{"id":2295,"date":"2010-09-04T15:57:36","date_gmt":"2010-09-04T18:57:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2295"},"modified":"2010-09-04T15:57:36","modified_gmt":"2010-09-04T18:57:36","slug":"o-essencial-e-o-epico-em-confucius-de-mei-hu-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-essencial-e-o-epico-em-confucius-de-mei-hu-2","title":{"rendered":"O ESSENCIAL E O \u00c9PICO EM CONFUCIUS, DE MEI HU"},"content":{"rendered":"<p>O ESSENCIAL E O \u00c9PICO EM CONFUCIUS, DE MEI HU<\/p>\n<p>Deveria escrever sobre as elei\u00e7\u00f5es? Ser \u201cpontual\u201d e gerar textos datados sobre a impermeabilidade da pol\u00edtica? Ou insistir em cinema, literatura, poesia e arte, como tem sido os assuntos aqui do Di\u00e1rio da Fonte? A resposta \u00e9 dada pelo excesso de S\u00e9tima Arte neste espa\u00e7o onde, em tese, cabe tudo. \u00c9 por isso que hoje abordo um filme estupendo, daqueles que te devolvem o sentimento de esp\u00edrito habitado, n\u00e3o s\u00f3 pela excel\u00eancia da realiza\u00e7\u00e3o (um assombro de produ\u00e7\u00e3o, interpreta\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o), como pela corre\u00e7\u00e3o de sua linhagem, j\u00e1 que se trata de uma obra grandiosa, mas de narrativa enxuta, em que a objetividade convive com o intimismo, a for\u00e7a com a leveza, a sabedoria com a brutalidade, a vida dom\u00e9stica com a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O cr\u00e9dito \u00e9 para a equipe liderada pela mais celebrada cineasta da China, diretora de grandes \u00e9picos hist\u00f3ricos que fizeram sucesso arrasador na televis\u00e3o do seu pa\u00eds desde o final dos anos 90, Mei Hu, que ocupa hoje o topo entre os grandes realizadores do cinema chin\u00eas. No seu \u00e9pico Confucius (2010), ao selecionar a fase da vida de um mito da filosofia, da educa\u00e7\u00e3o e da pol\u00edtica, ela atinge o n\u00edvel de obras fundamentais.<\/p>\n<p>O Ocidente tem perdido essa capacidade de abordar com seriedade o \u00e9pico, a grandeza das transforma\u00e7\u00f5es que marcam a humanidade. A China o recupera, n\u00e3o s\u00f3 porque tem bala na agulha, uma hist\u00f3ria de cinco mil anos, mas porque disp\u00f5e de gente qualificada que sabe o que faz. Por motivos pol\u00edticos, o governo chin\u00eas patrocina as obras que regatam a China imperial. Mas tudo depende de quem faz. Mei Hu acerta no veio, equilibrando-se entre as tend\u00eancias, hoje, de se enfocar o passado.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso entregar-se a percep\u00e7\u00f5es obsoletas, mas tamb\u00e9m n\u00e3o se deve chutar o balde quando se aborda grandes personalidades. Enquanto Peter Greenaway debocha de Rembrandt apresentando-o nu, superficial, escatol\u00f3gico em Nightwatching (2007), Mei Hu mostra Conf\u00facio como um estrategista, que se enreda na pol\u00edtica do seu reino, e que s\u00f3 adquire a aura do mito depois de muito sofrimento e erro. Para encarnar o grande personagem , ela convidou Yun-Fat Chow, ator de filmes de a\u00e7\u00e3o. Foi criticada. Acharam que iria fazer besteira com Conf\u00facio. Ao contr\u00e1rio, Chow arrasa com um personagem din\u00e2mico, assertivo, insistente e concentrado, que aos poucos ganha sobriedade e se transforma com a experi\u00eancia marcada pela dor e o ex\u00edlio.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso se fazer de interessante como Greenaway com seu p\u00edfio Rembrandt, que no fundo revela a soberba dos cidad\u00e3os deste in\u00edcio de s\u00e9culo. Como possuem tudo \u00e0 m\u00e3o, e tem acesso a tudo, acham que s\u00e3o g\u00eanios. Como s\u00e3o g\u00eanios convictos, imaginam que g\u00eanios dos s\u00e9culos anteriores eram assim como eles: ficavam falando sobre temas recorrentes hoje (os di\u00e1logos s\u00e3o de dar d\u00f3). Acham tamb\u00e9m que tudo se mistura, que o grande artista n\u00e3o passava de um bunda suja metido, a dizer e a fazer barbaridades.<\/p>\n<p>No oposto dessas cretinices, Confucius \u00e9 um primor de seriedade, e isso inclui uma vis\u00e3o cr\u00edtica do grande s\u00e1bio, que tomou decis\u00f5es erradas, que foi enganado de maneira vil pelos espertalh\u00f5es e que levou muita gente para a morte com suas decis\u00f5es. Tudo isso n\u00e3o tira o seu m\u00e9rito, pois continua sendo um paradigma, admirado por sua obra e sua biografia. Todo falado em mandarim cl\u00e1ssico, Confucius tem ainda a chamada carpintaria de produ\u00e7\u00e3o impec\u00e1vel. Chega a ser um anacronismo tanta perfei\u00e7\u00e3o nas guerras com suas m\u00e1quinas e t\u00e1ticas, onde tudo funciona. Os conflitos mostrados na tela envolviam alta tecnologia, por isso a suspeita de anacronismo. Se incluirmos a\u00ed o festival de cores cl\u00e1ssicas transformando Confucius numa galeria de arte, ent\u00e3o o servi\u00e7o est\u00e1 feito.<\/p>\n<p>Trata-se de um filme admir\u00e1vel, que d\u00e1 um banho nas frescuras de realizadores ocidentais. Foi-se o tempo em que o Ocidente gerava um David Lean. O maior cineasta do mundo est\u00e1 presente quando vemos este filme. Como Lawrence, como Jivago, Confucius arrebata pelo carisma do mito e pelo talento de seus realizadores. E por ter uma narrativa que \u00e9 um primor de edi\u00e7\u00e3o, onde s\u00f3 o essencial vinga. Isso n\u00e3o significa que haja apenas cenas de a\u00e7\u00e3o. H\u00e1 equil\u00edbrio entre a introspec\u00e7\u00e3o e a f\u00faria, entre a paix\u00e3o e o \u00f3dio, entre a alegria e o remorso.<\/p>\n<p>Confucius. Veja, para saltar da cadeira nos momentos da luta, aprender um pouco de pol\u00edtica nas conversas entre generais, ministros e soberanos, e chorar quando o Mestre volta \u00e0 sua terra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ESSENCIAL E O \u00c9PICO EM CONFUCIUS, DE MEI HU Deveria escrever sobre as elei\u00e7\u00f5es? Ser \u201cpontual\u201d e gerar textos datados sobre a impermeabilidade da pol\u00edtica? Ou insistir em cinema, literatura, poesia e arte, como tem sido os assuntos aqui do Di\u00e1rio da Fonte? 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