{"id":224,"date":"2005-05-29T15:41:50","date_gmt":"2005-05-29T17:41:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=224"},"modified":"2009-12-20T21:34:41","modified_gmt":"2009-12-20T23:34:41","slug":"na-casa-do-poeta-maior","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/na-casa-do-poeta-maior","title":{"rendered":"NA CASA DO POETA MAIOR"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Em Porto Alegre, ro\u00e7ando a beira do rio, passei de t\u00e1xi pelos bairros de Praia de Belas, Tristeza, Ipanema e Esp\u00edrito Santo. Numa pequena rua que desemboca na avenida vizinha \u00e0s \u00e1guas do Gua\u00edba, anuncio-me. Desce ent\u00e3o, do alto de sua casa, pela ladeira suave que vai at\u00e9 o port\u00e3o, aquele homem reservado e digno, que me d\u00e1 a honra de receber-me em seu ref\u00fagio. Foi uma tarde de revela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>O HOMEM DO CREP\u00daSCULO<\/strong> -Enquanto sobe de volta para levar-me at\u00e9 sua sala de estar, J.A. Pio de Almeida vai me mostrando as \u00e1rvores que fazem parte do seu s\u00edtio, e que o protegem do movimento da rua, abra\u00e7ando-o em folhas fartas, sombras tranq\u00fcilas, ra\u00edzes saltando do ch\u00e3o com cheiro bom de terra boa. Aponta seu bra\u00e7o para o alto, para onde v\u00e3o os troncos espalhando galhos, em gestos que o identificam com a natureza pr\u00f3xima, mem\u00f3ria de uma rede tel\u00farica de la\u00e7os. Nosso Poeta Maior desdobra-se em gentilezas, apoiado pela tranq\u00fcila presen\u00e7a de sua esposa Naja, que todo o tempo nos cerca de aten\u00e7\u00f5es. Vou ent\u00e3o para uma sala de m\u00f3veis s\u00f3lidos, arrumados em torno de uma ampla janela, fazendo vizinhan\u00e7a a uma bandeira antiga do Rio Grande do Sul e um quadro de um \u00edndio charrua montado e sacudindo a alma mortal da boleadeira.<\/p>\n<p>Tudo tem hist\u00f3ria na casa de Pio de Almeida. N\u00e3o por ser de outro tempo, mas por ser uma op\u00e7\u00e3o consciente de coer\u00eancia pessoal, que nos transmite seguran\u00e7a e conforto, assim como suas palavras, que saem com a maestria dos grandes narradores. O sol que cruza a folhagem de sua floresta particular l\u00e1 fora atinge em cheio seu perfil. S\u00f3 as palavras poder\u00e3o descrever aquela cena, s\u00f3 o verbo encarnar\u00e1 aquela tarde, nenhuma imagem que seja criada por mim tra\u00e7ar\u00e1 um perfil mais n\u00edtido do que este, que recomponho de mem\u00f3ria, porque assim tem de ser, assim trabalha o esp\u00edrito do poema, transl\u00facido cavaleiro a temperar a vida. &#8220;Qual o sentido da minha exist\u00eancia?&#8221; pergunta o poeta, sem cair no lugar comum: &#8220;O que significa esse espa\u00e7o de tempo entre meu ber\u00e7o e meu t\u00famulo?&#8221; E ele mesmo responde: &#8220;Sou o crep\u00fasculo do ga\u00facho pampeiro, sou a testemunha daqueles homens que se foram. N\u00e3o fa\u00e7o parte deles, pois muito cedo fui retirado do seu conv\u00edvio para ir \u00e0 escola. Mas posso te assegurar: tudo o que escrevo est\u00e1 impregnado daquele mundo que vivi na inf\u00e2ncia, e daquela gente que me criou \u00e9 feito o sangue da minha palavra&#8221;.<\/p>\n<p><strong>REL\u00c2MPAGO <\/strong> &#8211; O sol foi entregando os pontos, mas a claridade permanecia firme. O poeta me recita, em espanhol, o poema de Neruda que fala de algu\u00e9m que sabia ler o alfabeto do rel\u00e2mpago. Neruda \u00e9 um dos autores que levaria para uma ilha deserta. Outro \u00e9 Guimar\u00e3es Rosa. E o terceiro guardo para mim, para n\u00e3o despertar certas curiosidades, mas \u00e9 um autor que um dia ser\u00e1 plenamente reconhecido. Ele tem a grandeza po\u00e9tica que toda antropologia deveria ter, e encerra mist\u00e9rios que nenhuma outra obra possui. Fala-me ent\u00e3o o poeta da sua paix\u00e3o pelo Uruguai, lugar onde j\u00e1 teve terra, homem que \u00e9 descendente de propriet\u00e1rios de sesmarias no in\u00edcio do s\u00e9culo 19. Teve terra l\u00e1, mas vendeu. Agora passa um bom tempo naquelas bandas da fronteira seca, onde visita campos, vertentes, morros e marcos hist\u00f3ricos. Diz de sua amizade com Breno Caldas, o m\u00edtico propriet\u00e1rio da Caldas Junior e de como entrou naquele que era o reduto maior do jornalismo da na\u00e7\u00e3o riograndense. De como teve de romper cercos, transpor cercas e tocar a boiada de suas palavras. &#8220;Nunca quis cargo nenhum, sempre quis ser redator do Correio do Povo&#8221;, confidencia-me. Olha para fora e conta sobre sua rela\u00e7\u00e3o reservada e amistosa com vizinhos.<\/p>\n<p><strong>FRIAGEM<\/strong> &#8211; Chamo o t\u00e1xi de volta e o Poeta Maior me acompanha novamente at\u00e9 o port\u00e3o, depois de eu ter compartilhado a mesa da fam\u00edlia, onde a filha \u00fanica, casada e moradora numa bela casa que fica nos fundos da propriedade, faz par com o marido simp\u00e1tico e jornalista que ainda sente-se um estreante. O motorista, que estava perdido, atende aos nossos gritos e Jo\u00e3o Ara\u00fajo Pio de Almeida ent\u00e3o se despede de mim, privilegiado visitante daquela casa sagrada, onde vive o maior entre os maiores, o escritor que soube construir uma obra e nada exigiu em troca. Hoje ele vive tranq\u00fcilamente, sem nada a dever a ningu\u00e9m, me recebendo porque sua grandeza extrapola os limites das dist\u00e2ncias e das admira\u00e7\u00f5es. Somos homens da mesma geografia e eu sou seu aprendiz. Chamo-o de Mestre, porque ensinou-me, antes de conhec\u00ea-lo pessoalmente, s\u00f3 pelo exemplo de sua obra, a import\u00e2ncia da postura de um autor, a necessidade de comportar-se como um escritor cl\u00e1ssico numa \u00e9poca que apostou na superficialidade e na cultura descart\u00e1vel. O carro parte e Pio de Almeida acena com todo o bra\u00e7o, como fazem os homens do pampa, estejam onde estiverem &#8211; n\u00f3s, que fazemos parte da terra banhada pelo rio Uruguai e seus arroios, Ibicu\u00ed, Itapitocai, Rodrigues, Touro Passo&#8230;O som dos p\u00e1ssaros noturnos marca o territ\u00f3rio dos esp\u00edritos: Caa-por\u00e3, M\u00e3e de Ouro, Homem-de-Preto. Vejo o trem parar no ermo de Guassu Boi. L\u00e1 est\u00e1 o menino Jo\u00e3o, pronto para cruzar a noite numa estalagem sinistra, denominada Friagem. Tem apenas nove anos. O universo o observa, como um gigante respeita um her\u00f3i.<\/p>\n<p><strong>AL\u00cdVIO<\/strong> &#8211; Vamos pegar alguns trechos do assombroso livro de contos As Brasinas, editado em 2001 (<a href=\"mailto:editoraage@editoraage.com.br\">editoraage@editoraage.com.br<\/a>) em Porto Alegre,\u00a0de J. A. Pio de Almeida. Trata-se de uma obra-prima absolutamente desconhecida, que pode ser comparada ao que h\u00e1 de melhor do grande Jo\u00e3o Sim\u00f5es Lopes Neto (outro cl\u00e1ssico). Sobre um personagem inesquec\u00edvel, Fausto Balastraca, Pio de Almeida conta como partiu para sempre: &#8220;At\u00e9 o dia em que foi viver na casa branca dos ventos solit\u00e1rios&#8230;&#8221; Balastraca &#8220;era o al\u00edvio dos necessitados, a palavra vertida dos celestiais caminhos, cruzes espalhadas na testa, no cora\u00e7\u00e3o, no vento que nasce e no vento que some &#8211; e misturas douradas de ervas colhidas no jujal, por entre as pedras do cerro, no banhadal provedor&#8230;&#8221; Pio de Almeida lan\u00e7a luzes sobre dois mist\u00e9rios. Primeiro, o Homem-de-Preto, que \u00e9 uma assombra\u00e7\u00e3o, coisa que eu n\u00e3o sabia, mesmo sendo admirador do grande cl\u00e1ssico de Paulo Ruschel e imortalizado por Os Gaud\u00e9rios, Os Homens de Preto, m\u00fasica magn\u00edfica vestida pelo arranjo do genial Jos\u00e9 Gomes (ele est\u00e1 voltando, estou avisando, o maestro Z\u00e9 Gomes est\u00e1 voltando&#8230;). Eu achava que eram campeadores vestidos de preto, mas n\u00e3o, s\u00e3o fantasmas que &#8220;grudam&#8221; nos tropeiros.<\/p>\n<p>Outro enigma \u00e9 o fim dos \u00edndios charruas, que desafiavam &#8220;as tropas dos referidos reis, no alto de uma coxilha, armados de lan\u00e7as de taquara e boleadeiras de pedras mouras&#8221;. O Poeta conta como foi o massacre daquele povo: &#8220;&#8221;Se dizendo amigo dos charruas, dito general inventou um churrasco na costa dum arroio que se chama Salsipuedes, convidou a indiada, distribuiu canha em guampas, e, na hora dos abra\u00e7os, com um ex\u00e9rcito de mil homens caiu em cima daquela gente, matando o que n\u00e3o escapou&#8221;. O Poeta conta causos \u00e0 beira do fogo: &#8220;Na madrugada funda, na hora da ronda, sem aviso, no veludo do coxilhame apagado, l\u00e1 longe, aparecia o Fogo-Malo, irm\u00e3o do Boitat\u00e1, alma vivente queimando&#8230;&#8221; Paz no campo e na cidade: o prazer de ler nos salva das heran\u00e7as de \u00f3dios e nos treina para o abra\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>UM CL\u00c1SSICO OCULTO<\/strong> &#8211; Quem \u00e9 esse poeta estupendo que hoje est\u00e1 recolhido, quieto, &#8220;oculto entre as colunas altas do Sil\u00eancio&#8221;, como diz, no bairro do Esp\u00edrito Santo, em Porto Alegre? \u00c9 um brasileiro tamb\u00e9m descendente de guarani e portugueses, da estirpe dos primeiros donat\u00e1rios de sesmarias que se fixaram no extremo Sudoeste rio-grandense. Sua poesia pertence ao mais alto patamar da literatura brasileira. Leiam esses versos: &#8220;&#8221;H\u00e1 um tapa de jaguar vencido em meu sil\u00eancio\/ um taciturno fim de \u00e9poca rebelde\/ um n\u00e3o-sei-qu\u00ea de sombra e gl\u00f3ria no que eu penso&#8230;&#8221; Mais: &#8220;Procuro temperar o rubro nunca visto\/ a cujo faiscar dos \u00e2ngulos confiro\/ rel\u00e2mpagos de espada estrela pura e vento&#8221;. E mais estes: &#8220;Atiro nacos de poemas em cima da terra nova\/ &#8211; eis meu sangue rec\u00e9m\/ derramado meu sacrif\u00edcio vinde ver\/ o bravo\/ que morre por\/ uma coisa que eu n\u00e3o sei se \u00e9 vergonha ou liberdade.&#8221;<\/p>\n<p>J. A. Pio de Almeida \u00e9 uruguaianense, nasceu no interior do munic\u00edpio, no meio do pampa, e, menino, foi aluno de um professor de longas barbas e postura b\u00edblica. Sua poesia \u00e9 cl\u00e1ssica e precisa ser conhecida. Seus livros mais importantes s\u00e3o:\u00a0Claves da Harpa e do Vento (Ed. Sulina, 1970) , Ciclo (Lume Editora, 1977) e As Brasinas (cr\u00f4nicas, Age Editora, 2001). Levei um ano para conseguir convencer o poeta a me enviar estes livros. Agrade\u00e7o agora no ar pela grandeza do seu gesto, pela gentileza do seu trato e pela majestade da sua biografia, que engrandece o pa\u00eds e nos serve de exemplo. O que Jo\u00e3o Ara\u00fajo Pio de Almeida, poeta maior, escreve est\u00e1 gravado no cora\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o a qual pertencemos, a de uma na\u00e7\u00e3o que foi constru\u00edda com gera\u00e7\u00f5es de brasileiros vindos de todas as na\u00e7\u00f5es e que encontraram paz e dignidade depois de uma eternidade de sofrimentos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem \u00e9 J. A. Pio de Almeida, esse poeta estupendo que hoje est\u00e1 recolhido, quieto, &#8220;oculto entre as colunas altas do Sil\u00eancio&#8221;, como diz, no bairro do Esp\u00edrito Santo, em Porto Alegre? 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