{"id":2219,"date":"2010-08-01T21:50:14","date_gmt":"2010-08-02T00:50:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2219"},"modified":"2010-08-01T21:50:14","modified_gmt":"2010-08-02T00:50:14","slug":"o-%e2%80%9cpagador-de-promessas%e2%80%9d-argentino","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-%e2%80%9cpagador-de-promessas%e2%80%9d-argentino","title":{"rendered":"O \u201cPAGADOR DE PROMESSAS\u201d ARGENTINO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O filme \u201cO Caminho de San Diego\u201d (de Carlos Sorin, 2006) \u00e9 \u201cO Pagador de Promessas\u201d (de Anselmo Duarte, 1962) argentino. H\u00e1 diferen\u00e7as radicais entre os dois filmes, mas os pontos em comum s\u00e3o in\u00fameros. Come\u00e7a que a principal diferen\u00e7a \u00e9 sua grande semelhan\u00e7a: enquanto Anselmo reporta a chegada do devoto \u00e0s portas fechadas da Igreja de Santa B\u00e1rbara, Sorin refaz toda a saga at\u00e9 as portas fechadas do clube onde est\u00e1 \u201cS\u00e3o Diego\u201d (Maradona). \u00c9 uma quest\u00e3o de foco: o brasileiro preferiu contar o desenlace, tr\u00e1gico, enquanto o argentino focou na peregrina\u00e7\u00e3o, solid\u00e1ria ( povo argentino apresentado em toda sua escassez, ingenuidade e f\u00e9).<\/p>\n<p>A \u201ccruz\u201d de Benitez, o fan\u00e1tico pelo n\u00famero 10 da sele\u00e7\u00e3o argentina, \u00e9 uma est\u00e1tua do \u00eddolo, que ele esculpiu numa raiz de timb\u00f3, desencavada por uma tempestade na remota selva de Misiones, no norte do pa\u00eds. N\u00e3o \u00e9 pesada como a do Z\u00e9 do Burro, mas obedece ao mesmo quebranto: as duas cruzes est\u00e3o relacionadas com a cura. Uma, do animal que presta servi\u00e7os ao fiel e que por pouco n\u00e3o morreu, e a outra, do ex-jogador que pode morrer por insufici\u00eancia card\u00edaca.<\/p>\n<p>O pedido de cura \u00e9 feito para os santos pag\u00e3os. A santa pag\u00e3 de Anselmo \u00e9 Ians\u00e3, equivalente de Santa B\u00e1rbara, enquanto o santo pag\u00e3o de Sorin \u00e9 Gauchito Gil, equivalente de Maradona. Benitez p\u00f5e a m\u00e3o na cabe\u00e7a de Guachito e pede a cura de Maradona. Quando o \u00eddolo foge da cl\u00ednica para ir at\u00e9 o campo de gole, sinal evidente de melhora, os caminh\u00f5es na estrada buzinam sem parar. Assim, o filme argentino faz uma liga\u00e7\u00e3o com a cren\u00e7a de que se deve buzinar quando se passa em frente ao santu\u00e1rio de Gauchito, para que a viagem siga em frente sem problemas.<\/p>\n<p>Mas acontece uma complica\u00e7\u00e3o na trajet\u00f3ria. O caminh\u00e3o do brasileiro que leva Benitez precisa parar diante de um bloqueio provocado por trabalhadores de um curtume que vai fechar. S\u00f3 mostrando a est\u00e1tua de Maradona foi poss\u00edvel convencer os l\u00edderes de que poderiam passar. Esse epis\u00f3dio significa que agora fica livre o caminho para que Diego possa se recuperar e continuar vivo, eterno, como dizem ao longo da narrativa. \u00c9 o povo que tranca a estrada por press\u00e3o econ\u00f4mica e a libera por necessidade de transcend\u00eancia (a santidade representando a supera\u00e7\u00e3o das dificuldades)<\/p>\n<p>Carlos Sorin tirou toda a carga pesada que Anselmo Duarte colocou no seu filme, baseado em pe\u00e7a de dias Gomes. Benitez encontra apoio por onde v\u00e1, n\u00e3o s\u00f3 dos seus irm\u00e3os argentinos, mas tamb\u00e9m do motorista brasileiro. E quando consegue colocar sua cruz nas m\u00e3os de San Diego, recupera a esperan\u00e7a, representada pelo bilhete de loteria que recebe de gra\u00e7a de um cego ajudado por ele. Mas nem por isso o filme argentino deixa de ser, como o Pagador brasileiro, uma den\u00fancia social pesada.<\/p>\n<p>O povo despossu\u00eddo \u00e9 representado por Benitez, desempregado de uma empresa que corta madeira na selva. Ele n\u00e3o tem um tost\u00e3o, precisa sustentar mulher e tr\u00eas filhos, mora num casebre, n\u00e3o sabe ler nem escrever. Esculpe a est\u00e1tua com ajuda de um velho \u00edndio artes\u00e3o, porque viu na madeira derrubada do timb\u00f3 um gesto caracter\u00edstico de Diego. Uma cena importante \u00e9 a do seu di\u00e1logo com o padre que trabalha na pobre regi\u00e3o missioneira. O cura decifra a miss\u00e3o de Benitez, explicando que ele viu o que desejava ver e foi agraciado pela sorte de ter encontrado a raiz t\u00e3o parecida com Diego porque sua f\u00e9 o levou a isso.<\/p>\n<p>Bem diferente do padre de O Pagador, que fecha as portas da Igreja e acaba tendo de engolir a press\u00e3o popular, que colocou Z\u00e9 do Burro, com cruz e tudo, dentro do templo de Santa B\u00e1rbara.<\/p>\n<p>Benitez n\u00e3o correu o mesmo risco de Z\u00e9 do Burro, que foi pagar sua promessa junto com a mulher. A fam\u00edlia do argentino fica em casa e ele assim est\u00e1 imune a ataques a seus parentes pr\u00f3ximos na jornada que decide empreender pela cruz geogr\u00e1fica do seu pa\u00eds. Seu contato com a prostituta \u00e9 light, ao contr\u00e1rio da do brasileiro, que se envolve com a prostitua, o gigol\u00f4 e o jornalista sem escr\u00fapulos. A m\u00eddia, em Sorin, ocupa um lugar importante, reportando o que se passa com Maradona ao longo do filme. Mas n\u00e3o prejudica Bentiez, como acontece no filme de Anselmo.<\/p>\n<p>S\u00e3o muitas identifica\u00e7\u00f5es, que saltam aos olhos. O Pagador de Promessas \u00e9 uma obra-prima. O de Sorin, um grande filme, dessa safra admir\u00e1vel do melhor cinema do mundo atualmente. Os argentinos fazem filmes ruins tamb\u00e9m, mas disso prefiro n\u00e3o falar. Quem quiser ver Plata Quemada, de Marcelo Pin\u00f1eyro, que veja, mas depois n\u00e3o diga que eu n\u00e3o avisei. Eu desisti nos primeiros 15 minutos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s O filme \u201cO Caminho de San Diego\u201d (de Carlos Sorin, 2006) \u00e9 \u201cO Pagador de Promessas\u201d (de Anselmo Duarte, 1962) argentino. H\u00e1 diferen\u00e7as radicais entre os dois filmes, mas os pontos em comum s\u00e3o in\u00fameros. 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