{"id":2271,"date":"2010-09-01T10:19:42","date_gmt":"2010-09-01T13:19:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2271"},"modified":"2010-09-01T10:19:42","modified_gmt":"2010-09-01T13:19:42","slug":"a-face-in-the-crowd-obra-prima-oculta-viva-kazan","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-face-in-the-crowd-obra-prima-oculta-viva-kazan","title":{"rendered":"A FACE IN THE CROWD, OBRA-PRIMA OCULTA: VIVA KAZAN!"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Muita coisa influenciou para que ca\u00edsse no esquecimento <strong>Um rosto na multid\u00e3o (A face in the crowd)<\/strong>, de 1957, mais uma obra-prima de Elia Kazan, com o mesmo roteirista de &#8220;Sindicato de Ladr\u00f5es&#8221; (On the waterfront, 1954) Budd Schulberg. O fato de Kazan ter se enredado no macartismo, onde confirmou a exist\u00eancia de colegas comunistas para a comiss\u00e3o parlamentar que acabou destruindo a isen\u00e7\u00e3o em Hollywood, foi uma delas, pois a \u00e9poca do lan\u00e7amento do filme coincide com seu depoimento para os nazist\u00f3ides. Mas o principal motivo foi porque Kazan desmascarou a manipula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, econ\u00f4mica e comportamental por meio da televis\u00e3o de maneira contundente, numa obra soberba, daquelas de cair o queixo.<\/p>\n<p>Pois se fosse uma den\u00fancia correta embalada num trabalho med\u00edocre, n\u00e3o haveria tanta determina\u00e7\u00e3o em soterrar o filme. Em todos os aspectos, Um rosto na multid\u00e3o \u00e9 uma obra-prima prof\u00e9tica e perigosa para os poderes da m\u00eddia e da pol\u00edtica. Se destaca pelo que diz e como apresenta, do claro escuro \u00e0s plan\u00edcies iluminadas e des\u00e9rticas; das grandes cidades ao interior; das interpreta\u00e7\u00f5es aos di\u00e1logos; dos personagens definitivos \u00e0s cenas dram\u00e1ticas pessoais e coletivas; do close ao plano geral; das refer\u00eancias \u00e0s originalidades. Tudo numa narrativa \u00e9pica, de grandes transforma\u00e7\u00f5es, quando as pessoas mudam junto com o pa\u00eds e amadurecem na dor, como sempre acontece.<\/p>\n<p>Tudo isso junto comp\u00f5e um trabalho de mestre, com atores perfeitos como Walter Mathau no papel do intelectual formado em Princepton e que vira autor de sketches para programas de humor, Andy Grifith no impressionante Lonesome Rodes, o caipira convocado para o r\u00e1dio que ganha a TV e o pa\u00eds; Pat Neal (que faleceu recentemente com 94 anos) como a sombra do \u00eddolo; Lee Remick no primeiro papel da sua carreira como a baliza alpinista de 17 anos que casa com o \u00eddolo; ou Tony Franciosa como o vil\u00e3o marketeiro que se apossa da metade da fortuna do seu protegido.<\/p>\n<p>Entre as profecias, ou pelo menos as tend\u00eancias que se consolidaram com o tempo, est\u00e1 o Viagra (batizado de Viajet), uma aspirina energ\u00e9tica recomendada para a performance sexual; a m\u00e1quina autom\u00e1tica do riso; o candidato presidencial vendido como produto de consumo para um p\u00fablico superficial e apressado; a obedi\u00eancia dos profissionais da m\u00eddia aos poderes ocultos da na\u00e7\u00e3o;o escritor que trai seus principios ao se engajar na televis\u00e3o; a idealista que inventa um monstro; o general que quer dominar a na\u00e7\u00e3o entregue ao poder da televis\u00e3o. Lonesome Rhodes \u00e9 um caipira cantor folk descoberto numa pris\u00e3o e que alcan\u00e7a fama no r\u00e1dio, para depois migrar at\u00e9 os grandes contratos publicit\u00e1rios num programa de sucesso e se transforma num agente de marketing dos novos tempos. Ele acaba caindo em desgra\u00e7a gra\u00e7as a um microfone providencialmente aberto ao vivo que revela seu verdadeiro perfil.<\/p>\n<p>O papel \u00e9 interpretado magistralmente por Andy Grifith que hoje, aos 84 anos, faz campanha a favor da pol\u00edtica de sa\u00fade do presidente Obama. Ele fez uma carreira na televis\u00e3o quase id\u00eantica ao seu personagem radical, com a diferen\u00e7a que n\u00e3o influenciou ningu\u00e9m nem alcan\u00e7ou alto \u00edndice de popularidade. Mas o que ele faz diante das c\u00e2maras, num overacting que, desconfio, inspirou Nicolas Cage em The Bad Liutenant, analisado aqui esta semana, \u00e9 antol\u00f3gico. Igualmente Pat Neal encarna a mulher por tr\u00e1s da trama, a que vence na carreira e fracassa no amor e acaba desinventando o que ela pr\u00f3pria criou e que fugiu ao controle de todos.<\/p>\n<p>S\u00e3o in\u00fameras as refer\u00eancias de Kazan com a pol\u00edtica da \u00e9poca, como o fato de o candidato presidencial ter obrigaroriamente um apelido, como Dick Nixon, e com as campanhas que entravam no jogo bruto da comunica\u00e7\u00e3o de massa, deixando de lado a postura tradicional do discurso para entrar no ramo do slogan, da logomarca, do jingle, das frases prontas servidas em p\u00edlulas que funcionariam como um alimento energ\u00e9tico para as popula\u00e7\u00f5es despossu\u00eddas. E a mais bela refer\u00eancia cinematogr\u00e1fica \u00e9 o final id\u00eantico ao de Shane, em que o ex-\u00eddolo infantilizado clama pela sua protetora com a mesma fala do garoto que v\u00ea sumir no horizonte o pistoleiro her\u00f3i.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje me pergunto se n\u00e3o pesaram demais a m\u00e3o com Kazan, que jamais errou em seus in\u00fameros filmes, alguns deles antol\u00f3gicos, como, al\u00e9m do citado<em> On the Waterfront<\/em>, o <em>Am\u00e9rica, Am\u00e9rica<\/em> (um noir sobre os migrantes de fazer inveja a qualquer filme de transgress\u00e3o hoje), <em>The Arrangment,<\/em> com Kirk Douglas e Faye Dunaway, aquele tipo de filme den\u00fancia sobre a publicidade e as corpora\u00e7\u00f5es que n\u00e3o se faz mais hoje, nesta era da vit\u00f3ria do macartismo, <em>Viva Zapata!<\/em>, com os eternos Marlon Brando e Anthony Quinn, entre muitos outros. A verdade \u00e9 que ficam condenando Kazan e deixando frouxo os pr\u00f3prios nazistas que fizeram pesada e irrevers\u00edvel interven\u00e7\u00e3o em Hollywood, onde os filmes de coragem foram minguando at\u00e9 termos hoje a pl\u00eaiade de astros da CIA e do Pent\u00e1gono, como Stalone, Schwazznegger, Kiefer Southerland, Tom Cruise, entre outros.<\/p>\n<p>Quando recebeu um Oscar Honor\u00e1rio pouco antes de morrer os patetas do Sean Penn (que vive lambendo as botas do Chavez) e o Nick Nolte (que vive fazendo propaganda do militarismo americano em seus filmes) ficaram em postura indignada contra o \u201cdelator\u201d. N\u00e3o seria porque Kazan denuncia a fonte da corrup\u00e7\u00e3o em Hollywood e em Washington e que acabou engolfando tudo, impedindo que se fizesse novamente bons filmes? N\u00e3o seria porque peitou a corrup\u00e7\u00e3o dos sindicatos no seu cl\u00e1ssico &#8220;Sindicato dos Ladr\u00f5es&#8221; (vai enfrentar a m\u00e1fia sindical, vai)? Prefiro mil vezes um g\u00eanio e sua humanidade prec\u00e1ria e escassa a \u00eddolos de barro com muito menos talento. Pois Viva Kazan! e tenho dito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Muita coisa influenciou para que ca\u00edsse no esquecimento Um rosto na multid\u00e3o (A face in the crowd), de 1957, mais uma obra-prima de Elia Kazan, com o mesmo roteirista de &#8220;Sindicato de Ladr\u00f5es&#8221; (On the waterfront, 1954) Budd Schulberg. 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