{"id":2225,"date":"2010-08-17T15:49:49","date_gmt":"2010-08-17T18:49:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2225"},"modified":"2010-08-17T15:49:49","modified_gmt":"2010-08-17T18:49:49","slug":"le-balon-rouge-cinema-muito-prazer","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/le-balon-rouge-cinema-muito-prazer","title":{"rendered":"LE BALON ROUGE: CINEMA, MUITO PRAZER"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Assisti meu primeiro filme aos cinco anos, mas s\u00f3 fui apresentado \u00e0 S\u00e9tima Arte a\u00ed pelos 12 ou 13, quando um irm\u00e3o marista que corria os col\u00e9gios deu um curso sobre cinema para a gurizada do gin\u00e1sio. Foi quando descobri que os filmes n\u00e3o eram obra dos atores, como eu acreditava, mas dos diretores. E que n\u00e3o importava a leitura moral ou religiosa de um filme, mas sua leitura real, da imagem que aparece na tela e o som que a acompanha. Sim, os maristas eram de vanguarda.<\/p>\n<p>Para provar o que estava revelando para nosso espanto, o professor projetou Le Balon Rouge, a obra-prima de Albert Lamorisse, que ganhou a Palma de Ouro de Cannes em 1956, e o Oscar de melhor roteiro original de 1957, protagonizado pelo seu filho, ent\u00e3o de seis anos, Pascal. Enquanto se sucedia a saga do garoto da velha Paris que foi adotado por um bal\u00e3o vermelho, o professor ia dizendo o significado de cada cena. Era, claro, uma leitura r\u00edgida, em que tudo representava algo transcendente. Mas servia como exemplo.<\/p>\n<p>Lembro que o mote principal era que o menino solit\u00e1rio, criado pela av\u00f3, praticamente \u00f3rf\u00e3o, carregava sua car\u00eancia afetiva pelas ruas, representada pelo grande objeto voador, redondo e vermelho. \u201cNuma sociedade que esbanja conforto\u201d, dizia o professor quando passava o vendedor de travesseiros, \u201co menino luta para que o aceitem, para que o adotem\u201d e enfrenta os garotos maus que querem destruir seu objeto de desejo. Fiquei totalmente impressionado pela coer\u00eancia do que o irm\u00e3o dizia e o que via na tela. Tudo fazia sentido! Foi ali que aprendi talvez a mais valiosa li\u00e7\u00e3o cultural da minha vida.<\/p>\n<p>Com essa base, comecei a \u201cler\u201d o cinema por minha pr\u00f3pria conta e risco. Quando cheguei em Porto Alegre e tomei contato com os grandes cr\u00edticos da \u00e9poca, com Helio Nascimento \u00e0 frente, e depois ledo o pessoal pesado do centro do pa\u00eds, como Ely Azeredo, Alex Viany e Paulo Emilio Salles Gomes, fui radicalizando meu universo cinematogr\u00e1fico, empurrado para a cultura, a arte, a pol\u00edtica e a filosofia. O lazer veio junto, pois sempre fui siderado por aventura e o faroeste, mas s\u00f3 depois ganhou status de pensata, de an\u00e1lise. Vi John Ford com os olhos livres, como programa da sess\u00e3o das quatro, antes de render-me ao culto.<\/p>\n<p>Mas Le Balon Rouge ficou como o be-a-b\u00e1 do cinema. E assim foi considerado na \u00e9poca, adotado nas escolas e com grande repercuss\u00e3o mundial, por ser did\u00e1tico, encantador, maravilhoso e radicalmente a favor da inf\u00e2ncia, da sensibilidade e da grandeza humana. Todos n\u00f3s somos aquele garoto que \u00e9 perseguido pelo bal\u00e3o e briga por ele contra o predadores. Hoje, revendo essa beleza de filme, noto o \u00f3bvio: que em toda a trajet\u00f3ria da fuga do menino para salvar seu bal\u00e3o escorra\u00e7ado pelas gangs, professores, guardas, condutores de bonde e adultos em geral, surgem nos muros e paredes os cartazes anunciando grandes filmes.<\/p>\n<p>Dois se destacam: O Cangaceiro, de Lima Barreto, com Vanja Orico, dizem as letras garrafais. E outro com Alan Ladd e Virginia Mayo. Sim, como digo sempre, todo filme \u00e9 sobre cinema. O roteiro do menino pelas ruas de Paris est\u00e1 todo balizado pelos filmes cults. A met\u00e1fora \u00e9 tremenda: o bal\u00e3o enfim \u00e9 destru\u00eddo pelas patas dos garotos maus, mas em revolta todos os bal\u00f5es de Paris acorrem e o levam para o c\u00e9u (numa seq\u00fc\u00eancia que lembra o padre voador, Adelir Antonio de Carli, que em 2008 repetiu o gesto e se foi para sempre \u2013 ser\u00e1 que ele foi marcado pelo mesmo filme e quis repetir aquele momento de liberta\u00e7\u00e3o?).<\/p>\n<p>N\u00e3o lembro a conclus\u00e3o a que chegou meu querido e inesquec\u00edvel professor. Mas deve ser algo relacionado com a vit\u00f3ria da emo\u00e7\u00e3o e da criatividade, transcendendo o mundo sem imagina\u00e7\u00e3o que tentou podar sua necessidade de amar. Ou algo assim.<\/p>\n<p>O que importa \u00e9 ver o que nos dizem os filmes, o que as imagens nos sugerem, qual a id\u00e9ia original que levou o cineasta a compor sua obra e como podemos contribuir com nossa leitura. Larisse era um fot\u00f3grafo conhecido e importante desde os anos 40 e especializou-se em filmes curtos e document\u00e1rios. Morreu dentro de um helic\u00f3ptero quando filmava em Teer\u00e3 um roteiro para os amantes no Ir\u00e3. Oito anos mais tarde o filme interrompido, Le vent des amoureux (1978), foi levado \u00e0s telas pela vi\u00fava e os filhos e indicado a um Oscar.<\/p>\n<p>Foi-se o artista, mas ficou seu filme \u00fanico, maravilhoso, que nos arrebata sempre que o vemos. Ele est\u00e1 cada vez melhor. Continua, para mim, sendo um par\u00e2metro. O abc do cinema.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Assisti meu primeiro filme aos cinco anos, mas s\u00f3 fui apresentado \u00e0 S\u00e9tima Arte a\u00ed pelos 12 ou 13, quando um irm\u00e3o marista que corria os col\u00e9gios deu um curso sobre cinema para a gurizada do gin\u00e1sio. 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