{"id":2300,"date":"2010-09-01T10:42:49","date_gmt":"2010-09-01T13:42:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2300"},"modified":"2010-09-01T10:42:49","modified_gmt":"2010-09-01T13:42:49","slug":"hitchcock-coloca-citzen-kane-no-diva","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/hitchcock-coloca-citzen-kane-no-diva","title":{"rendered":"HITCHCOCK COLOCA CITZEN KANE NO DIV\u00c3"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de hoje, em que nenhum personagem \u00e9 normal e todos cometem assassinatos impunemente em frente \u00e0s c\u00e2maras e riem de maneira doente, em d\u00e9cadas passadas o cinema costumava curar a psicopatia. \u00c9 o caso de <strong>Spellbound <\/strong><em>(Quando fala o cora\u00e7\u00e3o<\/em> , 1945), de Hitchcock, em que Ingrid Bergman \u00e9 a psiquiatra que prova a inoc\u00eancia do amado Gregory Peck ao investigar as causas do seu desequil\u00edbrio mental. A psiquiatria a\u00ed serve apenas como escada para uma hist\u00f3ria policial, em que o assassino \u00e9 descoberto no final pela dedu\u00e7\u00e3o da m\u00e9dica. Mas isso n\u00e3o \u00e9 relevante. O que importa num filme \u00e9 como ele se relaciona com o cinema e n\u00e3o com psican\u00e1lise, a Hist\u00f3ria ou a literatura.<\/p>\n<p>Existem muitas sintonias entre os grandes cineastas. \u00c9 ponto pac\u00edfico que <em>Cidad\u00e3o Kane<\/em> (1941), uma revolu\u00e7\u00e3o na montagem, no uso da c\u00e2mara, na ilumina\u00e7\u00e3o, bebeu muito em <em>Rebecca<\/em> (1940). S\u00e3o dois filmes separados por um ano de realiza\u00e7\u00e3o. E h\u00e1 muito Kane em <em>Spellbound<\/em>. Costuma-se falar de clima, lentes, ilumina\u00e7\u00e3o etc. Prefiro falar sobre cinema.<\/p>\n<p>Em Spellbound, o mestre do suspense coloca o principal personagem do g\u00eanio Orson Welles no div\u00e3. Sim, Hitchcok analisa Cidad\u00e3o Kane. For\u00e7ado? Sim, se levarmos em considera\u00e7\u00e3o a diferen\u00e7a brutal entre os dois personagens, o suspeito de Hitch e o magnata de Welles. O que um tem a ver com outro? Cinema. Se virmos duas cenas, uma em cada filme, saberemos como se relacionam. Inclusive possuem imagens quase id\u00eanticas: a do menino num tren\u00f3.<\/p>\n<p>Todos os espectadores sabem que o tren\u00f3 do menino Kane se chamava Rosebud. Mas no filme o segredo n\u00e3o \u00e9 compartilhado com ningu\u00e9m e a j\u00f3ia da inf\u00e2ncia acaba sendo queimada junto com o acervo do bilion\u00e1rio falido. Kane n\u00e3o curou a origem do seu mal e arrastou pela vida o abandono que sofreu na inf\u00e2ncia, quando tinha apenas um amigo, aquele tren\u00f3. Em Spellbound, um dos sinais que levam a m\u00e9dica a decifrar a charada da doen\u00e7a do futuro marido \u00e9 o rastro em curva do tren\u00f3 na neve.<\/p>\n<p>Seguindo essa pista, ela descobre o local e as circunst\u00e2ncias do evento em que houve o assassinato. Mas esse sinal encobre outro, mais profundo: as estrias se referem a um epis\u00f3dio tr\u00e1gico, a morte de algu\u00e9m muito pr\u00f3xima da fam\u00edlia do suspeito. Assim como a bola de cristal que se parte no in\u00edcio e fim de Kane, que leva \u00e0 mem\u00f3ria do menino solit\u00e1rio, as estrias na neve carregam a lembran\u00e7a para a morte do irm\u00e3o nas estrias de uma cerca pontiaguda, num acidente provocado pelo pr\u00f3prio suspeito.<\/p>\n<p>A culpa e o assassinato travam a mente de Peck, que come\u00e7a a sofrer de amn\u00e9sia. Kane tamb\u00e9m tinha perdido contato com esse universo soterrado e s\u00f3 volta a ele quando j\u00e1 est\u00e1 condenado. Mas Peck tem a maravilhosa Bergman ao seu lado, lutando por ele. A vantagem \u00e9 assombrosa. Quem resiste lutar para se curar e assim poder cair nos bra\u00e7os de uma criatura dessas? Kane s\u00f3 tinha uma amante fr\u00edvola. Ningu\u00e9m o salvou da derrocada e nem lhe deu a m\u00e3o para resgatar sua vida. Foi-se lamentando a perda remota, que marcou sua exist\u00eancia. O suspeito de Hitchcock teve sorte e contou com apoio para poder estocar as cenas que o traumatizaram e assim p\u00f4de exorciz\u00e1-las.<\/p>\n<p>\u00c9 muito otimismo, pois sabemos que psicopatia tomou conta do mundo e hoje as sociedades globalizadas precisam de matadores e corruptos para fazer o servi\u00e7o sujo. Acabou a \u00e9poca em que havia o conceito de normalidade. Foi-se embora o personagem muito comum desse tempo, o do policial honesto, modelo de uma sociedade organizada, que ajudava a recolocar as coisas no lugar. Havia a ingenuidade policial, mas n\u00e3o a brutalidade mental como temos a partir talvez de Callagham, de Clint\/Siegel., dos 007, dos Mel Gibson, dos Miss\u00f5es Imposs\u00edveis etc. Temos Cage, Damon ou Denzel fazendo papel dos prec\u00e1rios homens da lei a servi\u00e7o da morte. N\u00e3o podemos mais aspirar \u00e0 cura. Isso \u00e9 coisa do passado. N\u00e3o h\u00e1 esperan\u00e7a no ser humano. Sabemos que somos assim mesmo. Ou, pelo menos, nos convencemos disso.<\/p>\n<p>Diante da barb\u00e1rie atual. Hitchcock, que era tido como amea\u00e7ador com as taras que mostrava em cena, n\u00e3o passa de um sacrist\u00e3o. Hitch era \u00e9tico o tempo todo e por isso seus filmes s\u00e3o encantadores e n\u00e3o nos assustam mais. Talvez jamais tenham sido feitos par assustar. H\u00e1 muita com\u00e9dia no que fez. E h\u00e1, sempre, genialidade. Quando a m\u00e9dica travada e s\u00e9ria, que n\u00e3o usa roupas femininas, se entrega ao amor, uma infinidade de portas se abrem, numa seq\u00fc\u00eancia magistral que nos remete ao infinito. E h\u00e1 o c\u00e9lebre sonho desenhado por Salvador Dali. \u00c9 quando o cinema era mais do que entretenimento. Era arte, cultura, lazer a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>O mundo hoje \u00e9 mais Kane e seu momento terminal. E n\u00e3o a lua-de-mel de Gregory Peck, considerado o maior ator de todos os tempos em 1999 pelo American Film Institute, ganhador de cinco Oscar, e a magn\u00edfica Ingrid Bergman, a inesquec\u00edvel. Como diz Cec\u00edlia Meirelles no seu verso sempre lembrado: \u201cEm que espelho ficou perdida a minha face?\u201d Acho que foi nesse espelho, o dos filmes fundamentais do s\u00e9culo 20. L\u00e1, mora nosso rosto esquecido, Rosebud cravado no cora\u00e7\u00e3o ainda humano.<\/p>\n<p>Por isso respondo sempre da mesma forma a eterna pergunta: O que fizemos de nossas vidas? Fomos ao cinema.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Ao contr\u00e1rio de hoje, em que nenhum personagem \u00e9 normal e todos cometem assassinatos impunemente em frente \u00e0s c\u00e2maras e riem de maneira doente, em d\u00e9cadas passadas o cinema costumava curar a psicopatia. \u00c9 o caso de Spellbound (Quando fala o cora\u00e7\u00e3o , 1945), de Hitchcock, em que Ingrid Bergman \u00e9 a psiquiatra [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2300"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2300"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2300\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2301,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2300\/revisions\/2301"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2300"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2300"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2300"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}