{"id":2214,"date":"2010-08-01T21:40:05","date_gmt":"2010-08-02T00:40:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2214"},"modified":"2010-08-01T21:40:05","modified_gmt":"2010-08-02T00:40:05","slug":"a-volta-do-submarino-amarelo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-volta-do-submarino-amarelo","title":{"rendered":"A VOLTA DO SUBMARINO AMARELO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 vedado a qualquer cidad\u00e3o o direito de ignorar <strong>The Yellow Submarine <\/strong>(1968), dirigido por George Dunning e escrito por Lee Minoff. N\u00e3o \u00e9 permitida para pessoa alguma a justificativa de que ainda n\u00e3o assistiu ou que viu e esqueceu. N\u00e3o porque haja alguma lei escrita para assistir compulsoriamente esse filme, mas porque ele extrapola o status reconhecido de obra-prima da anima\u00e7\u00e3o, da arte e da narrativa. Ele \u00e9 mais: permanece \u00e0 margem do tempo, l\u00e1 onde os rel\u00f3gios se estabilizam, com recados decisivos sobre a cultura contempor\u00e2nea e profecias que se concretizam ao nosso redor.<\/p>\n<p>Como as pessoas v\u00eaem uma ou mais vezes e depois conservam na mem\u00f3ria, \u00e9 mais pr\u00e1tico pegar a narrativa na seq\u00fc\u00eancia em que \u00e9 apresentada, para podermos decifrar seus des\u00edgnios, j\u00e1 que desfrutamos da vantagem de termos sobrevivido (em termos) ao massacre vitorioso do Mal, t\u00e3o bem definido nessa viagem que os quatro Beatles empreendem, orientados pelo capit\u00e3o Pimenta, e acompanhados pelo Homem de Nenhum Lugar, aos confins da mente subjugada e dos sentidos inutilizados pela barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>O filme come\u00e7a com a inutilidade da vida urbana, composta de pessoas solit\u00e1rias (look all this lonely people, como nos diz Paul Macartney na can\u00e7\u00e3o primorosa). O simbolo dessa humanidade que mora numa cidade cinza, a Liverpool industrial, \u00e9 Eleanor Rigby, que morreu na igreja e n\u00e3o teve ningu\u00e9m assistindo ao seu funeral. O pr\u00f3prio Padre McKenzie, que tamb\u00e9m \u00e9 um cidad\u00e3o isolado, limpa as m\u00e3os sujas de terra depois do enterro e se recolhe.<\/p>\n<p>Nesse ambiente onde nada acontece, vaga a figura naif, ing\u00eanua, de Ringo Star, um suicida em potencial que \u00e9 salvo por seu humor corrosivo (\u201cpoderia me atirar no rio, mas parece que vai chover\u201d). Ringo se dirige ao seu reduto art\u00edstico e pessoal, um casar\u00e3o onde mora com os companheiros e que representa a liberdade da cria\u00e7\u00e3o e do pensamento. Mas antes de chegar l\u00e1, \u00e9 perseguido por um submarino amarelo, que vaga pelas ruas seguindo seus passos e n\u00e3o \u00e9 visto por mais ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Ringo foi escolhido pelo capit\u00e3o Pimenta, que dirige a nave, pelo que ele representa: por ser o \u00fanico que se aventura fora da mans\u00e3o, exp\u00f5e sua mente aberta \u00e0 esperan\u00e7a de que algo possa mudar no mundo real, enquanto os outros tr\u00eas se confinam num lugar onde se concentram todos os elementos culturais tradicionais e de vanguarda. Paul se identifica com o bom-mocismo, John com a transgress\u00e3o (fantasia-se de Frankestein) e George com a cultura oriental. \u00c9 Ringo que introduz a encrenca para dentro de casa e que envolve os outros na miss\u00e3o urgente convocada pelo velho marujo.<\/p>\n<p>Todos os que viram o filme sabem do que se trata: uma viagem aos confins da mente, l\u00e1 onde existe uma terra, a Pepperland, que foi dominada pelo Mal, representada pelos Blue Meanings, que numa tradu\u00e7\u00e3o livre podem ser identificados como as Mentaliza\u00e7\u00f5es do Mesmo. Na terra da pimenta, que significa o sabor da m\u00fasica, da cultura, da sensibilidade e do amor, os bandidos jogam ma\u00e7\u00e3s verdes (a sedu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se completa, n\u00e3o amadurece, n\u00e3o cumpre seu destino) sobre as pessoas e as reduzem \u00e0 imobilidade e ao engessamento espiritual e f\u00edsico.<\/p>\n<p>A tristeza toma conta de tudo, gente e paisagem, enquanto a retreta, a banda dos cora\u00e7\u00f5es solit\u00e1rios do Sargento Pepper, mant\u00e9m-se sem som numa redoma de vidro inquebr\u00e1vel. Haveria, no universo cinematogr\u00e1fico, algo mais representativo da situa\u00e7\u00e3o em que vivemos hoje? Os c\u00e3es azuis e ferozes s\u00e3o o baticum que atacam os m\u00fasicos e fazem a ronda carn\u00edvora ao redor dos instrumentos, jogados a c\u00e9u aberto para apodrecer. O resultado \u00e9 a repress\u00e3o, o mutismo, a surdez e a l\u00e1grima. \u00c9 como estamos hoje.<\/p>\n<p>Os rapazes de Liverpool s\u00e3o, significativamente, clones dos membros da banda derrotada. \u00c9 preciso que as novas gera\u00e7\u00f5es assumam a tradi\u00e7\u00e3o para libert\u00e1-la do Mal que tomou conta de tudo. \u00c9 preciso resgatar aquele som antigo, aquele n\u00famero conhecido por todos e que sempre funciona e coloc\u00e1-lo numa nova roupagem musical. A farda espalhafatosa e fora de moda vestida pelos Beatles \u00e9 esse gesto de assumir o passado para super\u00e1-lo, j\u00e1 que jamais ser\u00e3o os mesmos de antigamente, mas uma novidade cevada no sabor da tradi\u00e7\u00e3o e na ousadia das experimenta\u00e7\u00f5es. De Rimsky-Korsacov a Stravinski, da retreta \u00e0 orquestra, da can\u00e7\u00e3o \u00e1 sinfonia, da melodia \u00e0 atonalidade, do dobrado ao rock. \u00c9 o que s\u00e3o os Beatles, alegria e orgulho de nossas vidas.<\/p>\n<p>Pode ser acusado de ingenuidade a solu\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica de atacar o mal com can\u00e7\u00f5es de amor ou hits deslumbrantes de instrumentos revigorados. Mas para quem, como n\u00f3s, j\u00e1 experimentou de tudo, do velho ao novo socialismo, do capitalismo metido a \u00e9tico ao capitalismo bruto, das utopias renegadas e desmoralizadas, n\u00e3o tem como escapar. Est\u00e1 tudo na mente, avisa George. Ou mudamos o modo de pensar e sentir, conectando-nos com o acervo cultural eterno da humanidade, e interferindo nele, ou continuaremos como os cidad\u00e3os im\u00f3veis de Pepperland, a servi\u00e7o dos jogadores de ma\u00e7\u00e3 verde, dos guardas truculentos, do chef\u00e3o psicopata e dos c\u00e3es devoradores.<\/p>\n<p>A tecnologia do dvd nos permite parar por alguns momentos em detalhes. Na viagem do tempo dentro do submarino, o ano mais long\u00ednquo que aparece \u00e9 2009. Nossa \u00e9poca \u00e9 a do Nowhere Man. Somos de nenhum lugar e acumulamos conhecimentos in\u00fateis. Escrevemos e lemos sem parar e queremos participar de todos os jogais mentais da cultura sem sentido. Estamos abandonados no lugar nenhum. Mas eis que surgem os artistas que vieram nos salvar. \u00c9 Ringo, sempre ele, que se sensibiliza pela solid\u00e3o do homem que n\u00e3o sabe o que fazer com o que sabe. E lhe d\u00e1 guarida e um motivo para continuar vivendo.<\/p>\n<p>\u00c9 esse personagem, n\u00f3s, que est\u00e1 acorrentado \u00e0 cadeira do chefe dos Blue Meanings. Somos os ultimo reduto onde a vit\u00f3ria do Bem pode ser alcan\u00e7ada. Mesmo que tudo ao redor volte \u00e0 vida, \u00e9 dentro de n\u00f3s que se dar\u00e1 a batalha final. Mas os bandidos acabam assumindo o colorido que veio para repor as coisas no lugar. Sabemos o desfecho: eles clonaram a revolu\u00e7\u00e3o e usaram de todo o seu poder para impor novamente o cinza fantasiado de azul, a tristeza no mundo escravo.<\/p>\n<p>A apari\u00e7\u00e3o no quarteto no final, \u201cfora\u201d do filme, \u00e9 fundamental para entendermos o recado. John v\u00ea Blue Meanings ao redor dos espectadores e diz que s\u00f3 h\u00e1 um jeito de escapar: cantando. Mas cantando o qu\u00ea? Uma can\u00e7\u00e3o que fala do alfabeto e dos n\u00fameros b\u00e1sicos. Um, dois, tr\u00eas, a,b,c. Dominando os fundamentos da linguagem, \u00e9 poss\u00edvel, por exemplo, modificar a luva dedo-duro, usar suas letras (glove) para formar outra realidade (love). Ou seja, precisamos dos fundamentos da palavra, da ci\u00eancia e da cultura para enfrentarmos o f\u00f4lego do Mal, que est\u00e1 sempre presente. A teoria da relatividade, a lingu\u00edstica, a meta-poesia (que est\u00e1 presente em todos os di\u00e1logos), tudo conflui para uma postura libert\u00e1ria profunda. N\u00e3o adianta espernear, sentir saudade ou lamentar. A luta \u00e9 sempre aqui e agora.<\/p>\n<p>All together now.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s \u00c9 vedado a qualquer cidad\u00e3o o direito de ignorar The Yellow Submarine (1968), dirigido por George Dunning e escrito por Lee Minoff. N\u00e3o \u00e9 permitida para pessoa alguma a justificativa de que ainda n\u00e3o assistiu ou que viu e esqueceu. N\u00e3o porque haja alguma lei escrita para assistir compulsoriamente esse filme, mas porque [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2214"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2214"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2214\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2215,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2214\/revisions\/2215"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2214"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2214"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2214"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}