{"id":230,"date":"2005-05-29T15:50:34","date_gmt":"2005-05-29T17:50:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=230"},"modified":"2010-08-18T19:09:08","modified_gmt":"2010-08-18T22:09:08","slug":"o-perigoso-mar-de-caymmi","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-perigoso-mar-de-caymmi","title":{"rendered":"O PERIGOSO MAR DE CAYMMI"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Dorival Caymmi n\u00e3o canta a praia ou o mar, canta a pesca, atividade do trabalhador que arrisca a vida todos os dias no desempenho do of\u00edcio. Sua obra \u00e9 um \u00e9pico sobre os que lutam para sobreviver num ambiente hostil, o oceano, que atrai pela necessidade e seduz para uma armadilha mortal quando acena para o lazer em pleno expediente. O bem que o pescador tem no mar \u00e9 a ilus\u00e3o de que pode abandonar o trabalho enquanto navega e entregar-se ao que lhe \u00e9 vedado, o prazer.<\/p>\n<p>DOCE MAR &#8211; O verso de Caymmi \u201c\u00e9 doce morrer no mar\u201d, ou mesmo o outro \u201co mar quando quebra na praia \u00e9 bonito\u201d s\u00e3o ironias de um rapsodo, de um cantador de romances, um Homero do litoral da civiliza\u00e7\u00e3o atl\u00e2ntica. O turista tem uma doce liga\u00e7\u00e3o com a praia, n\u00e3o o pescador, que amarga uma vida curta, dolorosa. Doce \u00e9 a nostalgia, \u00fanico rem\u00e9dio para a dor da lembran\u00e7a dos que morreram lutando pela vida da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>A mulher que fica na espera da jangada que n\u00e3o volta tem uma rival, Iemanj\u00e1, que rapta o pescador exausto daquela trag\u00e9dia. Voltar para qu\u00ea? Melhor entregar-se nos bra\u00e7os da deusa que \u00e9 o movimento feminino das ondas, que o leva para longe, para o fundo, para a euforia do afogamento, para fora das necessidades. N\u00e3o precisar\u00e1 mais o pescador voltar com algum peixe, n\u00e3o enfrentar\u00e1 mais a fome e a frustra\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 tema de can\u00e7\u00f5es e de pranto.<\/p>\n<p>A pesca que leva a vida dos homens serve para interromper o pouco de alegria que existe na vida em terra. Chico, Bento, os her\u00f3is da Su\u00edte dos pescadores, animam festas, s\u00e3o galanteadores. Suas aus\u00eancias s\u00e3o pranteadas pelas mulheres e camaradas. Caymi \u00e9 a voz desse lamento profundo e por isso sua voz tem a gravidade da trag\u00e9dia. Ser confundido com o bom baiano que leva a vida na flauta \u00e9 um erro grav\u00edssimo. \u00c9 impressionante como essa gravidade passa para sua descend\u00eancia. N\u00e3o existe maior gravidade na voz feminina brasileira do que em Nana Caymi, n\u00e3o existe maior seriedade musical do que em Dori Caymmi, o erudito que resgata a complexidade da obra do pai e a projeta para o infinito.<\/p>\n<p>PERDA, PERD\u00c3O &#8211; A dor tempera a conviv\u00eancia, \u00e9 insumo para a civiliza\u00e7\u00e3o atl\u00e2ntica, da qual Dorival \u00e9 o representante m\u00e1ximo. Sua presen\u00e7a chama-se toler\u00e2ncia, seu trabalho vem do fundo da trag\u00e9dia brasileira de um litoral ainda extrativista e abandonado \u00e0 sua sorte mesmo 500 anos depois da Descoberta. Conviver, sorrir, abra\u00e7ar, ser doce: esse \u00e9 o privil\u00e9gio de quem realiza uma obra perfeita, genial at\u00e9 no m\u00ednimo detalhe, grandiosa e sedutora. Caymmi toma partido do pescador que morre pelo peixe, pelo p\u00e3o. \u201cA jangada saiu com Chico, Ferreira e Bento. A jangada voltou s\u00f3. Cad\u00ea voc\u00ea, cad\u00ea voc\u00ea?\u201d<\/p>\n<p>Essa civiliza\u00e7\u00e3o de perdas precisa do perd\u00e3o para continuar vivendo. O que chamam de conformismo, \u00e9 na verdade o superlativo da perda, o sentimento do perd\u00e3o. O ritmo do mar dita a can\u00e7\u00e3o, que eterniza na arte o corpo do pescador que foi-se para sempre. A tempestade, a chuva, s\u00e3o os vil\u00f5es dessa obra maravilhosa. O bom tempo define a boa terra, mas n\u00e3o adianta a calmaria na terra se n\u00e3o existir bonan\u00e7a no mar. Enfrentar esse perigo exige uma postura de solidariedade. Pescar \u00e9 uma atividade coletiva, plural. \u201cMinha jangada vai sair para o mar, vou trabalhar, meu bem querer, se Deus quiser quando eu voltar do mar, um peixe bom eu vou trazer; meus companheiros tamb\u00e9m v\u00e3o voltar e a Deus do c\u00e9u vamos agradecer.\u201d<\/p>\n<p>O destino, o desfecho gratificante do trabalho, est\u00e1 nas m\u00e3os de Deus. Quando Deus \u00e9 contrariado, o pescador some. Sua ferramenta, a embarca\u00e7\u00e3o que o leva para a luta, volta intacta. Quem pesca o pescador \u00e9 o mar que fica com seu corpo. Resta da trag\u00e9dia a can\u00e7\u00e3o. A m\u00fasica soprada pelo vento. A voz que vem do fundo. O mar \u00e9 perigoso. Exige respeito. Por isso as can\u00e7\u00f5es de Caymmi s\u00e3o sagradas. Elas s\u00e3o como capelas \u00e0 beira mar, e sua obra, ditada por essa voz, comp\u00f5em a impon\u00eancia de uma catedral.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dorival Caymmi n\u00e3o canta a praia ou o mar, canta a pesca, atividade do trabalhador que arrisca a vida todos os dias no desempenho do of\u00edcio. 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