{"id":2212,"date":"2010-08-01T21:38:44","date_gmt":"2010-08-02T00:38:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2212"},"modified":"2010-08-01T21:38:44","modified_gmt":"2010-08-02T00:38:44","slug":"o-copy-de-250-mil-dolares-cinema-e-texto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-copy-de-250-mil-dolares-cinema-e-texto","title":{"rendered":"O COPY DE 250 MIL D\u00d3LARES: CINEMA \u00c9 TEXTO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Copidescar 600 p\u00e1ginas em duas semanas ao pre\u00e7o de 250 mil d\u00f3lares \u00e9 uma pedreira tentadora que coloca o escritor contra a parede no recente The Ghost Writer (2010), de Roman Polanski. O craque das letrinhas foi convidado pela sua not\u00f3ria per\u00edcia em tirar leite de pedra, ou seja, transformar biografias med\u00edocres de vidas famosas em sagas liter\u00e1rias de sucesso.<\/p>\n<p>Neste caso, trata-se da autobiografia de um ex-primeiro ministro brit\u00e2nico, um Tony Blair gen\u00e9rico, que pretende, com o livro, intensificar seu marketing depois de deixar o cargo, um projeto que balan\u00e7a quando \u00e9 acusado de crimes de guerra \u2013 teria entregue para a tortura da CIA cidad\u00e3os brit\u00e2nicos identificados como guerrilheiros afeg\u00e3os (um deles \u00e9 morto em fun\u00e7\u00e3o da pris\u00e3o ilegal).<\/p>\n<p>H\u00e1 in\u00fameros interesses em jogo, al\u00e9m dos pol\u00edticos. Principalmente da editora, poderosa, novaiorquina, que precisa de resultados (vendas), e tem pressa, j\u00e1 que foram investidos 10 milh\u00f5es de d\u00f3lares no lan\u00e7amento. H\u00e1 grande risco de tudo ir para o ralo, pois o autor do manuscrito (considerado mal feito) aparece morto, afogado, na praia de uma ilha perto de Nova York, onde tinha sido confinado para fazer o livro. O pior \u00e9 que o afogamento est\u00e1 cercado de suspeitas sobre um poss\u00edvel assassinato, apesar de o caso ter sido engavetado apressadamente pela pol\u00edcia. Os editores precisam de algu\u00e9m brilhante, e r\u00e1pido. Um copydesk de luxo.<\/p>\n<p>H\u00e1 interesse tamb\u00e9m dos assessores que cuidam da sobreviv\u00eancia f\u00edsica e pol\u00edtica do chefe. E de for\u00e7as ocultas, que agem o tempo todo nos bastidores, enchendo o filme de mist\u00e9rio e suspense, manipulados com maestria pelo cara que j\u00e1 nos assustou bastante ao longo de sua magn\u00edfica carreira de cineasta.<\/p>\n<p>Polanski trabalha como Edgar Alan Poe no conto c\u00e9lebre em que a mensagem secreta s\u00f3 se revela quando o pergaminho \u00e9 aproximado do fogo, fazendo aparecer o texto oculto nas entrelinhas da mensagem oficial. N\u00e3o \u00e9 apenas o desfecho que encerra uma surpresa, mas a narrativa inteira. Toda certeza projeta sua sombra ou \u00e9 resultado dela. O pr\u00f3prio ex-primeiro ministro (interpretado por Pierce Brosnan) \u00e9 uma sombra de si mesmo. O verdadeiro ghost-writer, que aparece morto, que n\u00e3o tem rosto no filme, vira fantasma antes de terminar o trabalho. O copydesk (Ewan McGregor) \u00e9 tamb\u00e9m um fantasma, que jamais aparece, pois seu texto est\u00e1 a servi\u00e7o dos outros. N\u00e3o \u00e9 um escritor de verdade, como lhe diz a esposa do chefe, por sua vez uma apagada personagem de bastidores, confidente e orientadora da carreira pol\u00edtica do marido.<\/p>\n<p>Todos os personagens obedecem a essa l\u00f3gica de um cen\u00e1rio palmilhado apenas por esp\u00edritos que andam. O ex-amigo dos tempos da universidade n\u00e3o \u00e9 apenas um professor em\u00e9rito especializado em democracia. Os empregados coreanos da mans\u00e3o oculta na neblina ficam atr\u00e1s das portas e deslizam pelos pisos de salas enormes e vazias. A chefe de seguran\u00e7a \u00e9 a amante n\u00e3o assumida do patr\u00e3o poderoso e convive com as alfinetadas da sua concorrente, a mulher oficial.<\/p>\n<p>Mas o fantasma mais assustador \u00e9 Eli Walach no papel do velho e solit\u00e1rio morador que tem boas informa\u00e7\u00f5es no caminho da investiga\u00e7\u00e3o do crime. Aos 95 anos, o ator secular e inesquec\u00edvel faz uma ponta magn\u00edfica, encarregando-se de grandes frases, como esta: \u201cN\u00e3o tenho mais idade para perder tempo com a pol\u00edcia\u201d. O script, de autoria de Robert Harris, super bem trabalhado, tem sacadas hil\u00e1rias como a do acusador tranq\u00fcilizando o copy de que n\u00e3o ser\u00e1 assasinado, j\u00e1 que seu antecessor j\u00e1 teve esse destino: \u201cEles n\u00e3o podem afog\u00e1-los como se fossem gatinhos\u201d, diz.<\/p>\n<p>O filme \u00e9 texto. Personagens escritos para aparecer de determinada forma se revelam opostos quando iluminados por uma leitura livre. Isso n\u00e3o significa que a narrativa se enreda em pormenores f\u00fateis de falsos suspenses. Como se trata de uma investiga\u00e7\u00e3o de crimes, \u00e9 preciso que a \u00e9tica esteja sempre presente e de maneira transparente, Por mais amea\u00e7ado que esteja o escritor, ele sempre diz o que est\u00e1 fazendo. Quando mente, \u00e9 pego em flagrante.<\/p>\n<p>\u00c9 da ess\u00eancia da profiss\u00e3o. Voc\u00ea n\u00e3o pode mentir, sob pena de perder o contato com sua arte. Mas neste mundo mau, todos mentem, inclusive ou principalmente quem escreve. A n\u00e3o ser que o autor consiga enfrentar o pesadelo usando seus c\u00f3digos para difundir a den\u00fancia. Mas cuidado, que h\u00e1 um carro parado logo ali adiante e ele pode acelerar assim, de repente, e vir com tudo. Ou algu\u00e9m atr\u00e1s de uma coluna pronto a empurrar o perguntador no meio das ondas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Copidescar 600 p\u00e1ginas em duas semanas ao pre\u00e7o de 250 mil d\u00f3lares \u00e9 uma pedreira tentadora que coloca o escritor contra a parede no recente The Ghost Writer (2010), de Roman Polanski. 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