{"id":2281,"date":"2010-09-01T10:27:36","date_gmt":"2010-09-01T13:27:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2281"},"modified":"2010-09-01T10:28:54","modified_gmt":"2010-09-01T13:28:54","slug":"escuro-marmore-de-espumas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/escuro-marmore-de-espumas","title":{"rendered":"ESCURO M\u00c1RMORE DE ESPUMAS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nQuando todos se despedem, as corujas abrem o olho e voam em dire\u00e7\u00e3o ao escuro formado pela massa de sonhos an\u00f4nimos<\/p>\n<p>Antes de dormir, as can\u00e7\u00f5es embalam p\u00e1ssaros que desistiram de esperar o amanhecer<\/p>\n<p>H\u00e1 um arrastar de asas no piso noturno, feito de m\u00e1rmore de espumas, que levantam esporos de flores ainda n\u00e3o despertas<\/p>\n<p>Quando na curva do arroio desagu\u00e1vamos no grande rio, de repente o c\u00e9u mergulhava ao lado do barco, e depois emergia o rosto, rindo de n\u00f3s<\/p>\n<p>O amor n\u00e3o tinha vindo, mas desconfi\u00e1vamos de algumas paragens, onde repousavam corpos imaginados e encantos sem sentido<\/p>\n<p>Sonh\u00e1vamos com terras distantes, sem desconfiar que ali era o reino remoto de uma cilada: o Tempo, semeador de sustos<\/p>\n<p>De repente, um estrondo, no meio do rio. Adultos levantavam e iam at\u00e9 o peixe fisgado no espinhel. As crian\u00e7as ficavam, de cora\u00e7\u00e3o aos pulos<\/p>\n<p>Barracas de lona cheirando forte, daquelas do Ex\u00e9rcito, nos defendiam do sereno pesado nas pescarias do inverno. Mas n\u00e3o da Lua, que entrava<\/p>\n<p>Escutava pios na mata cerrada a dois passos de mim, enquanto olhava para o derramar de estrelas cadentes na noite fria do pampa<\/p>\n<p>L\u00e1 nasceu a palavra, como sereia de \u00e1gua barrenta, como cardume de alevinos em sanga, como a Lua cheia, que carrega consigo o horizonte<\/p>\n<p>Ainda estou l\u00e1, onde mora a sonho que arrastava passos na estranha madrugada<\/p>\n<p>\u00c9 o Brasil profundo, que nos criou, alimentou, formou e depois soltou para o mundo. O pa\u00eds hoje abandonado, que pulsa em n\u00f3s, como um poema<\/p>\n<p>O maior orgulho do meu pai era a tra\u00e7\u00e3o nas quatro rodas do Candango, da ind\u00fastria nacional. Atolava de prop\u00f3sito para escapar, triunfante<\/p>\n<p>O barro subia at\u00e9 a cintura, os espinhos cravavam na sola dos p\u00e9s para sempre. Volt\u00e1vamos miser\u00e1veis para os bra\u00e7os da m\u00e3e penalizada<\/p>\n<p>Havia cheiro de p\u00f3lvora nos acampamentos, como se f\u00f4ssemos parte de uma tropa aguardando o combate. Mas um riso coletivo desmoralizava tudo<\/p>\n<p>Foi assim que passei a inf\u00e2ncia, no miolo do nada, na noite infinita, quando \u00e9ramos rodeados pelo mist\u00e9rio e havia fantasmas fazendo ru\u00eddo<\/p>\n<p>A madrugada avan\u00e7ou carregada pelos versos que v\u00e3o saindo daquela fonte. Dobro o papel no bolso e tomo o trem na esta\u00e7\u00e3o das horas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Quando todos se despedem, as corujas abrem o olho e voam em dire\u00e7\u00e3o ao escuro formado pela massa de sonhos an\u00f4nimos Antes de dormir, as can\u00e7\u00f5es embalam p\u00e1ssaros que desistiram de esperar o amanhecer H\u00e1 um arrastar de asas no piso noturno, feito de m\u00e1rmore de espumas, que levantam esporos de flores ainda [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[13],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2281"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2281"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2281\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2283,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2281\/revisions\/2283"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2281"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2281"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2281"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}