{"id":2289,"date":"2010-09-01T10:33:12","date_gmt":"2010-09-01T13:33:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2289"},"modified":"2010-09-01T10:33:12","modified_gmt":"2010-09-01T13:33:12","slug":"lebanon-a-camara-escura-de-samuel-maoz","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/lebanon-a-camara-escura-de-samuel-maoz","title":{"rendered":"LEBANON: A C\u00c2MARA ESCURA DE SAMUEL MAOZ"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Foi um deslumbramento quando descobrimos o principio da c\u00e2mara escura num ver\u00e3o antigo. Est\u00e1vamos dentro do quarto, com os postigos fechados, enquanto o sol martelava no quintal, fervendo as pedras. Nosso divertimento deveria ser alguma palha\u00e7ada, proporcionada pela obscuridade em plena tarde. Foi quando, de repente, movimentando-se pela parede, gra\u00e7as a um furo da janela, que projetava um rastro de luz borrada na parede, passou, na maior impunidade, nosso c\u00e3o perdigueiro Pingo, que rondava a algazarra de um lado para outro, sem poder entrar. Olha o cachorro! disse algu\u00e9m. T\u00ednhamos descoberto o cinema.<\/p>\n<p>H\u00e1 milhares de anos se usa a c\u00e2mara escura, princ\u00edpio da fotografia e recurso \u00f3tico para pintores ao longo dos s\u00e9culos. Na internet, vi uma experi\u00eancia magn\u00edfica dos brit\u00e2nicos em Veneza, que cercaram pesadamente de cortinas as janelas de uma grande sala e deixaram entrar uma r\u00e9stea de luz, que projetava c\u00fapulas das igrejas da cidade em altas paredes. Um deslumbramento. O fato \u00e9 que a imagem \u00e9 invertida, como se a realidade se revelasse pelo avesso no lugar onde nos confinamos, como se a verdade fosse vista pelo seu oposto. Tudo \u00e9 percep\u00e7\u00e3o neste mundo estranho.<\/p>\n<p>O filme Lebanon (2009), de israelense Samuel Maoz, que ganhou o grande pr\u00eamio do Festival de Veneza no primeiro semestre deste ano, usa o mesmo principio da c\u00e2mara escura para mostrar a guerra. Tudo \u00e9 filmado de dentro de um tanque, onde quatro soldados, e depois um prisioneiro, dividem o horror que os faz vomitar, compartilhando uma sobreviv\u00eancia escandalosa numa guerra vista com toda a sua crueza. \u201cN\u00e3o quis cair na ingenuidade ou no libelo, disse o diretor numa excelente entrevista para Paul O&#8217;Callaghan. Quis pegar o espectador pelo est\u00f4mago e o cora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Como funciona o filme? O furo por onde entra a luz e a imagem selecionada \u00e9 o visor do atirador do tanque. Ele enxerga os eventos tenebrosos de fam\u00edlias massacradas, guerrilheiros suicidas, torturas e assassinatos, numa seq\u00fc\u00eancia de fatos que enchem a c\u00e2mara escura de horror. L\u00e1 dentro, como imagens pelo avesso, borradas no cen\u00e1rio do tanque, de paredes cheias de palavras de ordem, os soldados convivem com seus pavores, esperan\u00e7as, diverg\u00eancias, p\u00e2nico, d\u00favidas. Eles procuram, l\u00e1 fora, sinais de uma chance de sobreviver, mas enxergam apenas a situa\u00e7\u00e3o se estreitando e os deixando num beco sem sa\u00edda.<\/p>\n<p>A maior oposi\u00e7\u00e3o ao filme foi dentro de Israel. As pessoas acharam que mostrar soldado chorando dep\u00f5e contra a imagem do pa\u00eds, mas Amoz retruca que n\u00e3o h\u00e1 mais imagem depois de tantas den\u00fancias sobre atrocidades. O que ele quer \u00e9 convencer as pessoas da sua aldeia de que a guerra n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria, que deve ser evitada e denunciada Seu pacifismo \u00e9 de resultados, trata-se de um militante audiovisual da paz, que se consagrou come esse filme impressionante. Rodeado pelos girass\u00f3is de uma planta\u00e7\u00e3o, que se estende ao infinito, as pessoas saem enfim do tanque. As flores solares representam a quantidade de maneiras de se ver uma batalha.<\/p>\n<p>Encontram a paz? N\u00e3o, mas se deparam com a diversidade do olhar. Se notarmos que a guerra \u00e9 vista por uma percep\u00e7\u00e3o selecionada, que pode ser nacionalista, religiosa ou ideol\u00f3gica, \u00e9 poss\u00edvel arriscar uma outra percep\u00e7\u00e3o. No caso deste filme antol\u00f3gico, trata-se da vis\u00e3o dos soldados brutalizados pelas ordens de um superior que os mete numa enrascada. Os chefes est\u00e3o perdidos, a guerra \u00e9 in\u00fatil e h\u00e1 m\u00e3es em desespero querendo saber de not\u00edcias. Mas seus filhos est\u00e3o morrendo numa carnificina sem sentido.<\/p>\n<p>Os filhos assassinados s\u00e3o as imagens invertidas da vers\u00e3o oficial da guerra. Na c\u00e2mara escura de Maoz, o interior de um tanque cavernoso, o que explode na vis\u00e3o \u00e9 a defasagem entre a ilus\u00e3o do conflito e a verdadeira ess\u00eancia humana, feita de dor, sangue, medo e a vontade de escapar dali com vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Foi um deslumbramento quando descobrimos o principio da c\u00e2mara escura num ver\u00e3o antigo. Est\u00e1vamos dentro do quarto, com os postigos fechados, enquanto o sol martelava no quintal, fervendo as pedras. Nosso divertimento deveria ser alguma palha\u00e7ada, proporcionada pela obscuridade em plena tarde. 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