{"id":2236,"date":"2010-08-17T16:07:02","date_gmt":"2010-08-17T19:07:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2236"},"modified":"2010-08-17T16:07:02","modified_gmt":"2010-08-17T19:07:02","slug":"o-fiel-escudeiro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-fiel-escudeiro","title":{"rendered":"O FIEL ESCUDEIRO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A narrativa romanesca ou audiovisual jamais muda: h\u00e1 sempre o her\u00f3i e seu fiel escudeiro. Sob todas as formas, como mestre\/disc\u00edpulo, veterano\/novato, sonhador\/pragm\u00e1tico, invenc\u00edvel\/humano, adulto\/mo\u00e7o. A trama pode ser policial (Tango\/Cash), \u00e9pica (Quixote\/Sancho), justiceira (Zorro\/Tonto, Batman\/Robin), c\u00f4mica (Dean Martin\/Jerry Lewis). Por que esse bin\u00f4mio \u00e9 obrigat\u00f3rio e por que sempre funciona?<\/p>\n<p>Acredito que o motivo principal \u00e9 que o fiel escudeiro representa o leitor\/espectador, que aspira ao protagonismo, quer se transformar no seu \u00eddolo, enquanto faz o papel da sua sombra. Essa migra\u00e7\u00e3o entre o coadjuvante e o principal leva junto o espectador. \u00c9 o esfor\u00e7o de decifrar as altas esferas, as quais s\u00f3 o primeiro time tem acesso, de atingir um patamar mais alto a que foi relegado pelo ber\u00e7o ou destino. \u00c9 a supera\u00e7\u00e3o diante do universo hostil, reconhecendo que existe algu\u00e9m maior, mais preparado e que \u00e9 prefer\u00edvel seguir seus passos para chegar a algum lugar do que se recusar a aceitar a lideran\u00e7a e ficar sempre amarrado.<\/p>\n<p>O camp\u00f4nio que vira governador no livro de Cervantes encarna essa fun\u00e7\u00e3o m\u00edtica e pragm\u00e1tica. O fiel escudeiro \u00e9 quem se assombra quando surgem os umbrais, o que comenta como leigo o que v\u00ea sem entender, e reage mal diante do perigo. \u00c9 a maneira de a trama aproximar o p\u00fablico da hist\u00f3ria, de envolv\u00ea-lo colocando-o dentro da rede. E de lev\u00e1-lo para a m\u00e3o at\u00e9 o desfecho, que costuma ser favor\u00e1vel.<\/p>\n<p>Quem assiste fica fisgado pela possibilidade de palmilhar o caminho em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o, ao conhecimento, \u00e0 aventura, \u00e0 vit\u00f3ria. Isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel por meio do fiel escudeiro, fr\u00e1gil no come\u00e7o e que com o tempo ganha a confian\u00e7a do chefe. Este, precisa da precariedade e escassez do seu bra\u00e7o direito para poder realizar suas fa\u00e7anhas. \u00c9 poss\u00edvel at\u00e9 ser salvo por ele \u2013 naqueles momentos em que o fiel escudeiro cresce de import\u00e2ncia e se transforma diante da percep\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas do her\u00f3i, como da massa que consome a narrativa.<\/p>\n<p>\u00c9 quando saltamos o abismo e deixamos de ser essa criatura inerme sentada num sof\u00e1 para al\u00e7armos v\u00f4o, a exemplo do cabe\u00e7a de \u00e1rea, o sujeito que sabe o que est\u00e1 fazendo e para onde vai. Quando os dois ficam pr\u00f3ximos ao longo do texto, o fiel escudeiro se torna parte do mito e cresce at\u00e9 atingir a gl\u00f3ria. Ou ent\u00e3o, permanece assim, dependendo se haver\u00e1 continuidade da saga em outros volumes ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 o isolamento como representa\u00e7\u00e3o da imobilidade, que leva \u00e0 uni\u00e3o indissol\u00favel dos dois, que juntos inventam a a\u00e7\u00e3o. Toda dupla tem esse fun\u00e7\u00e3o, a come\u00e7ar pela principal delas, o casamento, que rompe a solid\u00e3o e gera a descend\u00eancia. No caso da dupla da a\u00e7\u00e3o (que muitas vezes compete com o casamento) o objetivo \u00e9 tamb\u00e9m fugir da maldi\u00e7\u00e3o humana, de nascer e morrer s\u00f3. A liga entre o dono da hist\u00f3ria e seu amigo mais pr\u00f3ximo significa o esfor\u00e7o de romper com esse cerco do mundo inimigo.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso unir for\u00e7as para derrubar os muros. O n\u00f3 da amizade junta o Ideal, ou a For\u00e7a &#8211; nem sempre l\u00facida, j\u00e1 que precisa muitas vezes da coragem cega para realizar algo &#8211; ao seu avesso. O Pragmatismo, o Medo, a Prud\u00eancia se junta ao Sonho para que algo venha \u00e0 luz. \u00c9 a hist\u00f3ria, que nos prende a aten\u00e7\u00e3o porque temos uma porta de entrada: o sujeito tosco que nada sabe e trope\u00e7a em tudo o que v\u00ea, mas que acaba sendo o mais simp\u00e1tico dos dois, o cara que est\u00e1 ali para ser visto de cima por n\u00f3s.<\/p>\n<p>Pois nos identificamos com o her\u00f3i, enquanto de fato somos o escudeiro. N\u00f3s, leitores, espectadores, n\u00e3o nascemos para grandes feitos. Mas o amigo do mocinho nos introduz para essa possibilidade, basta seguir o l\u00edder, ajud\u00e1-lo nos momentos decisivos, para rompermos o c\u00edrculo que nos prende. \u00c9 quando enfim atingimos a capacidade de voar ou de atingir a imortalidade.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos como ajudante de ordens e acabamos na cadeira do general. N\u00e3o t\u00ednhamos acesso ao trono. Mas o fiel escudeiro nos levou at\u00e9 l\u00e1. Quando somos enfim invenc\u00edveis e levamos a mocinha para casa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s A narrativa romanesca ou audiovisual jamais muda: h\u00e1 sempre o her\u00f3i e seu fiel escudeiro. Sob todas as formas, como mestre\/disc\u00edpulo, veterano\/novato, sonhador\/pragm\u00e1tico, invenc\u00edvel\/humano, adulto\/mo\u00e7o. A trama pode ser policial (Tango\/Cash), \u00e9pica (Quixote\/Sancho), justiceira (Zorro\/Tonto, Batman\/Robin), c\u00f4mica (Dean Martin\/Jerry Lewis). Por que esse bin\u00f4mio \u00e9 obrigat\u00f3rio e por que sempre funciona? Acredito que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2236"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2236"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2236\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2237,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2236\/revisions\/2237"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2236"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2236"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2236"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}