na\u00e7\u00e3o em armas, o povo que veio convocar o her\u00f3i para a luta. \u201cPela Espanha!\u201d grita El Cid, enquanto a mulher se desespera, pois sabe que a vida conjugal est\u00e1 amea\u00e7ada pelo conflito. Outra cena \u00e9 quando, vindo da campanha vitoriosa, El Cid encontra algu\u00e9m que est\u00e1 acima dele na hierarquia e este, em agradecimento, se curva. Ao que o mito responde: \u201cDe p\u00e9! Um rei nunca se ajoelha\u201d.<\/p>\n<p>O amor que escapa dos dedos, a solenidade diante da miss\u00e3o maior, o desprendimento para com a vida, a entrega, esses s\u00e3o os recados dessa obra, hoje inacredit\u00e1vel vista de longe, no espa\u00e7o do tempo transcorrido. Perdemos o sentido do \u00e9pico e at\u00e9 mesmo dos amores verdadeiros, como a arte de viver a voca\u00e7\u00e3o a que somos convocados desde o ber\u00e7o. No mundo em peda\u00e7os e em ru\u00ednas, mascarado por estat\u00edsticas de riqueza e crescimento, e assolado pela f\u00faria de problemas aparentemente insol\u00faveis, n\u00e3o temos mais par\u00e2metros para exigir que um rei se levante, nem esperan\u00e7a que um ex\u00e9rcito venha bater \u00e0 nossa porta por sermos insubstitu\u00edveis na tarefa complicada de costurar uma nova ordem.<\/p>\n<p>Outro filme impressionante \u00e9 O Pianista (2002), de Roman Polanski, que deu o Oscar a Adrien Brody no papel do polon\u00eas que sobrevive \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o nazista na II Guerra Mundial. Sua na\u00e7\u00e3o, seu povo, seu mundo s\u00e3o reduzidos a p\u00f3 e ele volta marcado para sempre pela destrui\u00e7\u00e3o em massa. Mas mant\u00e9m a sua arte, que cultivou sempre e que o ajudou nos momentos mais cruciais. Manteve-se intacto, apesar de tudo, pois tinha essa grandeza permanente nos dedos, que interpretavam sua cultura, determina\u00e7\u00e3o e sensibilidade.<\/p>\n<p>Esses dois filmes me ocorrem a partir de uma not\u00edcia triste demais, a morte do maestro Cid Guez, que eu conheci ainda menino, j\u00e1 encantando a todos com sua compet\u00eancia no teclado e que embalou gera\u00e7\u00f5es e semeou o amor \u00e0 m\u00fasica ao longo de seus 74 anos. Como o hom\u00f4nimo El Cid, se comparava aos grandes e foi fiel \u00e0 sua terra. E como o pianista de Polanski, sobreviveu ao massacre contando apenas com sua arte. Percorreu um longo caminho e foi-se neste inverno tardio, levando de volta para a origem a mestria que nos encanta e o esp\u00edrito que nos abra\u00e7a.<\/p>\n<p>Em 2005, quando voltei a Uruguaiana, reencontrei o maestro. Foi uma alegria ver na ativa um mito da minha mocidade, um talento que sempre admirei. E me perguntava: por que n\u00e3o gravou mil discos, porque n\u00e3o foi at\u00e9 os confins do mundo para ser celebrado? Esse \u00e9 o mist\u00e9rio que Cid Guez leva com ele, esse desprendimento.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o se ajoelhou diante da indiferen\u00e7a e da brutalidade do tempo. Certo de sua identidade, exerceu mais de uma arte, sempre com a mesma compet\u00eancia, se mantendo firme, sem se desviar do seu caminho. Cid Guez dedilhou a m\u00fasica que fica em n\u00f3s como um sinal, um brilho no escuro, para que possamos voltar a esse lugar perdido, a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada originalmente no jornal Momento de Uruguaiana<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Um os meus filmes favoritos \u00e9 &#8220;El Cid&#8221; (1961), de William Wyler, com Charlton Heston e Sophia Loren. Duas cenas s\u00e3o marcantes. 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