{"id":2291,"date":"2010-09-01T10:35:22","date_gmt":"2010-09-01T13:35:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2291"},"modified":"2010-09-01T10:35:22","modified_gmt":"2010-09-01T13:35:22","slug":"coragem-vem-do-coracao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/coragem-vem-do-coracao","title":{"rendered":"CORAGEM VEM DO CORA\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p><em>Coraticum<\/em>, origem da palavra coragem, tem cora\u00e7\u00e3o, mente e alma na sua estrutura gra\u00e7as \u00e0 raiz cor, do latim medieval. A fonte do significado, portanto, n\u00e3o \u00e9 a macheza, ou a for\u00e7a bruta, mas o sentimento, a raz\u00e3o e a vontade. Pode ser exercida por qualquer g\u00eanero ou idade. N\u00e3o se confina ao orgulho, \u00e0 soberba, \u00e0 postura hegem\u00f4nica. Pode ser encontrada entre perdedores, como os japoneses na II Guerra, quando viram seu pa\u00eds pulverizado por duas bombas at\u00f4micas e invadido pelos soldados Aliados que prostitu\u00edam suas mulheres.<\/p>\n<p>Muitos homens se enterraram no \u00e1lcool, como mostram dois filmes japoneses separados por 42 anos,<em> Anzukko<\/em> (1958), de Mikio Naruse, e <em>A Esposa de Villon<\/em> (2009), de Kichitaro Negishi. S\u00e3o hist\u00f3rias t\u00e3o id\u00eanticas que chega a ser dif\u00edcil acreditar que foram baseados em obras de autores diferentes, ambos importantes e consagrados. Os textos que d\u00e3o suporte aos filmes s\u00e3o uma novela de Mur\u014d Saisei, baseada na sua rela\u00e7\u00e3o com a filha, no de 1958, e um conto de Osamu Dazai, autobiogr\u00e1fico, sobre sua vida no p\u00f3s guerra, no de 2009. Ambos enfocam a coragem da mulher casada com escritor alco\u00f3latra.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que pelo menos um escreveu tendo conhecimento do trabalho do outro, j\u00e1 que as narrativas tem pontos em comum em demasia, o que vai al\u00e9m da sintonia. O que \u00e9 estranho \u00e9 n\u00e3o estar dispon\u00edvel informa\u00e7\u00e3o a respeito, pelo menos no que consigo pesquisar na internet, j\u00e1 que n\u00e3o tenho biblioteca especializada em cinema ou literatura do Jap\u00e3o. Saisei teve vida longa e consagrada e sua narrativa coincide com o personagem do pai que mant\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o l\u00facida e respons\u00e1vel com a filha. Esta, aprovada pelo pai, casa com um jovem autor frustrado, que se enterra no saqu\u00ea por pura inveja do sogro.<\/p>\n<p>Dazai teve uma vida complicada e acabou morrendo com 41 anos. Foi bastante homenageado no seu centen\u00e1rio no ano passado, \u00e9poca em que foi lan\u00e7ado <em>Villon\u00b4s Wife<\/em>, o belo filme sobre a mulher que encontra trabalho e assim escapa do sufoco de sua vida com um escritor comercial que s\u00f3 pensa em suic\u00eddio. Mas insiste em continuar com o esposo, apesar de roubos e trai\u00e7\u00f5es e mant\u00e9m-se firme, dizendo que n\u00e3o importa se nos sentimos monstros, pois o importante \u00e9 sobreviver. N\u00e3o se trata de \u201csubmiss\u00e3o da mulher japonesa\u201d como quiseram alguns resenhistas, ao contr\u00e1rio. \u00c9 uma forma de auto-supera\u00e7\u00e3o da mulher, no pr\u00e9-feminismo. N\u00e3o h\u00e1 dinheiro nesse Jap\u00e3o demolido e s\u00f3 o que resta \u00e9 a coragem de n\u00e3o se deixar abater pelo medo, que carrega os homens para o fundo do copo.<\/p>\n<p>J\u00e1 <em>Anzukko<\/em> \u00e9 a mo\u00e7a cortejada por muitos pretendentes que acaba se enredando em algu\u00e9m parecido com o pai. Por estar pr\u00f3ximo e ser tamb\u00e9m envolvido com livros, ele acaba ganhando a parada, o que provoca um profundo desespero em toda a fam\u00edlia. O filme em preto e branco \u00e9 muito colado \u00e0s li\u00e7\u00f5es do Mestre Ozu, em que a rotina da fam\u00edlia japonesa \u00e9 mostrada em toda sua crueza nos di\u00e1logos e com a cl\u00e1ssica simplicidade e objetividade das imagens. Mas h\u00e1 um ritmo seguro que leva o espectador ao mergulho naquela fam\u00edlia pressionada pelos poucos recursos e que encontra a trag\u00e9dia num casamento mal resolvido.<\/p>\n<p>O celebrado <em>Villon\u00b4s Wife<\/em> tem mais riqueza visual, mas mant\u00e9m quase os mesmos personagens: a mulher de coragem (neste caso, com o filho pequeno a tiracolo), o marido covarde, b\u00eabado e cretino (mas com talento, ao contr\u00e1rio do jovem autor de Anzukko), o aspirante a escritor (nos dois filmes), o apoio dos mais velhos e o Jap\u00e3o \u00e0s voltas com a mis\u00e9ria das esmolas repassadas pelo ex\u00e9rcito aliado em forma de alimentos como carne de baleia enlatada entre outras barbaridades.<\/p>\n<p>Esses dois filmes apresentam n\u00e3o apenas coincid\u00eancias, mas a colagem pura e simples de uma hist\u00f3ria na outra. N\u00e3o vi nada a respeito na rede. Algu\u00e9m sabe de mais alguma coisa? S\u00e3o ambos excelentes, sobre a coragem da mulher e como ela enfrenta a barra de um pa\u00eds derrotado, representado pelos homens que sobreviveram \u00e0 guerra. Dedicam-se \u00e0 salva\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia nascente, para que haja chance de sobreviv\u00eancia no mundo hostil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Coraticum, origem da palavra coragem, tem cora\u00e7\u00e3o, mente e alma na sua estrutura gra\u00e7as \u00e0 raiz cor, do latim medieval. A fonte do significado, portanto, n\u00e3o \u00e9 a macheza, ou a for\u00e7a bruta, mas o sentimento, a raz\u00e3o e a vontade. Pode ser exercida por qualquer g\u00eanero ou idade. 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