{"id":2315,"date":"2010-09-17T11:42:32","date_gmt":"2010-09-17T14:42:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2315"},"modified":"2010-09-17T11:42:32","modified_gmt":"2010-09-17T14:42:32","slug":"paisagem-e-poesia-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/paisagem-e-poesia-2","title":{"rendered":"PAISAGEM \u00c9 POESIA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><\/p>\n<p>A m\u00e1xima transgress\u00e3o da arte foi o cubismo, que contrariou a natureza e encheu de arestas e \u00e2ngulos o que a humanidade estava acostumada a ver em curvas. Sorte que fui criado longe dessas barbaridades e cedo me envolvi com as ondula\u00e7\u00f5es da paisagem. Palmilhei as coxilhas, que se elevam timidamente para n\u00e3o contrariar a natureza do pampa, e adotei a religi\u00e3o do por-de-sol, quando o fogo suspenso no c\u00e9u se banha no rio e deixa nele um rastro de arco-\u00edris.<\/p>\n<p>A cidade, apesar de ser concebida na linha reta e no quadrado, praticamente acompanha essa suavidade com as ruas largas e planas. E como est\u00e1 a cavaleiro do Uruguai, \u00e9 poss\u00edvel voltar para casa contando as estrias de luz sobre a \u00e1gua, doce, que nos define como povo de rosto exposto na fronteira. Desconfio que a poesia nasce dessa navega\u00e7\u00e3o e que as palavras completam seus ciclos inspirados na rota\u00e7\u00e3o de linhas que se sucedem nos olhos e na mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Foi dif\u00edcil permanecer fiel a essa linhagem sem sucumbir \u00e0s cristaliza\u00e7\u00f5es do passado ou se entregar aos modismos. Criar uma linguagem pr\u00f3pria, imperme\u00e1vel \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es e cobran\u00e7as, sem escapar do tempo presente, \u00e9 uma engenharia cultural complicada, uma f\u00edsica qu\u00e2ntica que desmoraliza o conforto da aritm\u00e9tica da viv\u00eancia. O conhecimento \u00e9 um susto na esquina e nossa tend\u00eancia \u00e9 puxar a arma para nos defender. Ou ent\u00e3o apostar que temos for\u00e7a suficiente para nos impregnar da novidade, mas sem se abaixar \u00e0 toa aos seus des\u00edgnios.<\/p>\n<p>O que sempre nos ajudou foram os exemplos de sobra de pessoas que conseguiram manter sua arte pessoal intacta, e ao mesmo tempo universal e bem postada na vida contempor\u00e2nea. O segredo \u00e9 aquilo que Carlos Drummond de Andrade ensinou: \u201cpenetra surdamente no reino das palavras\u201d. Surdamente significa: sem di\u00e1logo interno, sem interpor conceitos e significados na palavra. Paradoxalmente, ficar aberto \u00e0 sua m\u00fasica, pois literatura n\u00e3o dispensa o ouvido treinado pela forma\u00e7\u00e3o e o talento. Tornar-se um virtuose da pr\u00f3pria linguagem \u00e9 a miss\u00e3o de um poeta ao longo de uma vida dedicada ao sonho bom de viver escrevendo.<\/p>\n<p>Mas eu falava dos exemplos locais. Temos alguns expostos na pra\u00e7a. Gon\u00e7alves Vianna e Alceu Wamosy, que est\u00e3o enquadrados em escolas, mas prefiro v\u00ea-los como \u00fanicos em seus talentos, mesmo que possamos detectar neles fortes influ\u00eancias. Temos o J.A Pio de Almeida, um poeta cl\u00e1ssico e \u00e9pico e que nos deu essa obra-prima oculta, As Brasinas, livro que teve apenas uma edi\u00e7\u00e3o, de 500 exemplares, cacifados pelo autor. Ningu\u00e9m deu bola, com exce\u00e7\u00e3o do nosso professor C\u00edcero Galeno Lopes, que lhe dedicou um valioso ensaio.<\/p>\n<p>Temos o Bira Tuxo, com seu trabalho pessoal dentro de uma tradi\u00e7\u00e3o, um inovador como Colmar Duarte, que aborda com esp\u00edrito livre as lides formatadas por gera\u00e7\u00f5es no ambiente que nos criou. Temos Luiz de Miranda com sua poesia grandiosa que corre mundo. E tantos outros exemplos, que \u00e9 imposs\u00edvel citar, j\u00e1 que Uruguaiana \u00e9 terra de poetas. Tudo, acredito, fruto dessa paisagem redonda que nos seduz com seu cerco amoroso e inspirador.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica originalmente publicada no jornal Momento de Uruguaiana<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s A m\u00e1xima transgress\u00e3o da arte foi o cubismo, que contrariou a natureza e encheu de arestas e \u00e2ngulos o que a humanidade estava acostumada a ver em curvas. 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