{"id":2232,"date":"2010-08-17T15:55:10","date_gmt":"2010-08-17T18:55:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2232"},"modified":"2010-08-17T15:55:10","modified_gmt":"2010-08-17T18:55:10","slug":"a-hole-in-the-head-altas-esperancas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-hole-in-the-head-altas-esperancas","title":{"rendered":"A HOLE IN THE HEAD: ALTAS ESPERAN\u00c7AS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Arnold Schulman era um cara pretensioso. Escreveu uma pe\u00e7a de seis horas intitulada \u201cMeu violino tem tr\u00eas cordas\u201d e quase morreu de vergonha quando ouviu na estr\u00e9ia um coment\u00e1rio debochado do lend\u00e1rio Noel Coward. Esse susto convenceu-o de que precisava se adaptar. Por isso reescreveu tudo e repassou para Arthur Penn fazer &#8220;The Heart&#8217;s a Forgotten Hotel&#8221;, um especial de TV. Um produtor viu e sugeriu que virasse pe\u00e7a. \u201cMas ela foi escrita para o teatro!\u201d, disse.<\/p>\n<p>Teve de passar uma madrugada refazendo a pe\u00e7a, que foi montada com sucesso. Mas as pessoas gargalhavam nas partes de com\u00e9dia e odiavam as passagens de drama. Ele ent\u00e3o precisou limpar a dor para deixar quase que s\u00f3 o riso. E teve tamb\u00e9m de mudar o t\u00edtulo, considerado anti-comercial. Algu\u00e9m veio com a id\u00e9ia de A Hole in the head, Um buraco na cabe\u00e7a, express\u00e3o \u00eddiche para se referir a algo desnecess\u00e1rio. Onde colocar isso no texto? se perguntou. Mas foi o que fez, para justificar o t\u00edtulo.<\/p>\n<p>Essas concess\u00f5es o amargaram demais. \u201cDeixei de ser um artista para ser apenas um profissional\u201d, disse. \u201cDe repente, com dois filhos na escola privada e os impostos, voc\u00ea acorda tendo de trabalhar num filme\u201d. Mas Frank Capra (e mais tarde Coppola, que o arrastou para o projeto do magn\u00edfico Tucker) salvou-o, convidando-o para usar o material, reescrito novamente, claro. Se deram bem, depois de uma discuss\u00e3o em que o ardoroso Schulman amea\u00e7ou devolver o dinheiro se Capra insistisse numa id\u00e9ia que ele, roteirista, considerava idiota.<\/p>\n<p>\u201cNaquele tempo as pessoas sabiam o que estavam fazendo\u201d, lembra Schulman. \u201cCada um estava no seu lugar e havia respeito m\u00fatuo\u201d. Mas o resultado do filme n\u00e3o o deixou satisfeito. Achou-o excessivamente melodram\u00e1tico. Sabia que pesara a m\u00e3o na emotividade, mas achava que Capra iria cortar. Engano seu. O diretor colocava microfones nos cinemas onde fazia testes de p\u00fablico e gravava as rea\u00e7\u00f5es da plat\u00e9ia. Descobria assim de que riam ou choravam e quanto tempo durava a manifesta\u00e7\u00e3o. Profissional \u00e9 pouco para dizer de todos esses americanos loucos.<\/p>\n<p>Hoje, quando passa A Hole in The Head (que o Brasil teve a ousadia de traduzir para o horrendo Os Vi\u00favos tamb\u00e9m sonham), as pessoas se emocionam e vem comentar com ele, que continua sem entender porque tanto sucesso. N\u00f3s sabemos porque. Primeiro, porque \u00e9 um filme de Capra e seus her\u00f3is em busca do amadurecimento, que tarda pois sempre h\u00e1 algum evento que impede, como notou Harry Hargrave no seu livro Interview with Frank Capra, de 1976. Segundo, porque tem Frank Sinatra, ator carism\u00e1tico e dedicado, talento que sobra em tudo e que interpreta o papel do vi\u00favo farrista e quebrado que vive com o filho pr\u00e9-adolescente, interpretado por Eddie Hodges.<\/p>\n<p>Terceiro, n\u00e3o menos importante, porque Sinatra contracena com o g\u00eanio de Edward G. Robinson, que faz de maneira ultra-competente o irm\u00e3o mais velho, turr\u00e3o, p\u00e3o duro e ranzinza. Flagrado, pelo irm\u00e3o perdedor, na sua pouca import\u00e2ncia de vida, Robinson comp\u00f5e uma complexidade que d\u00e1 grande gra\u00e7a ao veterano e ex\u00edmio ator. Os di\u00e1logos cortantes entre Frank e Edward s\u00e3o primorosos, podem ser comparados a jabs sucessivos numa briga de boxe, onde os intervalos s\u00e3o definidos pelas mulheres, tamb\u00e9m maravilhosas, interpretadas por Thelma Ritter (a cunhada) e Eleanor Parker (a vi\u00fava).<\/p>\n<p>E, quarto, porque uma dupla de compositores, Jimmy Van Heusen (melodia) e Sammy Cahn (letra) criaram a can\u00e7\u00e3o High Hopes, vencedora do Oscar de 1959. A mesma dupla ganhou outro Oscar com All the Way, o cl\u00e1ssico cantado por Frank Sinatra. No filme, High Hopes \u00e9 segurada no gog\u00f3 pelo garoto Hodges (nascido em 1947) e a Voz, ao ar livre, numa externa em Miami, onde acontece a hist\u00f3ria. \u201cN\u00e3o se preocupe com os erros ou afina\u00e7\u00e3o, disse Capra para o menino. Seja voc\u00ea mesmo&#8221;. O resultado \u00e9 absolutamente encantador.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastasse isso, o filme oferece ainda coadjuvantes de primeira linha como Keenan Wynn no papel do cr\u00e1pula que subiu na vida e humilha o her\u00f3i. A pr\u00f3pria Thelma Ritter, a chorona cunhada que quer levar o sobrinho para Nova York. A \u00f3tima Carolyn Jones (a futura Morticia da Fam\u00edlia Adams dos anos 60 na TV), surfista que s\u00f3 pensa em divers\u00e3o, e o impag\u00e1vel Benny Rubin, figura constante em faroestes com seu jeit\u00e3o t\u00edpico e desleixado e que \u00e9 uma simpatia s\u00f3 como o atendente do hotel falido.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o tipo de filme que eu via na adolesc\u00eancia em Uruguaiana e que revi ontem, quando senti a mesma emo\u00e7\u00e3o diante de uma hist\u00f3ria dirigida por um g\u00eanio que une magn\u00edficamente uma dupla de atores magistrais, um casal de vi\u00favos maduros e sinceros, dois compositores que fizeram hist\u00f3ria, entre outras liga\u00e7\u00f5es indissol\u00faveis. Cinema de pura magia, de artistas envolvidos numa ind\u00fastria voltada para o p\u00fablico e que teve sua idade de ouro, quando o talento se sobressa\u00eda, apesar das dificuldades e das distor\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A Hole in the head n\u00e3o \u00e9 com\u00e9dia, nem drama, nem teatro filmado. \u00c9 uma obra para onde confluem as melhores cabe\u00e7as, todas atravessadas pela gra\u00e7a e a for\u00e7a da voca\u00e7\u00e3o e do trabalho duro nesses of\u00edcios inventados para que aprend\u00eassemos a amar. \u00c9 um filme que aposta alto na esperan\u00e7a: do cara que pretende dar um salto na vida, da mulher que sonha com uma fam\u00edlia, do garoto que precisa continuar com o pai, dos parentes que desejam o melhor para o sonhador. Melhor pra n\u00f3s, que podemos nos revigorar nesses sentimentos quando tudo parece perdido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Arnold Schulman era um cara pretensioso. 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