{"id":2313,"date":"2010-09-17T11:35:09","date_gmt":"2010-09-17T14:35:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2313"},"modified":"2010-09-17T11:35:09","modified_gmt":"2010-09-17T14:35:09","slug":"o-tunel","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-tunel","title":{"rendered":"O T\u00daNEL"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><\/p>\n<p>Olho da varanda as pinceladas de nuvens escarlates, fiapos t\u00eaxteis de a\u00e7\u00facar, que raspam o ch\u00e3o celeste preparando-o para o anoitecer. \u00c9 t\u00eanue essa divis\u00f3ria entre o verbo encarnado, espesso no esp\u00edrito desatento, e o discurso, expl\u00edcito nas ondas que chegam em forma de luzes em telas planas e c\u00f4ncavas, arrebentando os port\u00f5es dos t\u00edmpanos, da paci\u00eancia, do tempo. Envolvidos com a brutalidade do jogo duro, olhamos com desconfian\u00e7a o som do poema, enredando-se como l\u00e3 rec\u00e9m-nascida na pauta farpada dos arames.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que as palavras jamais se submetem aos nossos caprichos se n\u00e3o colocarmos os sentidos no lugar certo. Elas esvoa\u00e7am, trai\u00e7oeiras, enganando-nos com suas luzes de n\u00e9on nacarado, pegajoso e triunfante. Proferimos frases como se fossem nossas, mas s\u00e3o apenas rebotalhos de bordados que a Musa, m\u00e3e da palavra, escolhe para seus enfeites. Precisamos olhar mais para o piso, onde est\u00e1 sand\u00e1lia de couro evolvendo o p\u00e9 de uma fada, uma ninfa, um esconde-esconde de duendes. Devemos ter cuidado, pois acreditar\u00e3o que deliramos e poder\u00e3o nos internar, n\u00f3s, os fabricantes de p\u00f3.<\/p>\n<p>Porque \u00e9 a\u00e9reo esse olhar dos meninos viajantes, os que ficam quietos no canto enquanto a algazarra toma conta do trem. Eles est\u00e3o diante do enigma que \u00e9 o vidro que transparece o pampa no outro lado da cerca e as imagens refletidas de personagens que os acompanham, todos pesarosos com os gritos da mocidade. L\u00e1 est\u00e1 a senhora de preto com chap\u00e9u redondo, compenetrada, tendo um v\u00e9u marrom sobre a face de cris\u00e1lida. Ou o comerciante que vai ver o filho juiz de direito numa ro\u00e7a qualquer aos p\u00e9s das coxilhas.<\/p>\n<p>Um dos garotos recolhidos estranha essas vis\u00f5es do passado, j\u00e1 que pertence \u00e0 loucura que toma conta do ambiente, colegas fardados de cal\u00e7a curta azul marinho e camisa branca de mangas compridas. Ele passa a m\u00e3o na gomina do cabelo e empurra o amigo que tenta lev\u00e1-lo para o perigo, a plataforma onde ruge o monstro do trem em movimento. Mas ele quer continuar s\u00f3, pois acreditou no guarda-volumes, que na esta\u00e7\u00e3o assustou-o com a possibilidade de um t\u00fanel. Bobagem, disseram para ele, vag\u00e3o n\u00e3o \u00e9 tatu para andar debaixo da terra.<\/p>\n<p>Mas ele sabe que vir\u00e1. O arco da abnega\u00e7\u00e3o devota lhe enforcar\u00e1 os olhos e ele entrar\u00e1 naquele cilindro escuro, onde pontificam os fantasmas definitivos. Sou a Confus\u00e3o, dir\u00e1 um, e eu o Ideal, dir\u00e1 outro. Vim para te arrastar nas corredeiras, diz a Aventura. Quero te mostrar uma coisa, segreda o Jo\u00e3o Ningu\u00e9m. O menino aguarda esse momento com o ter\u00e7o na m\u00e3o e j\u00e1 n\u00e3o escuta os solavancos da gurizada em festa. Ele est\u00e1 concentrado no que as palavras lhe revelam por meio de estalos, sinos, ruflar de folhas, penar de rostos vilanizados.<\/p>\n<p>Quando enfim o trem sair para a luz, ele ter\u00e1 o p\u00e2nico de ver o c\u00e9u sendo pincelado por fiapos de p\u00farpura, pois o mundo estar\u00e1 pronto para se desvencilhar do dia. A noite ent\u00e3o, mortal e misteriosa, o atrair\u00e1 com suas grandes abas. Mas ele n\u00e3o adormecer\u00e1, pois dentro de si ganhou de presente a chave que decifra a charada do verbo feito tambor, p\u00e9tala que silencia.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada originalmente no jornal Momento de Uruguaiana<br \/>\n<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Olho da varanda as pinceladas de nuvens escarlates, fiapos t\u00eaxteis de a\u00e7\u00facar, que raspam o ch\u00e3o celeste preparando-o para o anoitecer. \u00c9 t\u00eanue essa divis\u00f3ria entre o verbo encarnado, espesso no esp\u00edrito desatento, e o discurso, expl\u00edcito nas ondas que chegam em forma de luzes em telas planas e c\u00f4ncavas, arrebentando os port\u00f5es [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2313"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2313"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2313\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2314,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2313\/revisions\/2314"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2313"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2313"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2313"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}