{"id":2216,"date":"2010-08-01T21:41:43","date_gmt":"2010-08-02T00:41:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2216"},"modified":"2010-08-01T21:41:43","modified_gmt":"2010-08-02T00:41:43","slug":"l%c2%b4heure-de-lete-a-dispersao-da-memoria","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/l%c2%b4heure-de-lete-a-dispersao-da-memoria","title":{"rendered":"L\u00b4HEURE DE L&#8217;\u00c9T\u00c9: A DISPERS\u00c3O DA MEM\u00d3RIA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Hor\u00e1rio de ver\u00e3o \u00e9 uma id\u00e9ia de Benjamin Franklin, proposta no s\u00e9culo 18, que acabou migrando para a Europa no in\u00edcio do s\u00e9culo 20 e sendo adotado de maneira definitiva por alguns pa\u00edses a partir do primeiro choque de petr\u00f3leo em 1973, quando economizar energia virou obriga\u00e7\u00e3o. H\u00e1 quem conteste esse recurso, que conhecemos bem. N\u00e3o foi sem muita pol\u00eamica que ele virou lei na Fran\u00e7a, onde se passa o filme L\u00b4heure de l&#8217;\u00e9t\u00e9 (2007), de Olivier Assayas, e que os americanos traduziram equivocadamente para Summer Hours.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de horas passadas no ver\u00e3o por uma fam\u00edlia, reunida para homenagear a matriarca (interpretada por Edith Scob) numa casa que \u00e9 um acervo de arte em todas as pe\u00e7as, dos vasos \u00e0s x\u00edcaras, dos quadros na parede ao gesso quebrado de Degas, dos arm\u00e1rios \u00e0 escrivaninha. Mas \u00e9 sobre o tempo e sua dispers\u00e3o, representado pela manipula\u00e7\u00e3o dos rel\u00f3gios, quando aparentemente se \u201cperde uma hora de sono\u201d no ver\u00e3o, como dizem os que reclamam, e se ganha outra hora no inverno, quando os ponteiros voltam ao normal.<\/p>\n<p>Assim, em vez de um dejeuner sur l\u00b4herbe, um pic-nic familiar cheio de conflitos, como querem os americanos, se trata de o momento terminal de uma civiliza\u00e7\u00e3o, a francesa, pressionada pela globaliza\u00e7\u00e3o, pela burocracia, pela indiferen\u00e7a, pelo rompimento dos la\u00e7os familiares e a destrui\u00e7\u00e3o e dispers\u00e3o dos rastros e vest\u00edgios. Todos tem culpa no cart\u00f3rio, a come\u00e7ar pela m\u00e3e, que n\u00e3o se debru\u00e7a sobre a vida do filho economista, n\u00e3o l\u00ea seu livro e ignora que ele d\u00ea aula na universidade. Ela se concentra apenas no acervo art\u00edstico da sua casa, heran\u00e7a de um amor proibido com o cunhado, artista brilhante que deixou vasto material cobi\u00e7ado por museus e colecionadores.<\/p>\n<p>Os filhos tamb\u00e9m fazem parte dessa destrui\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria. O pr\u00f3prio economista (interpretado por Charles Berling), que se desespera com seu livro onde denuncia a barb\u00e1rie da economia global (pois ningu\u00e9m prestar\u00e1 aten\u00e7\u00e3o) e que vive afastado da fam\u00edlia. O outro rebento da matriarca (interpretado por J\u00e9r\u00e9mie Renier ) foi trabalhar na China e levou mulher e filhos. Achava que ficaria algum tempo, mas descobre que sua mudan\u00e7a \u00e9 definitiva. Ele \u00e9 empregado de multinacional fabricante de t\u00eanis que usa a m\u00e3o-de-obra barata (escrava) para a tal competitividade e acaba rompendo com a sua nacionalidade. Ele deixa de ser um cidad\u00e3o franc\u00eas para se tornar um h\u00edbrido sem ra\u00edzes.<\/p>\n<p>E h\u00e1 Juliette Binoche no papel da designer, a \u00fanica que herdou o talento art\u00edstico do tio, e que cria utens\u00edlios para o novo-riquismo da economia predat\u00f3ria. Vemos assim que o esgar\u00e7amento das rela\u00e7\u00f5es e la\u00e7os sociais e familiares est\u00e1 vinculado \u00e0 situa\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio e ind\u00fastria mundial sob o jugo da ditadura financeira, que a tudo reduz a p\u00f3. O desfecho \u00e9 a tristeza provocada pela venda da casa e da divis\u00e3o das pe\u00e7as valiosas que existiam dentro dela e tinham uma fun\u00e7\u00e3o. Ao irem para o museu e cole\u00e7\u00f5es, \u00e9 como se estivessem numa pris\u00e3o, diz o economista, que n\u00e3o queria fazer a venda e lutou em v\u00e3o por manter o lugar intacto.<\/p>\n<p>Mas todos precisam de dinheiro e n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda. O tempo ganho com a curadoria da m\u00e3e perde-se no momento do seu funeral. \u00c9 quando todos acordam para o quanto poder\u00e3o ganhar comercializando as pe\u00e7as e a casa. Para isso \u00e9 necess\u00e1rio driblar a press\u00e3o do governo franc\u00eas, que cobra altos impostos por heran\u00e7as lapidadas e n\u00e3o permite que cole\u00e7\u00f5es consideradas de interesse nacional saiam do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Quem herda esse caos s\u00e3o a novas gera\u00e7\u00f5es, reunidas numa festa terminal na casa agora vazia. Longe dos bons momentos de f\u00e9rias que passaram na inf\u00e2ncia no territ\u00f3rio dos seus ancestrais, eles representam a dispers\u00e3o semeada pelos pais e av\u00f3s. O tempo cobrou a conta de quem se deixou levar pelas apar\u00eancias e necessidades de uma \u00e9poca que faz tabula rasa da cultura e da identidade das na\u00e7\u00f5es. Por ser a Fran\u00e7a, o pa\u00eds que mais tenta se manter inteiro no redemoinho da economia predat\u00f3ria, o filme ganha dimens\u00e3o e for\u00e7a. Se na Fran\u00e7a est\u00e1 assim o que nos resta?<\/p>\n<p>Sabemos onde nos situamos: no fundo do po\u00e7o da barb\u00e1rie. Tudo virou ru\u00ednas no Brasil que um dia foi na\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o vamos falar disso. D\u00f3i demais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Hor\u00e1rio de ver\u00e3o \u00e9 uma id\u00e9ia de Benjamin Franklin, proposta no s\u00e9culo 18, que acabou migrando para a Europa no in\u00edcio do s\u00e9culo 20 e sendo adotado de maneira definitiva por alguns pa\u00edses a partir do primeiro choque de petr\u00f3leo em 1973, quando economizar energia virou obriga\u00e7\u00e3o. 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