{"id":2244,"date":"2010-08-17T16:14:00","date_gmt":"2010-08-17T19:14:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2244"},"modified":"2010-08-17T16:22:38","modified_gmt":"2010-08-17T19:22:38","slug":"dois-filmes-e-um-limite-para-a-insania","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/dois-filmes-e-um-limite-para-a-insania","title":{"rendered":"DOIS FILMES E UM LIMITE PARA A INS\u00c2NIA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Filmes americanos mergulham fundo no po\u00e7o social, mas parecem estar proibidos de sugerir desesperan\u00e7a. H\u00e1 sempre um happy end para situa\u00e7\u00f5es limite, para transgress\u00f5es pesadas, para a aparente perdi\u00e7\u00e3o dos personagens. A cidadania entra numa espiral de loucura, mas algo acima dela, ou parte indissol\u00favel dela, serve como amparo, rede de prote\u00e7\u00e3o, par\u00e2metro e acaba se impondo. Por mais que se esgarcem as vidas na droga, no crime, na mentira, na indisciplina, na culpa, h\u00e1 sempre um desfecho favor\u00e1vel. Felizmente, em alguns filmes, como os dois que vi nestes dias, sem a babaquice tradicional dessa solu\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>Nem sempre o happy end \u00e9 aliena\u00e7\u00e3o. Pode ser uma forma encontrada para resgatar as inten\u00e7\u00f5es originais que levaram os personagens a se enredarem no erro ou no v\u00edcio. O policial que se joga numa cadeia imunda e inundada para salvar um preso come\u00e7a, por for\u00e7a desse evento, a sofrer dores cr\u00f4nicas nas costas e por isso se vicia em sedativos e acaba migrando para o crack, a coca\u00edna e a hero\u00edna, numa espiral cada vez mais insana. Ele acaba se aliando a um traficante para descobrir os respons\u00e1veis por um massacre de cinco pessoas e tamb\u00e9m para pagar suas d\u00edvidas de jogo na Nova Orleans depois do furac\u00e3o Katrina.<\/p>\n<p>A mulher abandonada pelo marido jogador e com dois filhos, que ganha pouco numa loja de quinta categoria e precisa terminar de pagar a casa nova, se alia a uma \u00edndia siowk na fronteira dos Estados Unidos com o Canad\u00e1 para contrabandear imigrantes ilegais. Hist\u00f3rias que geraram dois estupendos filmes lan\u00e7ados em 2009. O primeiro \u00e9 de Werner Herzog, <em>The Bad Liutenant \u2013 The Call of New Orleans<\/em>, com um incontrol\u00e1vel e arrasador Nicolas Cage contracenando com a diva Eva Mendes. E o outro \u00e9 <em>The Frozen River<\/em>, da cineasta Courtney Hunt, com Melissa Leo, ambas indicadas para o Oscar.<\/p>\n<p>Os dois filmes contam com a hostilidade da paisagem como definidora do perfil dos seus principais personagens. Na cidade destru\u00edda pelo furac\u00e3o, Nicolas Cage \u00e9 um inventariante de ru\u00ednas, colecionando despojos ao longo de uma investiga\u00e7\u00e3o criminal que se aprofunda cada vez mais num beco sem sa\u00edda, onde o mundo oficial dos promotores, pol\u00edticos e advogados acabam contaminando a investiga\u00e7\u00e3o e pressionando os agentes para um impasse. Mas a voca\u00e7\u00e3o do, policial persiste e mantem sua hegemonia numa vida pessoal que se desviou temporariamente.<\/p>\n<p>E o rio congelado, cora\u00e7\u00e3o do enclave ind\u00edgena em territ\u00f3rio minado da fronteira, \u00e9 o estado emocional dos habitantes do lugar, em que o filho adolescente perde a confian\u00e7a na m\u00e3e, esta perde a confian\u00e7a no mundo do emprego, os ind\u00edgenas desconfiam de pessoas da sua tribo, os policiais est\u00e3o sempre de olho nos nativos, culpados de nascen\u00e7a. H\u00e1 fam\u00edlias, partidas, vidas sem sentido, dor. Mas h\u00e1 m\u00e3es protegendo filhos e isso acaba salvando vidas.<\/p>\n<p>Tanto Cage quanto Melissa se deixam levar pelo turbilh\u00e3o de eventos que os empurram para a trag\u00e9dia. Mas no caminho encontram solidariedade (no caso de Melissa, que abre m\u00e3o de sua seguran\u00e7a em favor da amiga \u00edndia) e amor (Eva Mendes serve de inspira\u00e7\u00e3o para o ensadencido Cage romper seu ciclo de dem\u00eancia e enfim encontrar um pouso seguro num relacionamento a longo prazo). A mulher da paisagem gelada acaba presa e o policial de Nova Orleans continua nas drogas, mas pelo menos eles se livram da ins\u00e2nia total em que se meteram. H\u00e1 limites para a loucura, proporcionado pela solidez nacional, em quem institui\u00e7\u00f5es, como a Justi\u00e7a e a Pol\u00edcia, funcionam, apesar da corrup\u00e7\u00e3o e do preconceito.<\/p>\n<p>Muito diferente do Brasil, onde a viol\u00eancia descamba para o descontrole absoluto (147 mil assassinatos em tr\u00eas anos, segundo estat\u00edsticas oficiais), como vimos em <em>Cidade de Deus, Tropa de Elite <\/em>ou<em> Carandiru<\/em>. N\u00f3s perdemos a forma, a sociedade estabilizada em que as leis funcionam, mesmo quando h\u00e1 caos. Os americanos procuram manter a forma tradicional, apesar das mudan\u00e7as, fazendo com que todo o tipo de transgress\u00e3o n\u00e3o ameacem os valores nacionais. Perderam a no\u00e7\u00e3o do perigo, pois o que eles est\u00e3o cavando fora das fronteiras, nas guerras impunes onde se metem, acabam se refletindo pesadamente na estrutura que montaram e que est\u00e1 fazendo \u00e1gua.<\/p>\n<p>Por enquanto funciona, mas pode chegar um momento em que se ver\u00e3o como n\u00f3s, frente a frente com o que h\u00e1 de pior: nenhum lugar para onde escapar, devorados por nossos erros, sem poder restabelecer a ponte com a paz verdadeira, que \u00e9 o conv\u00edvio social e a viol\u00eancia sob controle.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Filmes americanos mergulham fundo no po\u00e7o social, mas parecem estar proibidos de sugerir desesperan\u00e7a. H\u00e1 sempre um happy end para situa\u00e7\u00f5es limite, para transgress\u00f5es pesadas, para a aparente perdi\u00e7\u00e3o dos personagens. A cidadania entra numa espiral de loucura, mas algo acima dela, ou parte indissol\u00favel dela, serve como amparo, rede de prote\u00e7\u00e3o, par\u00e2metro [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2244"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2244"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2244\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2246,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2244\/revisions\/2246"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2244"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2244"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2244"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}