{"id":222,"date":"2005-05-29T23:17:28","date_gmt":"2005-05-30T01:17:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=222"},"modified":"2009-12-21T11:09:08","modified_gmt":"2009-12-21T13:09:08","slug":"duas-viagens-e-uma-carta","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/duas-viagens-e-uma-carta","title":{"rendered":"DUAS VIAGENS E UMA CARTA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Lembrei de ti, m\u00e3e, quando vi\u00a0<strong>Di\u00e1rios de Motocicleta<\/strong>, de Walter Salles. Tu que me protegeste quando cruzei o inverno da minha vida na fronteira com a Argentina, sofrendo ataques c\u00edclicos de asma.\u00a0Na mesma \u00e9poca em que eu delirava sem poder respirar algu\u00e9m tinha cruzado o Amazonas a nado para impor-se aos limites da doen\u00e7a e tornar-se o Che. Foi tamb\u00e9m por isso que viajei 17 anos depois dessa cruzada de Ernesto e seu amigo Granado, m\u00e3e, quando me viste sujo e de mochila na tua porta. Foi para me curar, m\u00e3e, do sufoco de todas as fronteiras e por isso me atirei na \u00e1gua do meu destino.<\/p>\n<p><strong>PASSAGEM<\/strong> &#8211; Teu filho morreu naquela viagem, m\u00e3e, e sabias disso. Sabias e ent\u00e3o colocavas a m\u00e3o no rosto e apoiavas toda a tua imensa nostalgia, tu que adorava ler no inverno, embaixo de cobertores e sobre travesseiros enormes e macios, com teus \u00f3culos grossos, tuas duas pintas no rosto, teu olhar long\u00ednquo. O que chamam de rito de passagem \u00e9 no fundo uma viagem \u00e0 dire\u00e7\u00e3o \u00e0 morte. N\u00e3o suportamos mais a casca e ent\u00e3o conseguimos aquele amigo mais louco que n\u00f3s, enchemos a motocicleta com nossas tralhas e partimos &#8211; s\u00f3 que partimos de caminh\u00e3o, porque s\u00f3 os caminh\u00f5es param na estrada para recolher os vagabundos, os poetas, os vision\u00e1rios, os meninos que querem crescer logo e por isso atiram-se \u00e0 sua irresponsabilidade com a gana dos profetas. E viajamos rumo ao Rio, rumo ao Brasil. L\u00e1, carreg\u00e1vamos como um duro fardo nossos grossos coturnos de milico (id\u00e9ia do Marco Celso, esse louco), nossas blusas de l\u00e3, nossas campeiras, para ver pela primeira vez as montanhas azuis na face serena daquele entalhador do Nordeste que nos acolheu em Ipanema, em plena Farme de Amoedo, e que se chamava Z\u00e9 Barbosa. Fomos em dire\u00e7\u00e3o ao ver\u00e3o, pois era julho de 1969 e o frio estava de matar. Com o Che e seu amigo Granado n\u00e3o foi diferente. Eles sa\u00edram de suas cascas, da sua civilizada Buenos Aires, assim como sa\u00edmos da Porto Alegre universit\u00e1ria que tinha explodido em 68. N\u00e3o quer\u00edamos mais a faculdade, m\u00e3e, porque havia uma vida intensa l\u00e1 fora e a gente precisava encontrar a vida que nos era negada pelo AI-5. Deixamos a faculdade, e quem trabalhava tamb\u00e9m deixou o emprego para tr\u00e1s. Chegamos sempre ao anoitecer, diante da luz sinistra das cidades e encontramos o drama do Brasil.<\/p>\n<p><strong>MILAGRE<\/strong> &#8211; H\u00e1 algo de milagroso desse filme, m\u00e3e, que n\u00e3o ganhou nenhum pr\u00eamio em Cannes porque se op\u00f5e a toda a frescurada cinematogr\u00e1fica sintetizada pela presen\u00e7a desse imbecil do Quentin Tarantino na presid\u00eancia do j\u00fari. \u00c9 um filme sobre a Am\u00e9rica Latina onde n\u00e3o aparece, em nenhum momento, o Brasil. O Brasil \u00e9 quem se debru\u00e7a sobre essa Am\u00e9rica hisp\u00e2nica dividida, que n\u00e3o teve a nossa sorte de ficar unida. Somos, o pa\u00eds-continente, o sonho de todos esses revolucion\u00e1rios de l\u00edngua espanhola na Am\u00e9rica, que queriam uma s\u00f3 na\u00e7\u00e3o e conseguiram uma infinidade de rep\u00fablicas. Esse filme \u00e9 um presente do cinema brasileiro, m\u00e3e, uma homenagem aos nossos irm\u00e3os de territ\u00f3rio. Um abra\u00e7o forte nos argentinos, que tanto implicamos mas que jamais deixaremos de am\u00e1-los, e por meio deles, abra\u00e7amos peruanos, chilenos, bolivianos, colombianos, venezuelanos. Basta ver em cena esses dois atores maravilhosos, Gael Bernal e Rodrigo de la Serna, contracenando com dezenas de talentos inigual\u00e1veis, mulheres, crian\u00e7as, velhos, todos negros, mesti\u00e7os, cheios de cicatrizes, bel\u00edssimos. O rosto de Granado, o verdadeiro, no final do filme, \u00e9 ao desenho desta terra ancestral e sofrida. O Brasil se debru\u00e7a sobre seus irm\u00e3os de fala espanhola e diz: somos iguais, hermanitos, somos voc\u00eas. Lembro de ti, m\u00e3e, reclamando dos tangos que tocavam em casa, pois lembravam tua juventude e n\u00e3o querias sofrer com as lembran\u00e7as. Lembro quando punhas as m\u00e3os no ventre, na hora do almo\u00e7o , e respondia em espanhol a pergunta que te faziam sobre o motivo de colocar tantos filhos no mundo. &#8220;Los saqu\u00e9 de ac\u00e1&#8221; , dizias. Tirei todos daqui. Tiraste da tua vontade de povoar o mundo com a tua bondade.<\/p>\n<p><strong>SALVA\u00c7\u00c3O <\/strong>&#8211; Tu me pegando pela m\u00e3o cal\u00e7ada afora, perguntando para as vizinhas se haveria um milagre para minha asma, j\u00e1 que todas os rem\u00e9dios que tinhas \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o no Centro de Sa\u00fade, onde trabalhavas, n\u00e3o me curavam. Lembro daquela senhora sua amiga, que me trouxe um rem\u00e9dio esp\u00edrita, \u00e0 base de cacha\u00e7a, e que eu s\u00f3 podia tomar uma colher de sopa por dia. N\u00e3o sei se aquele rem\u00e9dio t\u00e3o gostoso ajudou, m\u00e3e, s\u00f3 sei que ao conhecer o mar colocava areia molhada no peito para sarar. Mas sarei foi naquela viagem, m\u00e3e. A viagem que me jogou na verdade, na terra da poesia, a que componho para berrar em pra\u00e7a p\u00fablica e que por tantos anos est\u00e1 assim, meio escondida. Mas basta eu lembrar do teu sorriso, m\u00e3e, do teu elogio diante de um poema feito pelo menino, para eu acreditar novamente que n\u00e3o nascemos em v\u00e3o. Do outro lado do rio, est\u00e1 a nossa salva\u00e7\u00e3o. Temos que atravessar o rio a nado, sem barco perto, com as pessoas gritando para que a gente chegue salvo, como acontece naquela cena do filme do Walter Salles, m\u00e3e, esse cara que veio para nos mergulhar na arte verdadeira, a que chega para ficar. Digam o que disserem os resenhistas sem alma, de que o filme \u00e9 isto ou aquilo. O filme \u00e9 maravilhoso m\u00e3e. Tenho certeza que irias gostar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lembrei de ti, m\u00e3e, quando vi Di\u00e1rios de Motocicleta, de Walter Salles. Tu que me protegeste quando cruzei o inverno da minha vida na fronteira com a Argentina, sofrendo ataques c\u00edclicos de asma. Na mesma \u00e9poca em que eu delirava sem poder respirar algu\u00e9m tinha cruzado o Amazonas a nado para impor-se aos limites da doen\u00e7a e tornar-se o Che.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/222"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=222"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/222\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1567,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/222\/revisions\/1567"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=222"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=222"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=222"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}